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Nobel

Saramago entre nós

por Leandro Fortes — publicado 21/06/2010 23h38, última modificação 21/06/2010 23h38

O fim de Saramago foi como o fim de qualquer homem, inerte, abatido pelo tempo, um entre muitos de todos os dias. Em grande parte, o que o diferenciava dos outros não eram suas formas, mas o caráter imperativo de sua alma. Saramago decodificava o mundo em histórias incríveis, adoráveis parábolas sobre os vícios e as virtudes dos homens e das mulheres, porque sabia, em sua obra eterna, diferenciar os gêneros com a mesmíssima régua da crítica. Saramago era, antes de tudo, um homem íntegro a nos levar em fantasias intelectuais. Um leitor simples, como somos quase todos nós, pode deslizar feliz por seus longos parágrafos de diálogos nus, sem aspas nem travessões, só frases anunciadas por uma letra em caixa alta, como se os interlocutores nunca respirassem para retrucar. Saramago inseriu, de fato, a língua portuguesa na literatura universal, uma mente irresistível e dono de livros amados e cultuados em todos os cantos do mundo. Era um comunista apaixonado, divinamente ateu, era, por si só, um estrondoso arroubo de alegria, embora optasse sempre por uma certa melancolia, tão lusa, não raro pessimista, sobre os destinos do mundo. Generoso, nos deixou duas jóias terminais, “A viagem do elefante” e “Caim”, o primeiro, sobre o tempo dos homens e o amor dos bichos, o outro, das contradições e da precariedade da fé. Vieram como últimas ondas de um mar vigoroso, mas de águas suaves.

A alma de Saramago partiu-se em mil fragmentos para mim antes de ele virar pó. Sabê-lo morto me deixou eternamente mais triste.