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Crítica

Malu Fontes: "O fio e o poder da TV"

por Leandro Fortes — publicado 08/09/2009 10h52, última modificação 08/09/2009 10h52

Malu Fontes é uma voz dissonante no jornalismo baiano. Todos os domingos, ela assina uma coluna no mais importante jornal da Bahia, A Tarde, intitulada “Teleanálise”, na qual expõe as vísceras da baixaria, da primariedade e da má fé da programação televisiva local e nacional. Dona de um texto sarcástico e deliciosamente mal humorado, ela consegue se sobrepor à hipocrisia reinante nas relações entre os chamados “colunistas de TV” e as emissoras, quase sempre baseadas no elogio fácil em troca de miçangas e jabaculês. Incomoda, por isso mesmo, a raia miúda da política baiana e seus jornalistas de bolso, sobretudo os contratados para explorar a miséria humana em programas de auditório veiculados, criminosamente, no horário do almoço dos cidadãos soteropolitanos. Por ter coragem de falar o que ninguém fala, Malu é alvo constante de campanhas difamatórias, calúnias e insultos. Não raras vezes, pediram sua cabeça em A Tarde, na vã tentativa de calar-lhe a voz crítica. Eu e Malu fomos contemporâneos na Faculdade de Comunicação da UFBA, colegas de trabalho no saudoso Jornal da Bahia e somos amigos há mais de 20 anos. No final dos anos 1980, vim para Brasília tentar a vida como repórter, ela ficou em Salvador, onde se dedicou a uma produtiva carreira acadêmica. Doutora em Comunicação e Cultura, ela também é professora de Jornalismo da UFBA. Mantém, ainda, umblog pessoal para aqueles que se interessarem em ler outros textos dela. A partir de hoje, e sempre que achar pertinente, vou reproduzir aqui no blog os artigos publicados por Malu Fontes, com autorização da autora, em A Tarde. Será um presente para todos nós. Divirtam-se.

O fio e o poder da TV
Malu Fontes (coluna "Teleanálise" publicada no jornal "A Tarde", de Salvador)

Nas duas últimas semanas, não apenas os telespectadores dos programas populares, mas também leitores de jornais, sites e blogs de Salvador, tiveram sua atenção voltada para um episódio insólito e tradutor da falta de sentido de polêmicas tão fabricadas quanto vulgares. O centro das atenções foi a professora do ensino infantil cujas imagens, encenando uma coreografia que, na melhor das hipóteses, pode ser descrita como masturbação anal, mediante o puxa e repuxa de uma calcinha fio dental, foram capturadas por câmaras de celulares em um show de pagode. Nas cenas, que como quaisquer imagens nos dias atuais foram parar no YouTube, a professora está sobre um palco, diante de centenas de pessoas, co-estrelando a coreografia nada inocente, ao lado do vocalista de um grupo de pagode cujos hits mais apreciados por seu público contêm refrões do quilate de ‘a piriguete anda com o fio só todo enfiado’ e ‘eu quero tudo até o talo’.

A moça, alguns dias após a participação no show que culminou com a postagem das imagens na Internet, acabou tendo que abrir mão do emprego em uma escola privada de pequeno porte. Segundo o dono do estabelecimento, a demissão se deu mediante um acordo amigável, fato ocorrido há mais de um mês, sem qualquer repercussão imediata. Entretanto, de repente, quando as tais imagens já circulavam na Internet há tempos, o assunto, sabe-se lá pela mão de quem, chegou às primeiras páginas dos jornais e tornou-se pauta bate-estaca no programas populares de TV. O show grotesco foi completo e continua em cartaz, com direito à moça, agora guindada à categoria de celebridade instantânea, desembarcando na porta de estúdios de TV enrolada na bandeira brasileira.

(AB)USO - A polêmica em torno do assunto não poderia ser mais tosca. De um lado, apresentadores de TV bancando os amiguinhos da moça, manifestam solidariedade e argumentam, hipocritamente, que ninguém tem nada a ver com o que uma professora faz ou deixa de fazer em suas horas de lazer e diversão, em sua vida privada. Dizem que a moça é vítima da exploração de sua imagem, que estava apenas divertindo-se e que demiti-la é uma manifestação pseudo-moralista.  

Enquanto a defendem, claro, tais apresentadores e seus repórteres repetem e repetem as cenas extraídas da Internet, promovendo, assim, por vias nem um pouco subliminares, mais e mais o desgaste e a vulgarização da imagem e da identidade daquela que contraditoriamente consideram vítima. Ela, por sua vez, diante do limão, já ensaia a limonada: anuncia processo judicial indenizatório contra o YouTube, alegando (ab)uso indevido e veiculação não autorizada de sua imagem. Embora ainda meio desconcertada, já insinua considerar convites para ‘dançar’ ou posar sem roupa. Especula-se, inclusive, a sua participação em atrações televisiva locais e nacionais de temáticas que têm com o repertório imagético e musical que a trouxe para a boca da cena televisiva uma afinidade do tipo a mão e...

PROFUNDIDADE - A primeira aparição pública da professora em grande foi a ida a um estádio de futebol no último final de semana, para experimentar, sem filtros, a fama instantânea. Diz-se que a experiência não foi das mais agradáveis. Quem estava lá e não é surdo pôde ouvir palavrões e níveis abissais de manifestações misóginas dirigidos à estrela da hora. O repertório usado pelos fãs recém-conquistados tem tudo a ver com a natureza da performance que a promoveu ao mundo das celebridades de terceira linha.

Um outro segmento do ‘seu público’, o que insiste na tese que a demissão da escola é um ato de falso moralismo, é bom também não perder de vista que algumas profissões e carreiras exigem, sim, a manutenção pública de comportamentos um tantinho mais cuidadosos. Do mesmo modo que em sociedade alguma será considerado natural que juízes, independentemente de serem homens ou mulheres, sejam vistos enchendo a cara em bares e casas noturnas em seus horários de lazer, não há papai nem mamãe que ache engraçadinho o fato de a professora de seus pimpolhos aprendendo a ler suba a um palco após uns goros, deixe um vocalista enfiar a mão sob sua roupa, tocando eroticamente a bunda e puxando e esticando de lá, tal qual faria com uma borracha de estilingue, o fio dental de calcinha durante uma coreografia, Dezenas de donos de celulares com câmeras ficaram a postos e disponibilizaram as imagens na rede mundial de computadores.  

Parte do público subestima o poder, não exatamente para o bem, da televisão. Ao lançar mão de uma imagem real e usá-la para falar da falsa moralidade de quem condena a professora por divertir-se encenando em seu corpo o ato ‘todo enfiado’, o que a TV quer e faz é potencializar o escândalo e exacerbar a condenação moral da moça ao repetir sua imagem. Quando quer, o veículo faz as vezes de juiz e polícia. Que o diga Belchior. Embora seja um direito de qualquer pessoa sumir no mundo, se assim o quiser, deixando tudo para trás, o Fantástico se imbuiu do poder de caçá-lo como um criminoso, um foragido da polícia (o que não era), até achá-lo e exibi-lo ridicularizado e sem privacidade. A profundidade com que a TV entra na vida de quem ela transforma em personagem e o arranha é compatível com a mesma com o que o fio da roupa íntima arranhou a professora.

Adendo: por conta própria, coloco à disposição dos leitores o referido vídeo da professora baiana, logo abaixo.
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Uppfm63UUDs]