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A musa de Godard e mais filmes

por Orlando Margarido — publicado 13/07/2012 16h31, última modificação 13/07/2012 21h49

Brasília -- Não, não é ainda o Festival de Cinema Brasileiro. O tradicional evento só acontece em setembro. Estou em Brasília para acompanhar o início da primeira edição do Brazilian International Film Festival, o BIFF, ou Festival Internacional do Cinema Brasileiro. A iniciativa é de Nilson Rodrigues, que no ano passado estava justamente na coordenação do brasileiro,  agora a cargo de outros organizadores. Será a 45º edição deste, número bonito para se homenagear o seu fundador Paulo Emílio Salles Gomes. Já sabemos que em memória deste grande crítico haverá um seminário e um livro com textos e depoimentos de entusiastas. Redigi breves linhas para lembrar a descoberta de Paulo Emilio como ficcionista, tão notável quanto o estudioso de cinema. Mas vamos voltar ao BIFF. A maior parte da mostra com filmes de viés alternativo, independente se pode dizer, acontece nas salas do shopping Liberty Mall, de propriedade de Nilson. É uma espécie de Itaú Unibanco daqui, que vem suprir uma carência desde que as salas da Academia de Tênis fecharam. Assim é também com a mostra agora. São cinquenta filmes de 33 países, anunciou ontem o ator Sérgio Mamberti no palco do Teatro Nacional para um público de 1300 pessoas. É a lotação da casa, e a julgar pela noite de abertura o novo festival promete. Bem verdade que havia um charmoso chamariz para os convidados. Homenageada da programação, a atriz francesa Anna Karina mostrou outra face que a celebrizou e cantou um gracioso repertório de cabaré, na melhor tradição das chansonnière de seu país. A musa da Nouvelle Vague, de Godard, que como sua mulher nos anos 60 foi saudada por ele em oito filmes e depois seguiu carreira com outros cineastas, já conta 71 anos. A idade visivelmente lhe pesa, os movimentos no palco são discretos, controlados, e a voz sai quase num sussurro, o que não deixa de ser caracteristica dessas intérpretes-atrizes da França. Mas foi bonito ouvi-la, sempre bem-humorada, nas músicas de Serge Gainsbourg e outras que trouxe inéditas especialmente para o concerto acompanhado de um pianista. Espero entrevistá-la aqui e lhes trago mais histórias.

Depois de muitos aplausos, com o público em pé, e flores para uma emocionada madame Karina, o BIFF abriu sua programação oficialmente com o novo filme de Walter Salles, Na Estrada, que hoje estréia em circuito. Já o assisti duas vezes, a primeira em Cannes, e fico feliz em ve-lo crescer cada vez mais como a aventura cinematografica com que Salles nos presenteia. Tive, como muitos, uma primeira desilusão no que diz respeito a pegada, digamos assim, mais conservadora da questão sexual, tão fundamental a esses jovens de Kerouac, e também a abordagem clássica, quase careta, dos valores daquele momento. Mas isso tem se dissipado para dar lugar a amizade, ao questionamento da moral de uma época, a ética em primeiro lugar na relação dos dois amigos. Creio que é o que fica, o que permanece quando o filme termina.

Mas já escrevi sobre o filme para o site da Carta Capital e nesta edição nas bancas há um novo registro. Com poucas estréias essa semana, resolvi correr atrás do atraso e fui constatar bons e nem tanto filmes em circuito. Seguem algumas considerações:

Até a Eternidade --  É quase um gênero no cinema, especialmente o americano, o filme de relações de velhos amigos que por alguma razão tem de testar essa amizade. Esta é uma versão francesa da situação dirigida por Guillaume Canet, que vem a ser também marido de Marion Cotillard. E a bela e talentosa atriz de Piaf tem certa preferência no núcleo, que enfrenta uma crise quando um de seus integrantes, justamente ex-companheiro da personagem de Marion, sofre um acidente quase fatal de moto e permanece desfigurado no hospital. O fato vem às vésperas da viagem habitual de verão do grupo, que apesar do ocorrido decide levá-la adiante. Todos vão para a casa de praia do rico empresário vivido por François Cluzet, um obcecado por trabalho e ordem sacudido pela revelação do amigo que, casado e com filhos, o ama. Seguem outras crises, como a dos tipos mulherengos que não suportam o fora das namoradas, entre eles o astro Jean Dujardin, de O Artista. Há uma genuína e interessante análise de como é o comportamento  de cada pessoa nesse meio coletivo, e como isso pode se transformar no individual. Mas muitas das situações me pareceram banais, sem maior atrativo, para um filme que se impõe também longo em suas duas horas e meia.

Beaufort -- Poucas cinematografias atuais parecem deter tão bem a vocação para filmar a guerra em seus bastidores, sem partir para o front, como a israelense. Me lembro especialmente de Amos Gitai em Kippur, no qual o campo de batalha se expõe para apenas dar conta da limitação humana dos soldados. Mais ainda em Lebanon, no qual o diretor Samuel Maoz filma todo um momento traumático do conflito entre Israel e Libano de dentro de um tanque de guerra. O espaço é também definidor neste Beaufort, que chega cinco anos atrasado ao circuito brasileiro. O título refere-se a um real castelo secular nas montanhas do território libanês, espécie de fortaleza que serviu a proteção do país em várias ocasiões, mas naquele início dos anos 80 tomado por Israel. Um grupo de jovens soldados, em seus vinte anos, permanecem a postos no local como numa simbólica tomada de poder do monumento considerado sagrado. Vivem, se se pode chamar assim, encapsulados numa base abaixo da superfície e a prova dos pesados bombardeios aéreos que não raro causam mortes de quem está de vigília. Mas não são os ataques do inimigo os únicos problemas. Há questões de autoritarismo e falta de habilidade de comando do responsável pela turma. O medo e a pressão da guerra, claro, pesa na instabilidade do convívio. É nessa relação tensa, claustrofóbica, que o filme de Joseph Cedar se baseia. Curioso que sua ficção seguinte, Footnote, inédita por aqui, fala também de uma relação conturbada entre pai e filho, mas de forma bem menos inspirada.

Headhunters -- A raridade de um filme norueguês em cartaz já merece a atenção, mas essa comédia negra acerca dos que buscam seus milhões tem qualidades para ir além do curioso. Há mesmo uma homenagem explícita ao sucesso Quero Ser um Milionário no que este tem na cena mais escatológica do filme. Já lembraram? Ambos os protagonistas, um ainda criança no caso do filme indiano, mergulham num monte, vamos dizer, de detritos humanos para escapar de seus perseguidores. O "headhunter" a que se refere o título é aquele profissional que procura o talento certo entre os grandes executivos para cargos de alta exigência. Roger Brown trabalha como tal em Oslo mas não ganha o suficiente para bancar uma vida de luxo e extravagância para ele sua mulher. Recorre então ao expediente de criar com um parceiro cópias de pinturas famosas e colocá-las no lugar nas verdadeiras. Depois do roubo, as vende. Mas um rival caçador-de-cabeças  que surge como vítima logo se torna seu algoz. As reviravoltas acontecem na linha limite do absurdo, mas o gênero a que opta o diretor Morten Tyldum permite. Ainda que a trama se desgoverne em determinado momento,  o filme diverte.