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Cultura

2a Mostra de Cinema de Gostoso

A sanfona e o tempo justo

por — publicado 15/11/2014 19h26, última modificação 15/11/2014 19h38
Documentário sobre Dominguinhos fornece tranquilidade e música para fruir do talento do cantor e instrumentista

 

Dominguinhos, esse belo documentário a seis mãos do sanfoneiro pernambucano, começa com imagens um tanto inesperadas a um filme que afinal tratará de música. Surgem planos de um peão rodando e de bolas de gude, brinquedos que sugerem o universo infantil, logo confirmado pelas crianças em cena. São tomadas estilizadas,talvez demais, que alongam um tanto a abertura, e na primeira vez que vi o filme os recursos me incomodaram. A primeira sessão do filme se deu no festival de documentários de Amir Labaki, É Tudo Verdade, e eu integrava então o júri da Abraccine, e claro, não poderia me manifestar pelo blog.
Essa idéia de um início que retarda o material mais interessante de Dominguinhos me ocorreu novamente ontem a noite na sessão aqui em Gostoso. Me preocupou a platéia que talvez se impacientasse, e não vendo  o protagonista logo em cena pudesse debandar. Não aconteceu, e eu também pude fruir e compreender melhor a opção pela linguagem inicial. Quando a voz do músico (pois o filme é todo narrado por Dominguinhos) dá início a rememoração de sua vida as coisas se explicam pelo garoto de Garanhuns que brincava com os apetrechos e o carrinho de rolemã, enquanto fazia um dueto com o irmão tocando pandeiro. Assim como também cenas de uma Garanhuns antiga nos projeta ao cenário em que ele cresceu, filho de roceiros humildes.
A partir daí, em um momento em que também o garoto pobre é apadrinhado por Luiz Gonzaga, o filme é pura música. A opção faz toda a diferença e o que parece óbvio a um gênero já estabelecido de documentário musical se torna raro entre similares. A medida em que corre a trajetória pessoal e crescem as parcerias importantes com o próprio Gonzaga, Nara Leão, Gal Costa, Hermeto Paschoal, Gilberto Gil, entre outros, há tempo para se ouvir uma música completa, e se emocionar quando for o caso, como no duo com Nana Caymmi. Um respiro, sobretudo, emblemático no close da pulsão da sanfona, que se assemelha a uma lenta respiracão humana.
Essa tranquilidade fornece a chave para o espectador se dar conta por si só do talento de Dominguinhos, sem a necessidade de um apoio crítico, e com ótimo material de arquivo para relembrar passagens fundamentais. O músico morreu em 2013, depois de muito debilitado por doença, o que se nota em uma de suas últimas apresentações. Por sorte, Joaquim Castro, Eduardo Nazarian e Mariana Aydar tiverem o tempo justo para a homenagem justa.