Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog do Orlando Margarido / A ciência do saber e a do nada falar

Sem categoria

A ciência do saber e a do nada falar

por Orlando Margarido — publicado 01/09/2012 18h04, última modificação 01/09/2012 18h04

Veneza – Hoje tivemos a primeira sala lotada no Lido, ao menos na seção de competição, que até ontem não testemunhava grande procura de jornalistas. O nome do diretor ajuda, claro. É o americano Paul Thomas Anderson, que na última hora surgiu na seleção com The Master. O mestre. Nome sugestivo, que se explica pelo personagem de Phillip Seymour Hoffman. É a esse líder de uma espécie de seita nos Estados Unidos dos anos 50 que chega, perdidinho na vida, Fredie Quell, interpretado por Joaquin Phoenix. De volta para casa, depois de terminada a guerra, ele demonstra temperamento violento e desajustado. Não necessariamente pelo trauma do conflito. Dodd carrega feridas de infância, a família separada, relacionamentos incestuosos e um primeiro amor frustrado. Quem vai tentar entende~lo é Lancaster Dodd, o tal mestre. Na verdade, um pseudo mestre, que usa fundamentos da ciência como instrumento para mudar a percepção das pessoas, com lances como um tipo de hipnose. Você já deve ter ouvido falar de algo semelhante. Estamos nos princípios da cientologia e Dodd seria o autor de ficção científica que criou essa doutrina influenciada por diversas religiões, Ron Hubbard.

O resto é ficção, ou quase. Na coletiva algo tão estranha quanto o filme, Anderson se esquivou no início da comparação com a cientologia ao ser perguntado como Tom Cruise, o mais famoso integrante da linha, reagiu ao ver o resultado. Já se sabia que não gostou, mas o diretor resumiu que o teor da conversa depois só interessava aos dois. Mais tarde, pressionado, esclareceu que se inspirou sim na doutrina pois lhe interessava discutir um tanto do seu país atual a luz da origem desse tipo de apelo religioso. Mas Anderson não concatenava seus pensamentos, entre confuso e de má vontade, e o saldo era mais falação vazia do que uma discussão que poderia ser consistente. Há filmes, e diretores, que não deveriam ser colocados em xeque em situações como esta, de uma coletiva de centenas de jornalistas mais interessados em arrancar algo espetacular do que debater. Perde o filme, que neste caso tem valor para ser aprofundado. Anderson nos mostra o personagem anti-americano por excelência, o looser, o perdedor, espécie de Lord Jim como um colega observou, para quem o sonho da América vencedora não vingou. Não por acaso há a citação explicita no deserto de Os Desajustados, de Huston. Anderson seria ele mesmo talvez um realizador pouco ou nada ajustado ao padrão, por assim dizer, de Hollywood. Filma aqui como Kubrick, outro nome de um cinema próprio, que não se encaixa facilmente. Melhor que suas imagens falem por si. E também seu atores. Hoffman e Phoenix estão ótimos. O segundo chegou a declarar que abandonaria o cinema. Voltou com um documentário e agora este papel, que a julgar pelo comportamento na coletiva, não está muito longe de seu feitio verdadeiro. Tem grandes chances, desde já, na Coppa Volpi, o premio dos atores aqui na Mostra de Veneza.

Um páreo duro agora que vimos por aqui Toni Servillo, não tanto como o protagonista de È Stato il Figlio, ainda que esteja ótimo, mas na participação na coletiva deste primeiro filme italiano da competição. Vocês devem se lembrar de Servillo em Il Divo, o filme que alçou Paolo Sorrentino, em cartaz no Brasil com Aqui É Meu Lugar. O drama sobre Giulio Andreotti permanece inédito e foi visto apenas em mostras. Servillo é um grande por aqui, a Itália. Está no elenco de outro filme concorrente, Bella Addormentata, de ninguém menos que Marco Bellocchio. Competirá, portanto, consigo mesmo. Fico curioso em saber qual é seu papel neste drama real sobre os últimos dias de uma jovem que permaneceu em estado vegetativo até ter os aparelhos desligados para morrer, numa passagem que comoveu o país. Se tudo der certo, amanhã pergunto a Servillo. Mas a entrevista está marcada em função do pai tiranico, ou pai patrão como definiu o diretor Daniele Cipri, que padece para sustentar sua família na periferia de Palermo. A cultura siciliana tem muito peso nessa história conduzida com boa dose de humor negro que se transformará muitas vezes em tragédia. A primeira delas é a morte por um tiro perdido da caçula do clã, durante uma vingança da máfia. Para esses casos, o governo oferece uma compensação em dinheiro. A soma não é pequena e todos fazem seus planos. Nicola, o pai, decide por uma bela Mercedes. Mas o dinheiro demora. O consumo desenfreado, que não é mais que as compras da casa, gera um empréstimo com um agiota. O embate final, no entanto, não se dá em função das finanças, mas de uma relação de confronto entre pai e seu filho adolescente. Foi o filho, anuncia o título.

