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Acabando!

por Orlando Margarido — publicado 06/09/2012 16h00, última modificação 06/09/2012 16h00

Veneza – Caros, está chegando o fim. Faltam apenas dois filmes na competição de Veneza, um deles nada desprezível na corrida pelo Leão de Ouro. Trata-se de Passion, de Brian de Palma. E vem apimentado, com um suspense noir temperado por amor lésbico entre Noomi Rapace e Rachel McAdams. O outro título é um italiano, Un Giorno Speciale, de Francesca Comencini, a filha de Luigi Comencini, mas não de grandes qualidades na nova geração de cineastas locais. Parece mais uma cortesia na nova direção de Alberto Barbera. Veremos, no entanto, amanhã de manhã. Quer dizer, os jornalistas que não partiram para Toronto. Nos últimos anos tem sido assim. A poucos dias do término, há uma debandada da imprensa em direção ao festival canadense, que joga pesado com seu mercado e estrelas americanas. Uma delas, Robert Redford, passou hoje pelo Lido antes de seguir para lá. Veio apresentar com Shia LaBeouf seu novo filme, no qual é ator e diretor, The Company You Keep, fora de concurso. Bom filme de pegada investigativa e política, não por acaso a maneira de Todos os Homens do Presidente, estrelado por Redford. Ele assumiu a comparação, mas quer falar de uma outra América, de outros tempos, especialmente no jornalismo, já que no novo filme é também um repórter o responsável por colher material sobre ex-ativistas considerados terroristas que nos anos do Vietnã apelaram a violencia e assassinatos como protesto. Comento mais depois.

Nessa reta final já é possível um balanço mais acurado da edição. No geral boa, para não dizer muito boa se comparadas as últimas ainda levadas por Marco Muller. Ao menos houve um enxugamento de títulos na competição e diminuiu os concorrentes de origem asiática, uma preferência assumida de Muller. Não sem ironia, um dos filmes mais instigantes veio justamente da Coréia do Sul, Pietá, de Kim Ki-duk, com seus personagens desajustados em vias de um conflito iminente, um jovem empregado de um agiota destituido de humanidade e sua suposta mãe, que reaparece para buscar o perdão. Ninguém acredita, no entanto, que um júri presidido pelo americano Michael Mann tenha grande simpatia pelo filme, mas que é o concorrente mais incomodo não se duvida. Uma coisa é certa: algum titulo americano será lembrado na premiação. Então que seja The Master, com Paul Thomas Anderson, a quem ficaria bem um premio de diretor. Nem pensar no anódino At Any Price, e muito menos na brincadeira tarantiniana de Harmony Korine em Spring Breakers, sobre garotas adolescentes pegando em armas para curtir as férias de primavera. Aqui só se pode considerar divertido a aparição de James Franco como um chefe traficante. É de se esperar também uma prata da casa laureada, o que seria justo para Marco Bellocchio e sua Itália em coma, que não acorda de um sono profundo, em Bella Addormentata. Mas Daniele Cipri até pode ser um azarão com sua Sicília exagerada e de humor negro em E Stato il Figlio.

Outros dois filmes vieram com propostas interessantes entre ontem e hoje, mas não imagino que influenciem a premiação. O primeiro é o belga de língua francesa La Cinquième Saison. A dupla Jessica Woodworth e Peter Brosens dirigiu anteriormente Altiplano, e Brosen também co-assina O Estado do Cão, filme de vocação cult exibido na Mostra de São Paulo. A principio, os diretores apresentam um genero realista sobre uma pequena cidade belga as voltas com seu cotidiano agrícola, de poucas ambições e afazeres. Mas algo começa a mudar. Uma festa tradicional local inclui um grande fogueira que não consegue ser acesa. Animais como galinhas e bois apresentam comportamente atipico. As abelhas de um apicultor fogem, e será ele a ser questionada pela comunidade. Nao a toa, ele é um belga de origem flamenga, um estrangeiro naquela cultura, portanto. Irá para o sacrifício, situação não de toda metafórica, pois o que temos aqui são atitudes medievais, crendices que se tornam verdades. Me lembrou um recente título exibido no Brasil, O Moinho e a Cruz, uma espécie de tableau vivant baseado numa pintura medieval também ligada a Idade Média e de ocorrencias similares, como o castigo violento.

Tivemos ainda o novo Brillante Mendoza, Thy Womb, o ventre. E este é fundamental na investida do filipino a uma cultura distante, pobre e isolada em seu país, de muçulmanos que negociam casamentos para seus filhos. Como a protagonista já de idade não consegue dar um filho ao marido, permite e mesmo o anima a esposar uma jovem fértil. Começa a procura pela garota certa, não tanto pela disponibilidade, mas pelo dinheiro necessário ao dote. Como todos ali, o casal trafega em barcos precários, vive em palafitas, e vende um artesanato de palha e os crustáceos que consegue retirar da água. Há no entanto a riqueza das festas de bodas, e Mendoza mais uma vez buscando no fundo das tradições de seu país traz um painel bonito, de respeito a essa cultura. Não esquece que o país tem seus problemas, sua violência, pontuada pelos grupos de ataque e sequestro que tratou a pouco no filme anterior Captive. Não é o melhor de seu cinema, como em Lola, mas traz algo muito coerente de seu trabalho. Acho pouco provável um olhar mais atento do júri, mas na premiação amanhã as 19h no horário local e 14h no Brasil saberemos a que atentaram, até.

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