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A Palma?

por Orlando Margarido — publicado 25/05/2012 10h44, última modificação 25/05/2012 10h44

Cannes -- Estou ainda sob o impacto do filme de Sergei Loznitsa que vimos ontem a noite e até o novo Cronenberg, muito interessante, me surgiu um tanto eclipsado nesta manhã. Estamos apenas a dois filmes do final da competição e acho difícil que o coreano Im Sang Soo e o americano Jeff Nichols produzam tamanho efeito como o russo conseguiu com V Tumane, ou Na Neblina no título internacional. Foi o único filme a me dar essa impressão logo de cara, e creio ter aqui minha Palma. Vocês conhecem Loznitsa de Minha Felicidade, exibido em circuito no Brasil. Quem viu sabe que mais sombria e dura a visao da sua Ucrania não poderia ser, e portanto o título era mais ironico do que realista. Pode-se dizer que agora ele não lança mão da violência para chocar. O quadro se forma por si próprio. Loznitsa retoma o nazismo, mas antes que alguém se diga desgastado com o tema, como eu mesmo pensei no início do filme, é preciso dizer que há esse painel da ocupação alemã em território russo mas o drama escapa da ligação direta com o fato. Fixa-se, isso sim, num jovem pai de família que integra a resistência dos partisans e ao ser preso junto com colegas pelos apoiadores dos nazis é o único a não ser enforcado. Não entende de momento, mas serve de isca para que os alemães cheguem até os demais. Quando um companheiro, que lhe busca em sua casa com a intenção de mata-lo, acaba sendo ferido numa emboscada será o outro a carregar o corpo floresta adentro. Quer honrar o colega, mas também a consciência lhe pesa. São as cenas talvez mais bonitas e impressionantes da competição agora e Loznitsa filma com o mesmo rigor do romeno Christian Mungiu. Ficaria feliz se a premiação lembrasse de homenagear os dois, mas sinceramente não consigo ver Nanni Moretti e seu, digamos, peculiar júri, considera-los reais concorrentes.
Também não acho que o Cosmopolis de Cronenberg tenha muita fibra para prêmios, a não ser que o júri queira destacar o estranho (para usar uma palavra bem a calhar ao diretor canadense) encontro entre o cineasta, a obra literária de Don DeLillo em que se baseia o filme e o galã do momento Robert Pattinson. Bacana saber que os atores da série Crepúsculo estão se desligando desse trabalho inócuo para aos poucos testarem sua real veia dramática, como Kirsten Stewart mostra em Na Estrada, de Walter Salles, e Pattinson no recente Bel Ami e agora aqui. Ele está muito bem no papel do jovem milionário especulador da área financeira que percorre Nova York fechado dentro de sua limousine em um dia turbulento de protestos. Seu capricho, em meio a possibilidade de ataques que dão dor de cabeça a segurança particular, é ir corta o cabelo. No trajeto, figuras das mais variadas entram no carro para reuniões de trabalho, sexo ou ambos ao mesmo tempo. Quando raramente sai dela é para encontrar a noiva e tentar acertar uma relação difícil. Numa das mais sintomáticas cenas, Packer, o personagem, pede a uma negociadora de arte vivida por Juliette Binoche (depois de uma rápida transa, claro) que compre para ele a capela com pinturas de Mark Rothko. O local existe no Texas e é um lugar público. Mas ele insiste que a quer por qualquer preço. “Tenho espaço em casa, se não amplio para isso”, diz. Em outra, hilária, Mathieu Amalric é o terrorista de tortas, que ataca Packer com um bolo na cara. Ele é, afinal, um rato de Wall Street, como chamam esses tycoons da bolsa a multidão que grita nas ruas. A intenção de crítica ao período de explosão da bolha financeira é clara, mas não óbvia por ter Cronenberg esse dom de dar uma áurea de estranhamento a tudo. Seu Packer começa soberbo e aos poucos vai sucumbindo a um desespero. Como sucedeu a esses tipos reais em mais um capítulo frustrado pós-sonho americano.

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