Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog de Leandro Fortes / Dilma no labirinto

Política

A inacreditável saga do plebiscito que foi sem nunca ter sido

Dilma no labirinto

por — publicado 26/06/2013 09h49

Os últimos movimentos do Palácio do Planalto, erráticos e orientados por estratégias de marketing, produziram uma pequena tragédia de comunicação baseada nessa hipótese de assembleia constituinte específica que, menos de 24 horas depois, começou a se dissolver no ar entre desmentidos e versões até chegar a essa melancólica justificativa do não-foi-nada-disso-que-a-presidenta-falou. Foi, sim, o que ela disse, e se o caminho do governo do PT é achar que todos são idiotas, o melhor que o eleitorado de esquerda e progressista tem a fazer, daqui em diante, é buscar uma alternativa para 2014.

Dilma colocou claramente a possibilidade de se convocar uma assembleia constituinte para a reforma política por meio de um “plebiscito popular” (alô, assessoria do Planalto, ninguém aí estudou pleonasmo no colégio?). O plebiscito é uma boa ideia e uma boa resposta ao movimento das ruas. O fato de, após o anúncio, terem surgido resistências políticas e notícias de impedimentos legais não deveria ter sido razão para o governo voltar atrás de forma dissimulada. Qual o problema de, ao invés de nos acusar de mal entendedores, simplesmente reconhecer que, apesar da boa fé da proposta, ela é inexequível?  Malandragem, dá um tempo.

Não há dúvida de que a reforma política é uma necessidade premente da vida nacional, e não é de hoje. Não somente Dilma, mas qualquer um que acompanhe minimamente a dinâmica do Congresso Nacional, sabe que com esse quadro de parlamentares que aí está não será possível aprová-la a contento, simplesmente, por falta de interessados no assunto. Um dos pontos principais da propalada reforma, o financiamento público de campanhas eleitorais, tem o enorme potencial de encerrar o ciclo de formação de caixa dois no Brasil, origem e causa de todos os “mensalões” e, principalmente, fonte essencial de enriquecimento ilícito da canalha política tupiniquim. Isso significa que para boa parte das bancadas do Congresso o fim do financiamento privado será o colapso de uma relação corrupta e ancestral da política com o empresariado nacional, cuja base de entendimento mútuo ainda se faz a partir de acordos de cooperação clandestina, mandato a mandato.

O exército de colunistas da mídia, no entanto, já foi colocado de plantão em torno de uma tese irracional e mesquinha: o financiamento público, obviamente a ser definido a partir do tamanho das bancadas, irá beneficiar o PT. Trata-se do antigo método de se basear num pressuposto verdadeiro para sustentar uma mentira. Olhar uma medida dessa envergadura, de efeito claramente universal, apenas pela ótica da circunstância é típico dessa imprensa ruim e carcomida que sobrevive à sombra dos monopólios e, ironicamente, às custas de financiamento público. Quando tinham um preferido na Presidência, apoiaram a emenda da reeleição (com compra de votos no Congresso) e deram manchetes para a disposição de Fernando Henrique Cardoso em criar, vejam vocês, uma assembleia constituinte exclusiva para fazer... a reforma política!

O fato é que, já no tempo de FHC, essa era uma boa ideia. O Parlamento brasileiro está viciado em negociatas e a tradição republicana de conchavos em nome da governabilidade não ajuda em nada na desintoxicação do ambiente. Criou-se uma ciranda de acordos espúrios em troca da manutenção das políticas de governo onde as ideologias foram dissolvidas de forma desavergonhada, a ponto de 10 anos de governo petista terem agregado à história do partido gente do nível de José Sarney, Fernando Collor de Mello, Kátia Abreu e Paulo Maluf. Sem falar na recente contribuição de Dilma à essa bazófia ao contratar o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif, como ministro das micro e pequenas empresas – seja lá o que isso signifique.

Novamente acuado, o PT se põem, agora, a ouvir sermões aqui e alhures, inclusive de arrivistas políticos profissionais, sobre sua pertinente proposta de plebiscito. Por não ter coragem de, outra vez, encarar o conflito, voltou a passar a imagem de um governo perdido, teleguiado pela marquetagem, incapaz de fazer sua maioria no Congresso se movimentar, quanto mais ressuscitar a velha militância petista de outrora, envelhecida pelos anos de poder e embriagada pela perigosa sensação de que a reeleição de Dilma, no ano que vem, são favas contatadas.