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Jornalismo

Os militares e o jornalismo

por Leandro Fortes — publicado 15/02/2012 17h17, última modificação 15/02/2012 17h38

Há uns dez anos, acho, fiz uma reportagem, na revista Época, na qual denunciava um grupo de oito oficiais da Marinha que, na Embaixada do Brasil em Washington, formava uma alegre quadrilha. Encarregados de comprar equipamento militar, os oficiais tinham adquirido lotes de ração para treinamento de sobrevivência a preços superfaturados. Tinham ganhado milhões nessa brincadeira. Eu descobri a fraude cruzando os dados da compra com os mesmos produtos oferecidos pela internet, que chegavam a ser 15 vezes mais baratos na rede. Pois bem, saiu a matéria, e toca o telefone da redação: era um almirante a quem eu conhecia muito bem, uma boa fonte, um oficial de respeito. Eu fui todo alegre atender, certo de que iria ser alvo da gratidão da Marinha por ter livrado a força naval de oficiais inescrupulosos (os caras acabaram removidos dos EUA). Então, me disse o almirante, com uma voz cavernosa: “O senhor não é mais bem vindo aqui na Marinha, nem será mais recebido por mim, em qualquer circunstância”. E bateu o telefone na minha cara.

Conto isso para ilustrar uma história muito recente. Nesta semana, a edição da CartaCapital tem uma matéria minha sobre a infiltração de arapongas militares, oriundos do Centro de Inteligência do Exército (CIE), em diversos órgãos do Ministério Público, inclusive a Procuradoria Geral da República. São oito oficiais (seis coronéis, um tenente-coronel e um capitão, mas pode haver outros), todos especialistas em ações de espionagem e contrainteligência. Os rastreei pelo Diário Oficial da União. Então, assim como o almirante, o secretário-geral do Conselho Nacional do Ministério Público, José Adércio (que contratou um deles, o capitão), ao invés de me parabenizar, mandou uma longa carta à redação desqualificando a reportagem, dando dicas de jornalismo, pequenas aulas de português, orientações sobre ética e, além de tudo, fez circular entre os conselheiros outra mensagem, em tom mais pessoal, com uma informação curiosa: disse que iria mostrar a minha matéria para a filha dele, estudante de Comunicação Social, como exemplo de mau jornalismo a nunca ser seguido.

Fico pensando como vai ser difícil para essa moça tratar desse dilema.

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