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Cultura

A questão da potência

por Orlando Margarido — publicado 25/09/2013 12h10, última modificação 25/09/2013 12h10
Filmes para serem vistos e filmes para serem vistos e julgados em festivais que andam perdendo sua força de fazer notar o vital

Algumas considerações ante o efeito surpresa do prêmio principal de Brasília a Exilados do Vulcão. Antes de tudo é preciso dizer que o longa de Paula Gaitán está longe de desmerecer uma reverência do júri oficial dos Candangos, mas é necessário questionar colocá-lo como superior a demais concorrentes, ou para ser mais explícito a um específico, Riocorrente. Em um festival, especialmente concentrado como é o de Brasília com poucos filmes, critério aliás muito positivo, um filme não pode ser encarado apenas pelas sua qualidades inerentes. Há uma competição, e como o próprio conceito aponta, as obras devem ser comparadas, medidas entre si. Além disso, há a tradição específica de cada vitrine, e o de Brasília sempre foi a política, a de apontar novos caminhos ou reverenciar trabalhos e realizadores que tem potência. É desta expressão que quero retirar minha reflexão. Que tenha suas qualidades e problemas, como todos os demais filmes, Exilados do Vulcão, diferente do que o título possa simbolizar, não traz essa carga de impacto que nos faz ficar atônitos, incomodados, chocados se for o caso. E nem é para ter, na medida em que o registro de Paulo é mais intimista, sensorial, de uma elaboração que atende mais a um desejo de representação pessoal, tranqüila, de acordo aliás com a maturidade dela e de seus personagens. Aliás, é um dos pontos que gosto no filme, seus homens e mulheres amadurecidos e expostos com as marcas da passagem do tempo, seja nas atitudes seja nas rugas e corpos já imperfeitos.

Mas o filme, em muito, é devedor de uma preocupação excessiva talvez com a elaboração formal, deixando um gosto de artificialismo que briga todo o tempo com a narrativa dramática, ou o lampejo que há dela, que nos revela um pouco de uma acepção a Terence Malick e, numa comparação mais impertinente, a Antonioni. Tanto assim que o júri não deixou de somar um prêmio a parte técnica, no caso de melhor som, e aí sim uma lembrança respeitável, mas que não deixa de ser irônica. Até mesmo aqui ocorre o pungente trabalho sonoro de Riocorrente, que deve ter soado extravagante, como muitas outras coisas no filme de Sacramento, a ouvidos e olhos de um júri, parte dele para ser exato, habituados a um cinema sutil, elaborado na forma da delicadeza. Riocorrente veio, até nisso, romper com o que parece estar se tornando um paradigma de determinada faixa de nosso cinema. Uma tendência que descola o fazer cinematográfico da realidade para levá-lo a um patamar quase espiritual, metafísico. Isto não é um erro, pelo contrário, e as tendências podem e dever coexistir.

A questão, ainda mais num festival, é notar e fazer notar aos outros, quando uma deve se sobrepor a outro, e esta foi a cegueira grave desta edição do festival. Riocorrente é um filme vital para a reflexão deste momento no país, seja ela mais direta e evidente, como o trauma urbano, numa expressão feliz de um colega durante o debate do filme, seja mais sociológica, filosófica até, do mal estar que esse adensamento e a perda de perspectiva individual nos causa. Comparei o impacto a mesma proposta exigente e perturbadora de O Som ao Redor. E não se pode esquecer que o Festival de Gramado também negou ao filme o prêmio principal em detrimento de uma comédia ligeira, que tem lá suas boas intenções, a rigor em decisão ratificada por um cineasta justamente afeito a esse gênero. Ao menos, num jeitinho de prêmio de consolação, Kleber Mendonça se saiu melhor com o prêmio de diretor. A Sacramento nem isso. Ele é a alma de seu filme, inscrita na direção, no roteiro, na produção, enfim. Atribuir justas lembranças a montagem de Idê Lacreta e a fotografia de Aluysio Raulino, mesmo com cara de homenagem pos-morten a este, sugere quase uma espetada insolente. A técnica e a pulsão de um novo realizador andam inseparáveis neste trabalho, que de novo, Brasília perdeu a chance de cravar na história dos festivais.

No varejo

Claro que um prêmio principal inusitado como este desequilibra o restante da premiação, fazendo ressaltar de cara os acertos. Dois deles, sem dúvida, são os Candangos de melhor atriz e atriz coadjuvante a Maeve Jinkings e Nash Laila, a dupla quentíssima de cantoras bregas de Amor, Plástico e Barulho. É também uma forma de marcar o filme como feminino, afinal dirigido por uma mulher, Renata Pinheiro, também diretora de arte mas não neste caso, pois incumbiu ao ofício Dani Vilela, outra premiada. Menos animador me pareceu o prêmio de melhor intérprete para o novato Pedro Maia, o garoto de Depois da Chuva. Merecido por seu esforço, mas que pensaria, se houvesse, mais adequado um premio de revelação. O filme da dupla baiana Claudio Marques e Marilia Hughes concentrou ainda o premio de roteiro, do primeiro, e o de trilha sonora. Também defensáveis, mas com evidente concorrentes a altura deles e mesmo superiores. Me pareceu até aqui evidente a definição do júri em contemplar novos realizadores, não na faixa etária, mas na estréia recente no longa, o que pode ser estendido a Michael Warmann, melhor diretor por Avanti Popolo. Aqui cabe uma das deficiências maiores da decisão. Como Carlos Reichenbach continua a ser um líder espiritual de toda uma geração presente em Brasília, achou-se por bem premiar o cineasta falecido ano passado por sua rara aparição como ator, no caso coadjuvante. Muito bonito, tocante, mas pouco efetivo na marcação de bons trabalhos, como os atores de teatro trazidos por Sacramento ao seu filme. É outra emoção ver a genuína felicidade de Maeve em seu agradecimento, em um momento, bem lembrado por André Dib, em que O Som ao Redor, outro de seus belos desempenhos, vai ao Oscar. Homenagens em exagero, por vezes, podem fazer mal a saúde de um festival.

Por último, uma dúvida justa que circulou ontem a noite depois da premiação. Como Os Pobres Diabos, única vítima de uma complicação da tecnologia de exibição, pode ter sido apontado pelo júri popular, ou seja, o público, como o melhor se as exibições foram ou atribuladas ou limitadas a horários ingratos? Com todo o respeito e admiração ao diálogo simpático do filme com a platéia, não houve para ninguém além de Amor, Plástico e Barulho o aplauso em cena aberta e efetiva consagração dos espectadores ao final. Mas isso talvez seja o de menos numa premiação melancólica.