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Política

Folia terceirizada

por Leandro Fortes — publicado 08/11/2009 15h18, última modificação 08/11/2009 15h18

O carnaval de Brasília é um horror. Você pode defender muita coisa por aqui – o verde, o céu, o sol, a chuva, a paz, a tranqüilidade, as pistas largas – menos o carnaval. Primeiro porque, todo ano, chove no carnaval. É sempre uma festa mixuruca, mantida por uns poucos foliões recalcitrantes dispostos a colocar nas ruas um simulacro de desfile de escolas de sambas que não passam de um arremedo, quando não de uma versão maltrapilha, das escolas de samba do Rio de Janeiro e, vá lá, de São Paulo. O carnaval daqui é tão ruim, que nem o governador José Roberto Arruda, do DEM, empenhadíssimo em comemorar o cinqüentenário da capital federal, em 2010, se arriscou a bolar alguma coisa especial para a folia do ano que vem. Preferiu, na verdade, financiar uma escola do Rio, a Beija Flor, e capitalizar seus dirigentes, capitaneados por um bicheiro condenado pela Justiça, com dinheiro do contribuinte local.

Na imprensa de Brasília não se lê uma só linha a respeito, mas há pouco menos de dois meses, em 29 de setembro, o banqueiro do jogo do bicho Aniz Abraão David, 65 anos, presidente de honra da escola de samba Beija Flor de Nilópolis, do Rio de Janeiro, recebeu um cheque de 1,5 milhão de reais do governo do Distrito Federal. Até o carnaval do ano que vem, Anísio, como é conhecido o bicheiro, deverá receber outros 1,5 milhão para colocar na avenida o samba enredo “Brilhante como o sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança”, em homenagem à criação de Juscelino Kubitschek – que aliás, deve estar se remexendo no túmulo diante de tal homenagem. E também, certamente, por achar que isso é bastante dinheiro público na mão de um contraventor cuja ficha policial daria para cobrir parte considerável da Marquês de Sapucaí.

Aniz Abraão foi preso, pela primeira vez, em 1993, durante um histórico arrastão judicial comandado pela juíza Denise Frossard, no Rio de Janeiro, contra os principais chefes do jogo do bicho no estado. Condenado a seis anos de prisão, ficou apenas três anos na cadeia, de onde foi libertado por bom comportamento. Em abril de 2007, no entanto, Anísio voltou a ser preso, desta vez pela Polícia Federal, durante a Operação Hurricane, acusado de ligação com a máfia de contrabando de máquinas ilegais de caça-níqueis. Libertado por uma liminar do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, também passou pouco tempo na cadeia. Em outubro de 2008, passou outra rápida temporada no xadrez, acusado de lavar dinheiro da mesma máfia carioca, mas em Natal, no Rio Grande do Norte.

Vale lembrar que entre os registros da Operação Hurricane a PF apresentou grampos telefônicos onde Aniz Abraão faz ameaças a jurados e seus familiares para forçá-los a dar o título de campeã do carnaval 2007 – o que, de fato, aconteceu.

Mesmo com essa ficha corrida, Aniz Abraão David foi colocado no centro de uma negociação nebulosa na qual se envolveram também o irmão dele, Farid Abraão David, presidente-executivo da Beija Flor, o governador do DF, José Roberto Arruda, o vice Paulo Octávio Pereira (DEM), a Liga das Escolas de Samba do Rio (Liesa), carnavalescos de Brasília, uma filha de JK, um executivo da TV Globo e um apadrinhado do carnavalesco Joãosinho Trinta, um dos símbolos da escola de Nilópolis.

A primeira escola de samba carioca a se interessar pela carnavalesca oferta de recursos distritais foi a Portela, em fevereiro de 2008. Na época, um dos dirigentes da escola, Carlos Monte, pai da cantora Marisa Monte, mandou um pré-projeto de samba enredo ao governador Arruda, antes mesmo do anúncio oficial do GDF. Em seguida, formalizada a disposição do governo local, veio a Brasília o presidente da Portela, Nilo Figueiredo, para se reunir com o vice Paulo Octávio, casado com uma neta de JK, Anna Christina Kubitschek.

