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Cultura

65 Festival de Berlim

A gota d água que faz a diferença

por Orlando Margarido — publicado 08/02/2015 17h18
Patricio Guzmán apresenta o melhor filme até agora da competição, o que era esperado tanto quanto Terrence Malick apenas reeditar uma ideia com chances de se esgotar

Acabei de chegar da sessão de El Botón de Nácar, o botão de pérola, o novo documentário do chileno Patricio Guzmán, seguida da conferência de imprensa. O mundo, e os jornalistas, estão malucos mesmo. Espremem-se para ver Nicole Kidman e deixam esse grande realizador a mingua. Não havia ninguém na sala, nadie! Por sorte alguns latinos de diferentes países seguraram um debate de alto nível e eu só não fiz minhas perguntas porque na terça-feira tenho marcada entrevista com Guzmán. Nem precisava ver o filme antes para agendar uma conversa. Basta o que ele já nos mostrou, A Batalha do Chile, Nostalgia da Luz, e tantos mais. Mas este novo não é menos que impactante, um fenômeno, de pesquisa, costura e proposta de reflexão, histórica, política... tudo cabe nesse pequeno botão cheio de significados, ao menos todo o Chile que o diretor busca examinar com obsessão. E a que se refere a peça? Quando os europeus chegaram ao país impondo a colonização, um militar inglês decidiu levar um índio para a Inglaterra e civilizá-lo. Vestiram-no com roupas européias e lá estava o botão que lhe valeu o apelido de Jimmy Bottom. Guzmán então nos leva a outro sentido do mesmo acessório, atravessando a história chilena até chegar a ditadura de Pinochet. Como se sabe, os militares jogavam os corpos dos militantes ao mar, de aviões. Por um incidente que o filme recria para explicar, um dos cadáveres, de uma mulher, foi parar na costa muitos anos depois, e intacto, para surpresa de especialistas. Com ela, vinha outro botão de pérola, grudado na barra de ferro que deveria ter feito o corpo afundar. Impressionante o relato, mas não se chega a ele de pronto.

Guzmán fala primeiro da água, de como o planeta e nós precisa dela. As imagens belissimas e um certo tom de especial da National Geographic é apenas uma introdução, que se sabe, não está ali por acaso num filme de chileno. Ele avançará as culturas indígenas que foram dizimadas por doenças trazidas pelos europeus de Fitzroy. Quem viu o maravilhoso espetáculo de Ariane Minouchkine em São Paulo, inclusive filmado e exibido na Mostra SP, assistiu a outra encenação da violência e do estrago feito. O diretor contempla três etnias para ilustrar o genocídio. Busca alguns de seus sobreviventes e registros antigos dos índios que pintavam seu próprio corpo com referências ao céu, a estrelas, ao universo, para se conectar com seus mortos. Tudo é circular e faz sentido num documentário do diretor. Antes foi o deserto, o Atacama, para falar da beleza e do mistério da luz, no mesmo local onde também foram enterrados os jovens considerados terroristas e hoje suas mães vasculham palmo a palmo para tentar encontrar os restos dos filhos. Um corpo não entregue é duas vezes uma morte, diz um entrevistado em El Botón. Do local mais seco do mundo, Guzmán parte agora para o mar. Tudo, a pesquisa, as fotos encontradas num museu alemão feitas por um missionário, são como que átomos que formam um documentário, explicou na coletiva Guzmán, dono de um fino humor e ironia inesperados para quem lida com tema tão sombrio e difícil. Há que se esperar que o júri tenha a sensibilidade de dar conta na premiação de um feito destes, e renovar uma tradição política que a Berlinale tem perdido, e a comprovação mais feia aconteceu no ano passado com um despropositado Urso de Ouro a um dos piores filmes da competição, e o pior entre os chineses concorrentes. O presidente Darren Aronofsky fez um belo trabalho em Veneza ao premiar Sokurov por seu Fausto. Mas talvez caiba mais a Claudia Llosa, que ganhou aqui com A Teta Assustada, o juízo mais claro e ponderado afinal de uma cultura próxima, inclusive de arroubos políticos.

 

E Malick soçobra...

Os filmes, claro, não se enfileiram ao acaso na ordem da competição. Do mar profundo de Guzmán se vai a superfície de Terrence Malick. Antes, no entanto, conto aqui um incidente que me levou a ter um domingo mais agitado do que previa. Pretendia ver El Botón... na sessão noturna que antecede aquela oficial de imprensa. Ajuda a manter o calendário razoável numa maratona como é a Berlinale. Deram com a porta na minha cara porque cheguei três minutos atrasado. Isto no meu relógio. No da organização que ali fica a barrar os incautos, eram cinco. Tanto faz. Neste corre corre, não é razoável complicar a vida dos profissionais, e sim facilitar. Mas isso é outra história. Acontece que para assistir a Guzmán esta tarde tive que reagendar minha entrevista com Jayro Bustamente, o diretor guatemalteco de Ixcanul, que não queria perder, e abrir mão da meia hora final do filme de Malick. Bem,por todos os motivos, inclusive a opinião dos colegas brasileiros, tudo se mantém no mesmo estado de coisas em Knight of Cups, o que não quer dizer que não darei nova chance ao filme em melhor condição. Acontece que temos aqui um repeteco mais da fórmula testada, e com bom resultado, em Árvore da Vida, do que no mais recente The Wonders.

Na verdade é uma mescla dos dois, pois há o homem aqui jogado em uma vida vazia e sem objetivo, um produtor de cinema interpretado por Christian Bale, as voltas com conquistas femininas, uma paixão melhor conduzida e flertes descartáveis. O homem como centro de um eterno questionamento e reflexão, a realidade supérfula em volta. Prossegue o tom metafísico e a água, no caso mais uma vez o mar, onde termina tudo, ou o cosmos, dando conta da finitude e pequenez, são o cenário para um jogo de oposição entre o humano e a natureza. A câmera deambula, preceito artístico dos filmes anteriores mais recentes, mas pouco se avança em relação a esses.  Muito mais sou o mar dos Açores do ótimo documentário de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, Rabo de Peixe. Vocês conhecem a dupla, melhor dizer o casal, do documentário anterior E Agora? Lembra-Me, que dá conta da condição de soropositivo de Joaquim e de como a doença o enfraquece. Neste agora eles voltam a trabalhar com um projeto iniciado em 2001 nas ilhas vulcânicas portuguesas para registrar a pesca tradicional, a lida dos pescadores em alto mar, perigos e cotidiano. Há belas cenas, e não pude deixar de lembrar em La Terra Trema, de Visconti, ao ver os barcos em círculo para puxar a rede com peixes. Mais uma vez, Nuno narra a viagem na toada de um João César Monteiro, com quem trabalharam e a quem dedicam o filme. Foi graças ao incidente, afinal, que corri para ver Rabo de Peixe, nome de uma comunidade açoriana, desta vez com entrada simpática garantida, e não me arrependi. Mais um belo filme para Amir Labaki, assim como El Botón, levar ao É Tudo Verdade.