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Cultura

65 Festival de Berlim

A competição é delas

por Orlando Margarido — publicado 07/02/2015 13h49, última modificação 15/05/2015 17h22
Ao menos nos sete filmes exibidos até agora, a Berlinale aponta o domínio das mulheres

Pode ser coincidência. Mas se todo festival determina um princípio de curadoria logo no primeiro lote de filmes da competição, o da Berlinale chama atenção ao óbvio. Todos os títulos exibidos até agora são liderados por personagens femininas, e fortes! Mais profundamente, me parece que buscam refletir entre uma nova e antiga civilização, e entre estas e uma cultura primitiva,  no que inclui questão de classes e domínio de uma pela outra. Começou com as exploradoras interpretadas por Binoche e Kidman nos filmes respectivos de Coixet e Herzog. Seguiu ontem com 45 Years e Charlotte Rampling não está menos que sublime (e alguém tem dúvida?) como a esposa que se sente traída após uma revelação do marido. Comento mais a seguir. Hoje foi a vez do guatemalteco Ixcanul. Sim, um raro filme da Guatemala na seção competitiva, ao menos na origem da equipe e da história, e é um retrato pungente e bonito.

Em seguida vimos outra adaptação de Journal d'une Femme de Chambre, o clássico folhetim de Mirbeau que Renoir e Buñuel levaram ao cinema. Não é pouco desafio para o sempre pretensioso Benoit Jacquot. Sem Lea Seydoux, me parece, no papel da arrumadeira, ou camareira, mas não é apenas esse o trabalho que faz, o resultado poderia ser pior, mas é apenas irrrelevante. Cite-se ainda o pior longa exibido até agora, o alemão Victoria, que deve o nome a protagonista espanhola com emprego de garçonete em Berlim, metida com uma gangue de rapazes, ladrões amadores, durante uma única noite na capital alemã. Por fim, mesmo Táxi, com Panahi na dupla direção, do carro e do filme rodado a revelia das autoridades iranianas, termina dominado pela presença das mulheres, seja a simpática garotinha que faz valer sua visão de cinema seja a advogada que sintetiza a condição de clandestinidade atual do cineasta e seus filmes, um degredado em seu próprio país.É de se refletir sobre essa opção em uma nação que restringe a livre expressão feminina. A seguir comento os destaques desse bloco.

45 Years -- Poucos vão lembrar do diretor inglês Andrew Haigh, pois seu Weekend passou no Brasil em circuito limitadissimo. Em parte por ser filme de temática gay, e masculino, no sentido que tais produções ganham o ocaso, se tanto. Fica mais interessante ainda imaginar sua habilidade agora em tratar da relação heterossexual em sua via mais tradicional. Haigh não quis pouco para seu elenco e chamou Charlotte Rampling e Tom Courtenay, este da linhagem dos grandes britânico e que vemos pouco nas telas porque intérprete de teatro. No filme, o casal está junto a 45 anos, estável numa casa de campo e prestes a celebrar a data com grande festa.Faltam poucos dias quando Geoff, o marido, recebe uma carta desestabilizadora. O corpo de sua primeira mulher, há muito desaparecida, foi achado na Suíça, preservado numa região gelada dos alpes. Houve um acidente. Atravessavam a fronteira quando houve um acidente. Kate, a atual, desconhecia os detalhes, e descobrirá mais. O ciúme, a traição de não ter merecido a verdade, a corroi. A situação, antes de estrambólica em um tipo de fait divers, é tratada com distanciamento e sutileza pelo diretor. Não que isso trave a emoção. O discurso de Geoff é comovente, Mas não basta a Kate. Rampling, como se sabe, não costuma brincar em cena. Ela está mais uma vez maravilhosa.

Ixcanul -- Na língua indígena dos maias modernos que sobrevivem entre tradições e um desejo dos jovens pelo mundo fora dali, o título se refere a região vulcanica da Guatemala. É ao pé de vulcões não extintos que Jayro Bustamente encena seu drama que acho o mais tocante e belo até agora exibido. O jovem diretor é guatemalteco mas vive na França, e a co-produção diz muito do quanto se precisa para alavancar um cinema sem indústria e dinheiro entre os pares latino-americanos. Isso não o inibiu a fazer um mergulho nas raízes de sua nação. Começa com a jovem Maria, na aldeia onde famílias da etnia sobrevivem a base da plantação de milho e recolha do café, sendo apresentada ao noivo que os dois clãs desejam a ela. Maria tem seu amante, um rapaz que trabalha na colheita mas planeja emigrar aos Estados Unidos. Quem viu La Jaura de Oro lembra que ao lados dos mexicanos seguiam muitos guatemaltecos clandestinos em busca dos dólares. A garota pede para leva-lo com ele, mas este pede em troca seu corpo, sua virgindade. Maria fica grávida e o pouco de esperança começa a ruir. O futuro marido a renega, ela tem o filho com o apoio da mãe. Mas o bebë, num incidente, irá desaparecer. Aqui entra o embate entre um país onde os indígenas são minoria e não falam o espanhol, o idioma oficial daqueles que ali mandam. A família de Maria não entende o imbroglio armado pelo noivo. O círculo em que se dão os trágicos fatos então se fecha. Há, contudo, muita beleza e particularidade nesse cenário. As oferendas ao vulcão, para que este não irrompa em água (sim, Bustamente explicou na coletiva que dali não sai lavra, e sim água!!), os cultos pagãos,tudo em oposição ao devaneio dos jovens, que bebem, se embriagam, sem ter destino certo, como em muitas tribos no Brasil. Amanhã converso com o diretor e suas atrizes, na verdade, a Maria mãe, uma amadora ligada a teatro comunitário, e Maria, a jovem, sem experiencia de interpretação. Tudo na medida ao sentido social e político que Berlim tanto gosta. E por ser filme de estréia do diretor, o premio a primeiras produções, aqui de nome Alfred Bauer, iria muito bem.