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Cultura

Com um filme desafiador na linguagem, começou ontem a competição da Mostra Aurora

A Tiradentes da experimentação

por Orlando Margarido — publicado 28/01/2014 18h18

Tiradentes -- Eis me de volta a cidade mineira para mais um festival, o 17º. Cheguei mais tarde desta vez, ontem, depois da sempre cansativa e longa viagem. Leva-se o dia todo para viajar até aqui, entre avião e van.E também voltarei antes do encerramento, pois este ano as datas se aproximaram da Berlinale, o Festival de Berlim, para onde sigo na segunda-feira. A Mostra Tiradentes começou na sexta com o filme de Marco Dutra, Quando Eu Era Vivo, que já tinha visto em São Paulo para a matéria do novo terror brasileiro que vocês encontram na edição impressa desta semana de Carta Capital. O filme é protagonizado por Marat Descartes, o ator homenageado deste ano. Gosto muito de Marat no cinema e ele é a alma (atormentada) do filme, ainda que Antonio Fagundes deixe suas atuações automáticas das novelas para exercitar um pai "tomado" e prepotente na medida do que é este confronto com o filho, Marat. Vocês vão entender o tomado entre aspas ao assistirem o filme a partir de sexta. Alguns filmes do calendário inicial eu já havia visto também, como o ótimo Riocorrente de Paulo Sacramento. Mas lamentei perder o novo filme de Cristiano Burlan, Amador, uma junção simbólica das palavras Ama e Dor, pelo que entendi do que li até agora. Burlan fez o muito bom documentário, a princípio o gênero, Mataram Meu Irmão. Neste incute ainda mais embaçamento entre as fronteiras de ficção e tom documental e espero ver logo. Esperemos talvez no festival de Amir Labaki, onde levou o premio principal ano passado.

Tiradentes é a vitrine por excelência da atual nova geração de realizadores brasileiros e o dispositivo de apagar a distinção entre o real e o ficcional é praxe. Talvez até demais, ou não, e vá saturar em algum momento. Por enquanto as propostas me parecem instigantes, como foi ontem a de Affonso Uchoa com A Vizinhança do Tigre.O filme abriu a Mostra Aurora, a seção competitiva do festival. É documentário? O catálogo, numa decisão institucional, ironizou o diretor, aponta que sim. De início, não parece haver dúvidas. Garotos de periferia de Contagem, próximo a Belo Horizonte, começam a mostrar seu cotidiano, divertem-se e conversam de sua realidade limitada, as possibilidades de vida que tem ali e como enxergam o mundo. Conforme avança, o filme passa a estruturar com uma dramaturgia mais elaborada essas vidas. Algo indica que o real então passa a ser interpretado. Os meninos viram atores, carregam nas suas atitudes e o clima se torna mais pesado, com uma noção de tragédia a se avizinhar. Seria o tigre? o título é simbólico, claro, e pode significar a violência que sempre circunda a idéia de periferia e consequentemente quem nela está. Também o inimigo, por assim dizer, que está do outro lado, representado na classe média que significa desprezo e injustiça. Parece restritivo, e é, enxergar o filme só por esses contrapontos mais óbvios. Há mais riqueza explorada nessas vidas, na música no rap, no vestir de grifes, no arranjar os cabelos. Uchoa nos traz tudo isso mais próximo e não requer para si a vitória. Esta é a dos garotos, dois deles ao menos, que estão aqui e se disseram transformados pela experiência. Outro colega, a quem o filme é dedicado, morreu no tempo de cinco anos em que o filme foi preparado. De tuberculose. Noção da frágil condição a que estão relegados.