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Acabou! E bem

por Orlando Margarido — publicado 17/02/2012 16h34, última modificação 17/02/2012 16h34

Berlim – Caros, terminou oficialmente nesta manhã a competição. E não é que tivemos uma boa surpresa, ainda que não se possa levar esse conceito positivo ao pé da letra, ou melhor, para dentro do filme. Isso porque Rebelle, ou War Witch no título internacional, está longe de tratar de algum tema frívolo, agradável, do belo e da poesia de que muitas vezes o cinema é feito. Mas o diretor de origem vietnamita Kim Nguyen até procura suavizar a rudeza de seu retrato sobre a atuação dos rebeldes na guerra civil do Congo (país que não se assume na tela, mas na língua banta do lingala de seus protagonistas) através do drama da menina Komona. Quando um bando armado toma de assalto o vilarejo onde mora, ela é obrigada a matar os próprios pais para que não sofram barbaridades e também mostre valentia suficiente para integrar o grupo. Ela, então, como outros de sua idade, passa a ser formada na luta até que o chefão a escolhe para ser sua feiticeira oficial. Komona, daí o ‘war witch’ do título em inglês, tem um dom especial de enxergar fantasmas e ver o futuro. Por conta disso, aproxima-se do jovem mágico. Os dois se apaixonam e fogem. Dá para imaginar a reação e os fatos consequentes. Com um pé na fantasia, dos ritos africanos e tradições culturais, a exemplo da busca por um galo branco que significa felicidade aos amantes, o filme alinha a realidade banal da morte com a riqueza de uma herança cultural de um povo que está se perdendo. Será que o júri de Mike Leigh, e este acima de tudo, saberá captar a sensibilidade e, principalmente, a urgência de um projeto desconcertante como este? Saberemos amanhã, a partir das 19h aqui, 16h no Brasil, quando a premiação tiver início. Torço para que Rebelle não saia sem alguma deferência, ainda que minha torcida, como já sabem, esteja mais para Tabu e os Taviani nos prêmios principais. Mas um reconhecimento para o diretor, ou para a ótima Rachel Mwanza, na verdade uma atriz não profissional que cumpriu destino semelhante a sua personagem Komona, seria digníssimo.
Bem, depois talvez de tanta crueldade, a programação resolveu nos brindar com beleza, ainda que usada para fins não muito ortodoxos. Foi a vez de Hollywood e a galinhagem, desculpem a expressão, darem as cartas no final da Berlinale. Vimos fora da competição Bel Ami, com o galã-vampiro Robert Pattinson. E não é que o jovem bonitão da saga Crepúsculo também afia seus dentes de outra maneira aqui? Na Paris do século 19, ele é o golpista que de militar na guerra da Argélia joga com malícia e sedução para ascender socialmente nos salões da cidade. Suas conquistas, claro, passam por belas mulheres como as personagens de Uma Thurman, Kristin Scott-Thomas e Christina Ricci, todas casadas. Papel na medida para Pattinson, que apareceu na coletiva de imprensa careca, justificando que é mais prático para exercitar-se na corrida. Impossível não lembrar que ele no auge do primeiro Crepúsculo fez saber que não era chegado a lavar as madeixas. Foi bom relaxar com o filme e depois os assuntos sempre frívolos dessas entrevistas, nada mais que isso.

Ontem cometi um equívoco ao apontar que a fita de Tsui Hark integrava a competição, mas não, Flying Swords of Dragon Gate, sua luta marcial em 3D explicitado pelo título, está em sessão especial. Nem foi por isso que acabei por perder a exibição. Mas mudaram a sala de projeção para a imprensa e eu não consegui saber a tempo o local. Em parte, eu sabia que não poderia ser na sala do Cinemaxx de sempre, o complexo onde se dá boa parte da programação da Berlinale, pois ali se daria a homenagem a Theo Angelopoulos. Fui lá, não tanto para rever O Vale dos Lamentos, o início da trilogia que o cineasta grego não consegui completar, mas para conferir o que poderia ser dito sobre ele. Vocês sabem, Angelopoulos morreu tragicamente atropelado em 24 de janeiro na Grécia, enquanto buscava locações justamente para o projeto que encerraria a trilogia. Recebemos a notícia em meio a Mostra de Tiradentes, e que bofetada! Adoro o cinema do grego e já contei aqui no blog que o entrevistei em Berlim quando ele apresentou Poeira do Tempo, o segundo filme do projeto. Pedi que me indicasse os melhores livros escritos sobre seu trabalho, o que supunha em inglês ou em francês, e ele disse que me enviaria, bastava dar meu endereço. Os livros, para minha alegre surpresa, chegaram. Theo, o deus, era sério mas gentil. Nunca gostou de explicar muito seus filmes, preferia que nós os descobrissimos pelos caminhos que nos fossem convenientes. Partilhavamos, e falamos sobre isso, do gosto pelos filmes de Manoel de Oliveira. A sessão de ontem contava com a presença da viúva, Phoebe Economopoulos e a filha do casal. Por coincidência sentei ao lado de um jornalista grego baseado na Alemanha e ele me disse que ela foi produtora dos filmes do marido no início de carreira. Nenhuma das duas falou, mas apenas Petros Markaris , escritor grego e autor de muitos roteiros para Theo. Ele lembrou como todos estavam ansiosos para conhecer o resultado do terceiro e último filme, especialmente porque trazia um tema muito atual, nem sempre comum em seu trabalho, a crise financeira na Grécia. O importante, Markaris reafirmou, é que permanece uma obra coerente, de estilo e pensamento autoral, do início ao fim. O diretor da Berlinale, Dieter Kosslick, citou que o conheceu ainda no início dos anos 80, quando presidia a instituição oficial da cidade voltada ao cinema. Conversaram sobre um projeto de Theo ainda em desenvolvimento, que viria a ser Paisagem na Neblina, um de seus grandes filmes e que o consolidou no cenário internacional. Theo, como lembrou, era meticuloso em seus projetos e só viria a estrear o filme em 1988, depois de rodar outros títulos. Ainda fiquei para ver os primeiros planos de O Vale dos Lamentos, lindissimos, como era habitual em Theo. Cenas tão belas que falam por si. Como não domino alemão, língua da legenda, e muito menos o grego, pude apenas apreciar as imagens e descobri que poderia ficar admirando o filme e mesmo assim o entenderia. Grande Theo.

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