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Política

Entrevista

José de Abreu volta zen ao Twitter

por Lino Bocchini — publicado 22/05/2013 11h24, última modificação 23/05/2013 17h57
Ator fala do acordo com Gilmar Mendes, do vício em internet, de liberdade, patrulha, TV Globo, homofobia e por que não gosta do Facebook: "é muito família"
Arquivo Pessoal
Zé de Abreu

Para ilustrar essa entrevista, José de Abreu enviou fotos inéditas de sua última viagem à Cuba, em abril de 2013. Aqui, o ator cantando na Bodeguita

O que começou como uma entrevista rápida, virou um jantar demorado e intenso, regado a vinho e carne. Que se desdobrou em telefonemas, e-mails e mensagens via twitter e celular. Na última ligação, na noite de terça-feira 21, José de Abreu avisava que tinha conseguido, finalmente, reatitwivar sua conta original no Twitter (@zehdeabreu), com todos os 75 mil seguidores. O ator saiu da rede social por conta do processo movido pelo ministro do STF Gilmar Mendes –“resolvi recolher as armas”. Mas agora voltou. E, jura, voltou mais calmo. “Pelo menos vou tentar não me pilhar tanto”.

No papo logo após uma apresentação da peça Bonifácio Bilhões no último sábado, em São Paulo, o ator falou longamente sobre como está na Internet desde os primórdios das BBS, enumerou os sites que lê com mais frequência (“Viomundo, Nassif, Brasil 247, Maria Frô, Socialista Morena... e mais um monte de coisa”), reclamou da gripe e também da patrulha que sofre na rede e desfiou elogios à Globo e aos cãezinhos peludos da raça lhasa apso.

Atendeu prontamente aos pedidos de fotografia de fãs e contou satisfeito que hoje, em meio aos inúmeros pedidos pra tirar foto por conta de sua atuação na Globo, muitos o assediam, todo dia, por causa da suas posições políticas na internet. Falando em assédio, parece mentira, mas o taxista que nos levou até o restaurante entrou no papo e não queria sair mais porque tinha sido candidato a vereador pelo PT no interior de Sergipe e era fã do José de Abreu versão político. E o taxista da volta, piauiense, comentou logo após o ator descer do carro que ficou feliz em saber que “o Nilo da novela gosta do Lula”. A seguir os melhores momentos da conversa:

Gilmar Mendes e saída do twitter

[O ministro do STF abriu processo contra José de Abreu por injúria, calúnia e difamação por conta de um tuíte que insinuava que ele teria contratado um espião preso na operação Monte Carlo da PF. Um acordo foi fechado no último dia 12 de maio, e o processo foi retirado. O ministro já havia ameaçado processar Zé em outra ocasião, quando o artista o chamou de “corrupto”]. “Fizemos um acordo, mas não posso falar muito sobre isso porque a minha parte no acordo consiste justamente em não falar mais dele publicamente. Depois do processo, conversei muito com amigos e familiares, e resolvi guardar as armas, então fechei minha conta no twitter”.

Volta ao twitter-droga

“Voltei hoje (ontem, terça feira, 21 de maio) ao Twitter! Eu tinha suspendido minha conta por algumas semanas resolvi reativar. Mas vou voltar mais clamo, vamos ver se consigo... Me fez bem ficar de fora do twitter, eu observava, mas não estava exposto, brigando. Foi bom... aquilo é um vício como outro qualquer, uma droga. Mas droga não é necessariamente ruim... estamos aqui tomando um vinho, e é legal, estamos conversando, combina com a comida etc. E facebook eu nunca gostei muito, acho muito família, muita fotinho de filho... muito light. Sou mais heavy, mais do twitter mesmo.

Patrulha na rede

“Tem alguns tuiteiros que me xingam diariamente, muitas vezes de coisas pesadas. Já me chamaram de canalha, homofóbico, filho da puta... falaram que minha mulher vai pra Ipanema dar pra surfista... Porra, que é isso? Ficam me monitorando, me patrulhando, o que não tem nada a ver com a própria lógica da rede. Twitter é o assobio de um passarinho, algo efêmero, que poderia até sumir depois de umas horas. Não é algo pra durar, pra você imprimir, tirar do contexto e registrar em cartório. Um saco isso de ficarem atrás de mim. Qualquer coisa que eu posto é exposta em tudo que é canto... tem estudante de direito que semanalmente manda meus tuítes para a Procuradoria-Geral da República e fica pedindo providencias. Você acredita? Tem outros dois malucos fizeram um blog só pra isso, pra expor meus tuites com comentários! Pô, são dedo-duros cibernéticos!” [risos]

