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Política

"Novidade"

O mico da lista “Políticos Mais Ricos do Brasil” da Forbes

por Piero Locatelli — publicado 05/02/2014 19h34, última modificação 06/02/2014 09h06
Diversos veículos brasileiros noticiaram nesta semana o ranking feito pelo site da revista norte-americana. Mas a reportagem não traz nenhuma novidade, e seus dados estão incorretos
Reportagem publicada no site da Forbes

Reportagem publicada no site da Forbes

Diversos veículos brasileiros noticiaram nesta semana uma lista feita pela revista norte-americana Forbes dos “Políticos Mais Ricos do Brasil”. Diante da aparente credibilidade, R7 e Terra tentaram transformar a lista estrangeira em cliques fáceis com slide shows. Exame, iG , Glamurama, Istoé, Folha de S.Paulo e outros também a noticiaram.

Apesar da sua grande repercussão, a reportagem da Forbes não traz nenhuma novidade, e seus dados estão incorretos. A fonte utilizada para os dados da reportagem é chamada de “Suprema Corte Eleitoral”, uma tradução de Tribunal Superior Eleitoral que deve ter voltado, ido e voltado ao país via Google Translator.

Ou seja: dados públicos de uma corte brasileira, disponíveis na internet, foram utilizados pelo site de uma revista estrangeira três anos depois. As declarações feitas pelos políticos ao se candidatarem, posteriormente, foram traduzidos para o português e acolhidos no Brasil como se fossem inéditas.

Além disso, os dados não batem com os da sua própria fonte, o TSE. Mauro Mendes (PSB), prefeito de Cuiabá com um patrimônio declarado de 116,8 milhões de reais, não está na lista. Paulo Maluf (PP), com um patrimônio de 33 milhões de dólares, está. Qual o critério?

Mesmo se utilizasse corretamente os dados do TSE, a lista estaria longe de mostrar os “Políticos mais ricos do Brasil”. Uma Kombi de 199 milhões de reais e alguns candidatos com dezenas de milhões de reais embaixo do colchão são bons exemplos de como as declarações são feitas de maneira incorreta. Por fim, o valor contido nas declarações está longe de ser o atual – como mostra o apartamento de 90 mil reais de Fernando Haddad (PT) em bairro nobre de São Paulo, valor da época da compra declarado de forma legal.

O artigo começa ainda com uma leitura única sobre os protestos no Brasil, dizendo que eles chegaram a ser chamados de “revolução” por “observadores mais entusiasmados” e que “no fim das contas, eram atos contra políticos”.

Além disso, a lista tem outras imprecisões. A reportagem diz que somente foi considerado “quem tem mandato.” Apesar disso, o primeiro colocado é um segundo suplente de senador que não exerce cargo público.

Apesar da reportagem não se sustentar minimamente, ela repercutiu muito no Brasil, em um claro exemplo da percepção do jornalismo brasileiro de que "o que vem de fora é melhor". Outras diversas matérias feitas sobre o assunto dentro do país nos últimos anos, de qualidade muito maior, não tiveram a mesma repercussão.

Isso não é um caso isolado de vira latisse e baixa autoestima do jornalismo brasileiro. Helen Joyce, correspondente da revista britânica Economist no Brasil, certa vez descreveu a recepção dos seus textos no Brasil: “Quase toda a semana o que eu escrevo é traduzido para português, com a adição da sentença ‘de acordo com a Economist’ no começo de cada parágrafo”. A época, José Serra havia sido chamado de great beast por ela. Com a tradução, “grande fera” virou “grande besta”, e ela foi parar na capa de todos os portais brasileiros.

Uma reportagem sobre o futebol brasileiro no New York Times escancara mais ainda essa situação. A publicação original, no site do jornal, teve 39 comentários. Uma reportagem sobre a reportagem, no Globo Esporte, teve incríveis 1435 comentários.

Atualização em 06/02 às 9h15:

O jornalista Anderson Antunes, autor da reportagem no site da Forbes, procurou CartaCapital para esclarecer sua metodologia:

“De fato os dados divulgados pelo TSE serviram como base e fonte de pesquisa para o trabalho de estimativa dos patrimônios dos políticos listados. No entanto, os dados do TSE não foram os únicos analisados e, como você mesmo aponta em seu texto, estão desatualizados. Existem casos de políticos que declararam em 2012 ao TSE patrimônios que supostamente os garantiria um lugar em nossa lista, mas cujas empresas encontram-se no momento em processos de recuperação judicial. Outros doaram suas respectivas participações para familiares. Em ambos os casos, os dados do TSE serviram como ponto de partida para a compilação da lista, mas houve -- como sempre há -- o trabalho de checagem sobre os bens de todos os candidatos com os maiores patrimônios apresentados ao TSE em 2010 e 2012. A realidade financeira de alguns destes mudou nos últimos anos, e não mais reflete os dados do TSE mais atuais (referentes às eleições de 2012). Isso foi checado por mim pessoalmente com todos os políticos ou seus representantes.

A lista da FORBES considerou os políticos que ocupam cargos oficiais e que possuem participações em empresas públicas (listadas em bolsa) ou privadas, e cujas participações estejam descriminadas em documentos oficiais de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários e a ANEEL. É possível que existam políticos com patrimônios maiores do que os declarados ao TSE, mas cujos registros de tais patrimônios encontram-se no nome de terceiros. A Forbes considera apenas aqueles cujos nomes aparecem em estruturas acionárias de companhias públicas ou privadas.

Como você deve saber, a lei brasileira permite que os bens declarados oficialmente não tenham seus valores reais refletidos em declarações. Há casos em que alguns bens são superfaturados (como a Kombi de R$ 199 milhões que você menciona) e casos de bens com valores inferiores aos reais. A Forbes considera apenas os valores reais de mercado.

Eu posso lhe garantir que fiz uma extensa checagem para saber quais os políticos possuem os maiores patrimônios legalmente declarados, e mais próximos da realidade, e o resultado é a lista que nós publicamos. Assim como em qualquer país do mundo, existem políticos que usam terceiros para declarar seus bens ou, em alguns casos, nem sequer os declaram. Nós entendemos que a investigação sobre esse tipo de atitude é do interesse das autoridades que se considerarem lesadas por tais práticas. Não podemos atribuir a ninguém bens que não estejam oficialmente declarados.”

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