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Sociedade

Internet e Democratização

A internet democratizou tudo?

por Intervozes — publicado 22/06/2016 04h37
Em tempos de uso massivo da rede é preciso pontuar que a universalização do acesso e a qualidade na oferta da conexão ainda não são questões superadas

Por Ivan Moraes Filho*

Dia desses, participava de uma reunião sobre o futuro de nossas cidades. Era um encontro de um monte de gente sabida, que milita e trabalha com políticas públicas, dentro e fora do Estado. Tinha uma rapaziada que estudou “um monte”, que participa das instâncias de decisão na esfera municipal.

A gente conversava sobre comunicação, sobre as dificuldades que as pessoas ainda encontram para se expressar no espaço público, sobre a necessidade de termos políticas públicas que garantam a todos este direito à livre expressão e sobre a visão monolítica que temos das coisas.

Durante esta conversa, um dos participantes – cheio de diplomas debaixo do braço – quis mudar de assunto. “Acho que esta conversa está ultrapassada. Afinal, hoje em dia temos a Internet, que democratizou tudo”, colocou.

Embora a conversa não tenha se encerrado, ela fez refletir, pois traduz o equivocado sentimento de uma parte de nossa população, que é branca, urbana, escolarizada e de classes mais abastadas, que acredita que o acesso à internet já está solucionado.

Esta parte em questão, não por acaso, é a que compõe o pouco mais de 50% dos brasileiros que têm, de fato, acesso à internet em casa (Fonte: NIC.br – out2014/mar2015).

Mas, ao contrário do pensa o colega citado, a população brasileira é muito mais do que nossos vizinhos, familiares e amigos. Há um bocado de gente que mora nas periferias dos centros urbanos e nas zonas rurais do país e que ainda sofrem com precariedade da oferta dos serviços de banda larga. Gente que, muitas vezes, também não tem grana para pagar pelos planos de acesso à internet – um dos mais caros e de pior qualidade no mundo.

A Pesquisa Brasileira de Mídia, realizada anualmente pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República mostra que, para se informar, as pessoas utilizam ainda, majoritariamente, a TV, apontada por 93% dos entrevistados como principal meio de informação. O rádio vem em segunda posição aparecendo como fonte prioritária de informação para 46% dos entrevistados e apenas 42% indicaram a internet como principal fonte.

Esta pesquisa também mostra que as diferenças de renda e escolaridade são evidentes quando o assunto é o uso e a apropriação da internet. Dentre os entrevistados com renda familiar até um salário mínimo, a proporção dos que acessam a internet pelo menos uma vez por semana era de 20%, já entre os que possuem renda superior a cinco salários, a proporção sobe para 76%.

A internet também não favorece os menos escolarizados – apenas 5% dos entrevistados que tinham estudado até a quarta série do fundamental disse fazer uso da rede – e dos que faziam tal uso, a média de acesso era de pouco mais de 3 horas por dia.

Dentre os que declararam possuir formação superior, o percentual de uso é de 72%, com média de tempo de conexão de seis horas por dia. Ou seja, qualquer recorte de renda, classe, gênero, raça ou geração mostrará as disparidades no uso da rede, que seguem repetindo desigualdades históricas.

A deficiência no acesso e a má qualidade da conexão são apenas a ponta do iceberg dos problemas enfrentados pela população, que busca, no ambiente digital, uma possibilidade de se expressar, interagir e se informar de forma livre e autônoma.

Discussões imprescindíveis como a garantia da privacidade (ou você ainda pensa que a turma do Google não lê os e-mails que você manda? Ou que o Facebook não confere teu in box?), da liberdade de expressão (quem tem o poder para apagar aquilo que você postou? De que forma ele é exercido?) e neutralidade da rede (você está pagando por banda ou por conteúdo?) não estão chegando à população com a importância que merecem.

Um exemplo de pergunta que deveria ser feita seria “qual é o interesse da plataforma Facebook ao ‘conceder’ seus serviços proprietários ‘de graça’, como vem fazendo em alguns lugares do mundo? Ou então “como é que os algoritmos na mídia social mais bombada do mundo resolvem o que você vai ou não vai ver na sua TL?”. Já pensou sobre isso?

No Brasil, avançamos um pouco com a aprovação do Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014), que traça alguns caminhos para o enfrentamento destas questões. Sua regulamentação e fiscalização, porém, ainda demandam o olhar atento da sociedade para que interesses corporativos não se sobressaiam às necessidades da população.

O surgimento e a massificação da banda larga abrem as portas para uma infinidade de possibilidades. Sem dúvida, o uso de dispositivos digitais tem feito com que, na contemporaneidade, muito mais pessoas tenham a oportunidade de expressar suas ideias, relatos e opiniões. As chances de esta plataforma tornar-se o ambiente livre e horizontal que muitas pessoas sonham, existe. Mas é preciso ter calma antes de dizer que o mundo online já “democratizou tudo” ou mesmo que “democratizou alguma coisa”.

Mais do que nunca, é preciso conhecer o que está por trás da disputa por uma internet de fato livre. Justamente por isso é muito bem vinda a contribuição que traz o documentário Freenet – até onde vai sua liberdade na internet?, produzido pela Molotov Filmes em parceria com as organizações sociais Intervozes, Idec, Nupef, ITS, e com apoio da Fundação Ford Internacional e do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.Br).

Lançado para livre download nesta quarta-feira, dia 15 de junho, o filme visita Quênia, Índia, Estados Unidos, China, Brasil e Uruguai. De forma simples – e criativa – a obra esclarece o que está em jogo para a democratização do acesso à internet, a liberdade de acesso e compartilhamento de conteúdo, a privacidade e garantia de neutralidade da rede.

Trata-se de um conteúdo imprescindível para o debate sobre comunicação nos dias de hoje. Bem adequado ao ambiente escolar, institucional ou comunitário, Freenet – até onde vai sua liberdade na internet? vai fazer você pensar umas quinze vezes (no mínimo) antes de sair dizendo por aí que, em tempos digitais, a gente não precisa mais se preocupar com nosso pleno direito à comunicação. De minha parte, não vou perder tempo. Já estou enviando o link pra aquele camarada do segundo parágrafo.

*Jornalista, escritor, defensor de direitos humanos. Integrante do Centro de Cultura Luiz Freire e mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação da UFPE.