Processo contra difamadores e liberdade na internet

“Acho que twitter é praticamente um chat, algo libertário, como toda internet. Eu brigo? Claro, entro na pilha, não me seguro e falo demais. Mas já decidi: não vou processar ninguém. Falei isso só pra dar um susto. Já me diverti bastante vendo os babacas apavorados e "disfarçando". Vivo de imagem, sou ator, esses processos costumar sair caro pros caluniadores... Mas repito: não vou processar ninguém. Até porque sempre achei a internet muito libertária, e deveria continuar assim. Se for pra ter lei de internet tinha que ser pra dizer que não tem que ter lei. Ou vale só a Constituição e já tá bom demais. Tem que ser um território livre. Sem adjetivos.”

Acusações de homofobia

[O ator foi acusado de preconceito por ter se recusado a beijar um homem na boca em um bar]. “Homofóbico é ótimo! Fiz o primeiro beijo homo do teatro brasileiro em O beijo da Mulher Aranha, do Manuel Puig. A primeira trepada homo ao vivo no teatro brasileiro. E que foi cortada pela censura [mostra a imagem do documento da censura no celular] mas que era desobedecida toda noite. Fiz também o filme gaúcho A Intrusa, baseado no conto homônimo do Borges, com música do Piazzolla, onde havia um menàge com 2 homens e uma mulher, e encerrava com um beijo na boca entre eles, que eram irmãos. Foi um Brokeback Montain 30 anos antes! Porra, eu beijava homem na boca em cima do palco antes desses caras que me acusam de homofobia nascerem!”

Rede Globo nem aí

“A Globo acabou de renovar meu contrato por 3 anos, como tem sido há décadas. Tive um aumento razoável e vou ser o vilão-protagonista da próxima novela das seis. Eu me expor dessa forma como eu faço, me posicionar politicamente, acaba me valorizando como artista. E a Globo nunca, nunca, me fez qualquer indagação sobre meu posicionamento. Conversei até com o antigo diretor geral, o Florisbal, e ele me lembrou do Dias Gomes, do Oduvaldo Viana Filho -- a Grande Família é dele -- e do Paulo Pontes, todos comunas que trabalharam, e muito, na Globo. Tem aquela lenda que o Roberto Marinho dizia teria dito pros milicos: "dos meus comunistas cuido eu". Não sei se é verdade, mas teve uma época com muita censura e perseguição política e a Globo começou a levar muitas boas cabeças pra lá, como Paulo José, Hugo Carvana, Paulo Afonso Grisolli ... O Projac é uma fábrica de sonhos, não tem nada a ver com aquela meia hora diária de noticiário…"

Candidatura a deputado federal

“Não vou sair candidato, já decidi. Conversei com muita gente e achei melhor não sair, até porque eu teria que sair da Globo e preciso do salário, pago duas pensões pra ex-esposas, ajudo pessoas da família, gente que pede pela internet, protetores de animais...”

Lhasa apso

“Olha tô falando sem demagogia, tenho ajudado muito gato e cachorro hoje em dia, outro dia ajudei um que apanhou tanto que tinha ficado sem a pele do rosto,  só sobrou a arcada dentária. Admiro pacas essas pessoas que dedicam sua vida a essa causa. Tem muitos no tuinto. [E discorre em seguida sobre o lhasa apso que aparece no vídeo que fez com Rafinha Bastos. “No Tibete acreditavam que o lhasa apso era reencarnação de monges, e sabe que ele te passa uma paz grande mesmo?”].

Zé computer guy

“Eu sempre usei a internet, desde os primórdios das BBS, passei por todas as fases, mIRC, ICQ e tudo mais. Sempre adorei isso, meu primeiro computador foi um IBM-Aptiva. E eu gostava tanto que até era o cara que montava o micro para os amigos. Montei mais de 10. E meu micro mesmo ficava todo aberto em cima de uma mesa, as peças espalhadas, assim era mais fácil ir trocando.”

Sou o que sou

“Várias vezes eu penso, não deveria ter escrito isso... mas vou lá e escrevo, não aguento, sou provocador, sou um filho da puta... sou um artista!”