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Cultura

Paulínia Film Festival

A ficção amena e o real provocador

por Orlando Margarido — publicado 25/07/2014 19h16
Um longa de estréia que pouco ousa e um documentário híbrido que nos impõe questões de vida e linguagem

 

Boa Sorte poderia ser o filme que se esperaria em função das boas referências de origem.  Primeiro se baseia num conto do também cineasta Jorge Furtado, Frontal com Fanta. Ele mesmo e o filho Pedro Furtado assinam o roteiro, num caso de rara transposição da própria autoria ao cinema, levando em conta que não é dele a direção. No caso, cabe a Carolina Jabor, filha do cineasta Arnaldo Jabor, em sua primeira ficção. Não bastasse temos um elenco peso pesado de coadjuvantes, como Fernanda Montenegro e Cássia Kiss, uma estrela, Deborah Secco, e um ator novato e já com bons trabalhos, João Pedro Zappa. Mas algo deste bom caldo parece ter entornado, ressalve-se que não de todo, como se a rápida fervura tivesse sido controlada e deixado a receita em banho-Maria, com perdão da analogia culinária.
É essa e a sensação de uma boa história que poderia ter sido levada com mais pungência. Zappa é o rapaz, também João, um tanto desestruturado que se vicia em anti-depressivos e acaba internado pelos pais numa instituição psiquiátrica depois de algumas crises. Lá conhece Judite (Débora), de longo histórico com drogas,inclusive as lícitas como os remédios para depressão, mas também portadora do HIV. Com ela, João terá aprendizado importante a sua ingenuidade e timidez, com direito  a paixão e ao sexo. Um ponto de partida interessante o os bons diálogos conseguem segurar, contudo, apenas uma primeira metade do drama, depois perdendo em intensidade. Segue um desnecessário capítulo ao final dando conta das consequências de vida do protagonista, uma fórmula que segue todo o filme de tudo esclarecer, e como bem lembrado no debate, muito devedora da cultura da teledramaturgia. Nada é destemperado num universo que requisitaria maior enfrentamento, emoções mais radicais. Enfim, um filme de que se sai indiferente, sem suscitar também em nós sentimentos extremos.
Bem mais exigente na apreciação é Castanha, segundo longa da noite, que havia visto no Festival de Berlim deste ano, onde participou do Fórum. Havia uma presença significativa de brasileiros por lá, e junto com este, outros dois incorporavam a temática gay, Praia do Futuro, de Karim Ainouz, e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro. Mas todos trabalham a questão como fundo a dramas mais significativos do que discutir a sexualidade. Castanha propõe-se a principio como um documentário para então valer-se de encenações, que se incorporaram aos poucos ao processo criativo do filme. Ao menos foi isso que o diretor gaúcho Davi Pretto explicou durante o encontro com o público na Berlinale. Lá havia o estranhamento de uma realidade de um subúrbio de Porto Alegre, o cotidiano um tanto duro e difícil do protagonista, José Carlos Castanha, de um lado, e sua atuação de glamour de outro. Ele é um transformista que atua na cena noturna da capital gaúcha e ali vive sua fantasia a parte. Em casa, o papo é outro. Mora com a mãe, figura sofrida, e tem de tolerar a presença de um sobrinho viciado em crack que a explora. O filme é um relato do real e do imaginário de Castanha, cuja linha fronteiriça nem sempre fica clara, adicionando um forte tom presumido dramático que confere força ao retrato. Aqui sim, vamos a um limite de vidas em desmantelamento, ainda que se possa questionar serem as reais.