Cipri, era de se esperar, é siciliano e quis radiografar um pouco do contexto de sua infância. Visão sombria esta, lembrou=se na entrevista. O diretor disse que nao poderia ser diferente num “paese”, como se diz por aqui quanto as diversas regiões, dominado pelo crime. É, segundo ele, a sua tragedia grega em Palermo. Servillo, o padre padrone, lembrou o quanto se trata de uma cultura do matriarcado. Se a mãe é um tanto fragil na fita, não é o caso da avó, figura definidora para colocar a casa em ordem ao final, claro que a sua maneira. Citou Verga e Sciascia, dois dos grandes autores italianos, o primeiro ao recordar uma análise do consumismo e o segundo ao lembrar um texto em que diz pensar o matriarcado como o origem do comportamento mafioso. Uma análise breve mas brilhante. Servillo falou pouco mas sabidamente. Acho que terei bons momentos amanhã.

Mais competição

Deixei dois comentários atrasados sobre a competição da noite de quinta. O concorrente americano At Any Price, dirigido por Ramin Bahrani, filho de iranianos, merece parcas linhas. No cinturão do milho no interior, Dennis Quaid é o fazendeiro que cultiva a plantação e compete duramente para que suas sementes sejam utilizadas por outros donos de terra. Seus métodos pouco éticos concorrem com uma vida familiar complicada, o filho mais velho que deixou a casa para uma viagem de que nunca volta, o caçula que se recusa a assumir os negócios e prefere as corridas, papel de Zac Efron. Por fim, a mulher que ele trai com uma jovem. Conforme cresce o conflito entre os plantadores, se acirra o atrito entre pai e filho. Aliás, um confronto que já começa a se esboçar comum nos filmes desta mostra. A questão aqui é que o drama se coloca superficial e banal num retrato desconexo da realidade americana, talvez por ser de um realizador que ambiciona o respeito como analista de uma cultura que assumidamente é devoto. Bem melhor nisso foi em seu filme anterior, Adeus.

Tem mais oferecer, por certo no debate, o filme do austríaco Ulrich Seidl. Com Paradies: Glaube, na tradução direta, Paraíso: Fé, ele apresenta o segundo resultado de sua trilogia iniciada em com Amor, apresentado em Cannes. Aqui tinhamos uma complicada retomada da visão do colonizador atual na trama de mulheres que vão a resorts na Africa em busca de sol, diversao, mas também sexo com os locais. Mais do que caminhar nessa fronteira ingrata do apelo ao turismo sexual, Seidl demonstrou uma visão tosca e de mau gosto com suas mulheres, equivocando se na proposta crítica. Agora as coisas vao um pouco melhores, embora insista na contraposiçao de valores. Se la eram os europeus confrontados com o de um pais visto como exótico, em Fé temos a religiao a dar as coordenadas, na personagem de uma catolica beata que bate nas casas das pessoas para tentar coopta-las a religião. Ate que um dia ressurge um antigo companheiro em cadeira de rodas, um muçulmano que lhe exige a volta do credo no islamismo ao mesmo tempo que o papel de mulher. Um problema que se renova aqui é a falta um tanto de sutileza na apreensao do diretor. Ainda sim, sua visao está melhor apresentada e o filme tem seu apelo para polêmicas.

registrado em: