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Ao limite com Huppert e Mendoza

por Orlando Margarido — publicado 12/02/2012 18h37, última modificação 12/02/2012 18h37

Berlim – Olá, estou no hotel, num dos raros momentos até agora em que foi possível deixar o endereço central do festival, a Potsdamer Platz. Daqui da janela ainda posso avistar os modernos arranha-céus que circundam essa praça que foi totalmente redesenhada depois da queda do muro de Berlim. É uma espécie de laboratório de arquitetura, belíssima. Bem no centro dela há a entrada para o metrô e o trem, um lugar de passagem dos berlinenses no dia-a-dia mas também para quem quer bisbilhotar o que acontece em torno da Berlinale. Numa travessa da praça, também de nome Potsdamer, está o burburinho do festival, com o Palast, ou o palácio moderno (e aqui entre nós um tanto kitsch, com muito neon), onde se dão as sessões de imprensa e gala. E, claro, não pode faltar o tapete vermelho. Ao lado o hotel Hyatt, que acolhe oficialmente a programação de coletivas, a sala de imprensa, escritórios etc. As vezes é bom sair um pouco dessa multidão. Sim, porque só de jornalistas são mais de três mil credenciados.
Foi no Hyatt que aconteceu a pouco o meu encontro com Isabelle Huppert. Meu e de mais alguns colegas, juntos numa mesa redonda para entrevistá-la. Madame La méchante, a malvada , como a chamam um tanto por piada, tem lá seus dias de mau humor como sabem os jornalistas que cobrem os festivais. Mas estava um doce, uma simpatia, aberta a falar sobre tudo. Ou quase. O assunto era seu papel principal no novo filme do filipino Brillante Mendoza, Captive, exibido hoje ao meio-dia local. No ano retrasado, uma retrospectiva em São Paulo, com a presença diretor, trouxe seus filmes como Serbis e Kinatay. Não faz muito tempo também estreou Lola, o filme anterior a Captive. Mendoza filma bastante, já chegou a ter dois filmes seus ao mesmo tempo em Cannes. São trabalhos de registro mais pontual, sobre dramas pessoais das Filipinas, mas que encaram os grande problemas do país. Captive não deixa de ser nesta linha, mas é uma novidade também. É uma produção mais ambiciosa do cineasta, com dinheiro de vários países europeus e atores estrangeiros. Não se passa em Manilla, a capital, mas nas selvas do país. Mendoza conta um fato real ocorrido em 2001, quando hóspedes de um resort foram sequestrados por um grupo de islâmicos radicais em troca de recompensa. Passaram quase um ano na selva, fugindo do exército e quem mais queria dete-los. Huppert não interpreta uma hóspede, mas sim uma missionária que por acaso desembarcava no hotel na hora errada. Durantes as filmagens, disse, lia a biografia de Ingrid Bittencourt, sequestrada pelas Farc. Huppert conhece o cinema de Mendoza e se interessou especialmente pela figura da mulher em primeiro plano que há em seu cinema. E claro, como é habitual, gostou do desafio mais uma vez de um personagem que vai ao limite. Por mais de duas horas, acompanhamos o desespero dela e do grupo, sua luta pela sobrevivência em meio a tiroteios e as dificuldades da floresta. Mendoza leva o espectador junto, e não seria exagero dizer que o faz passar momentos tortuosos. Mas esse é o seu cinema, exagerado, nada faciltador e carregado de brutalidade. Seu projeto pode ser diferente um tanto dos demais filmes, mas não seu discurso. Ele continua a defender que um cineasta não pode mudar a realidade em que vive. Nas Filipinas tornou-se banal o sequestro de pessoas e sua representação parece até desafiar o real. Mas vou entrevistá-lo na quarta-feira e depois trago mais idéias sobre seu cinema aqui.
Captive não foi o único título hoje da competição. Logo cedo, tivemos o grego Metéora, que não causou grande comoção. Talvez nem a história permita tal sentimento. Mas achei singela a fonte religiosa do qual se extrai o drama de um monge e uma freira de um interior remoto e atual que vivem em mosteiros encarapitados em montanhas. Eles se encontram às escondidas e, claro, acabam por iniciar um romance até chegar as vias de fato. Aos poucos diálogos junta-se um recurso de animação baseado nos ícones religiosos ortodoxos como modo de demonstrar a culpa de Urania e Theodor. Esses nomes e a sugestão pictórica me fez pensar em alguma lenda local, mas não tive tempo de checar na coletiva de imprensa se procede. Vou tentar recuperar no vídeo diário do festival. De qualquer forma, não temos um filme nem original no tema nem no formato.
Esse também talvez seja o problema de Shadow Dancer, concorrente inglês passado na Irlanda. O filme de James Marsh, que de documentários como Man on Wire sobre o equilibrista Phillipe Petit faz agora sua primeira ficção, vai a Irlanda do IRA para um thriller não muito novo, mas eficaz. Tem no elenco Clive Owen e Andrea Riseborough, que trabalhou no fllme de Madonna, W.E. Ela é a jovem que quando criança vê o irmão ser alvejado em Belfast num tiroteio na rua. Sente-se culpada porque trocou de lugar com o garoto numa tarefa cotidiana. Vinte anos depois, nos anos 90, Colette agora está a serviço do IRA e acaba presa por um agente inglês, papel de Owen. Este oferece a ela e seu filho pequeno segurança em troca de informações, trabalho duplo que ela tentará fazer enquanto colabora com os irmãos e amigos integrantes do grupo de libertação irlandês. Nada do que já não se viu melhor em filmes como de Ken Loach, por exemplo, e ainda com alguns furos de roteiro que condenam a trama.
Ainda hoje fui assistir ao documentário sobre o artista chinês Ai Wei Wei, o nome que convulsiona o governo do país com seus trabalhos voltados a contestação da política da China, mas principalmente com sua voz de poderosa aglutinação pela internet. Claro que é bacana conhecer mais de sua formação e seus princípios, mas esperava ter mais de seus trabalhos também, que a Bienal de São Paulo já exibiu. Amanhã tenho entrevista com o diretor. Wei Wei, claro, não veio a Berlim, por certo não conseguiu permissão depois de tantas sentenças de prisão já cumpridas por ele.
Daqui a pouco sigo para ver o novo filme de outro chinês, Zhang Yimou, o que parece ser mais um das aventuras de rituais de luta de espadas que ele e outros de sua geração vem se especializando. Já não tenho muita esperança de voltar a ver um bom filme dele como no passado, Lanternas Vermelhas ou Nenhum a Menos, por exemplo, este último também de fundo político, contestatório. Entrevistei-o há mais de dez anos em Veneza para a Gazeta Mercantil e o aparato em torno era impressionante, pois o governo mandava filmar as entrevistas para saber o que Yimou falava. Creio que nesses tempos não há mais necessidade disso para ele. Não que a China tenha mudado, mas Yimou mudou. Tenho impressão que não devo esperar muito dessa sessão, ainda que tenha a curiosa participação de Christian Bale no elenco, vocês sabem, o melhor Batman dos últimos tempos. Por enquanto não apareceu uma grande surpresa desta Berlinale, exceto dos irmãos Taviani, veteranos que se remodelam, e isso é o que se espera num festival desse porte. Mas A Separação, vencedor do ano passado, também surgiu assim, do nada. E arrebatou. Então esperemos. Até.

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