Mas o peso familiar do criador de Brasília só foi sentido mesmo uma semana depois, quando outra escola de samba do Rio, a Mocidade Independente de Padre Miguel, se interessou pelo patrocínio oferecido pelo governo do Distrito Federal. Os dirigentes da escola se apresentaram para a disputa na capital com uma madrinha especial, a normalmente discreta Maristela Kubitschek, filha adotiva de JK. Em seguida, foi a vez da Porto da Pedra também se apresentar para a disputa. Foi quando o lobby da Beija Flor, até então alheia à proposta de Arruda, decidiu entrar na briga. E o fez pelas mãos de Ricardo Marques, ex-secretário de Cultura do DF durante o mandato-tampão de Maria Abadia, do PSDB, em 2006. Amigo de Joãosinho Trinta, a quem costuma abrigar em Brasília, Marques começou a girar a roda da fortuna a favor da família do bicheiro Aniz Abraão David.

A intermediação política a favor da Beija Flor no GDF foi reforçada pelo deputado federal Simão Sessim (PP-RJ), primo do bicheiro Anísio e pai do atual prefeito de Nilópolis, Sérgio Sessim, também do PP. A partir de então, a Empresa Brasiliense de Turismo (BrasiliaTur), responsável pelo contrato, estabeleceu como critério que as escolas postulantes tivessem estado entre as cinco melhores colocadas no ranking do carnaval carioca, nos últimos três anos. Com isso, Mocidade Independente de Padre Miguel e Porto da Pedra foram eliminadas, sumariamente.

Em maio passado, o vice Paulo Octávio foi a Nilópolis beijar o estandarte da Beija Flor, depois de ser procurado por outro intermediador de peso, Aloysio Legey, da TV Globo. Por 23 anos, Legey foi responsável pela transmissão do carnaval carioca na emissora da família Marinho, cargo do qual se afastou, no início do ano, por supostas desavenças profissionais internas. No fim das contas, a escola do bicheiro Anísio acabou por conseguir o patrocínio de 3 milhões de reais do governador Arruda sem precisar fazer muito esforço. Isso porque, inexplicavelmente, quatro outras grandes escolas do Rio – Portela, Salgueiro, Grande Rio e Unidos da Tijuca – abriram mão da competição na última hora.

Fazer a Beija Flor desfilar as cores de Brasília é parte de uma estratégia de marketing bolada para dar visibilidade ao cinqüentenário da capital, um dos trunfos políticos do governador Arruda. Para tal, conta com a ajuda do vice Paulo Octávio, também secretário de Turismo, a quem está subordinada a BrasiliaTur – um órgão louco por tertúlias caras. De fato, em 2008, apenas com festas e homenagens, o GDF gastou 26,1 milhões de reais, quatro vezes mais do que o ano anterior. Em 2009, até o final de agosto, 47,1 milhões de reais tinham sido gastos com shows e outras comemorações, segundo levantamento feito pelo Siggo, o sistema de acompanhamento de gastos do GDF disponibilizado aos deputados distritais.

Os carnavalescos de Brasília estão longe de receber a mesmo tratamento dado à família do bicheiro Anísio, no Rio. No dia 6 de outubro passado, o presidente da União das Escolas de Samba de Brasília, Frederico Pereira, foi avisado pela BrasiliaTur que a verba prevista para ser distribuída às 18 escolas do Distrito Federal seria diminuída de 3,4 milhões para 2,8 milhões de reais – sem direito a adiantamento, como no caso da Beija Flor.

Ou seja, no carnaval de Brasília, folia mesmo, só com a grana do contribuinte. A minha, a sua, a nossa.

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