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Política

Operação Lava Jato

Herdeiro de Rocha Mattos é investigado na Lava Jato

por Henrique Beirangê publicado 17/09/2015 06h19
Célio, filho do juiz Rocha Mattos, é acusado de lavar dinheiro do esquema
Epitácio Pessoa/ Estadão Conteúdo
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Rocha Mattos, o pai, voltou a ser condenado

Poucos personagens do mundo jurídico se tornaram tão célebres no Brasil por conta de envolvimento com o crime organizado como o ex-juiz federal João Carlos da Rocha Mattos. As primeiras acusações por suspeitas de vendas de sentenças datam do fim da década de 1980. De acordo com os denunciantes, ele cobraria 2 milhões de dólares, à época, para beneficiar uma das partes. A implosão da quadrilha que comercializava decisões judiciais só ocorreria em 2003 a partir da Operação Anaconda.

Preso em companhia da ex-mulher Norma Regina Emílio Cunha e de mais dois delegados da Polícia Federal, Rocha Mattos foi condenado, cumpriu sete anos e cinco meses de prisão e está livre desde 2011. As investigações contra o casal continuaram, porém. O Ministério da Justiça informou que foram repatriados 19,4 milhões de dólares, bloqueados em contas na Suíça. Rocha Mattos acabou condenado novamente a mais 17 anos de prisão por evasão de divisas e lavagem de dinheiro. A ex-mulher pegou 15 anos, mas os dois recorrem da nova decisão em liberdade.

Já não era suficiente? Não. A Operação Lava Jato alcançou novamente a família. Em março, a doleira Nelma Kodama os conectou ao escândalo. Por consequência, os investigados realizaram uma busca e apreensão na casa do filho do ex-juiz, Célio da Rocha Mattos, por suspeita de envolvimento com a quadrilha da doleira. Novos documentos de um inquérito que investiga as ramificações da quadrilha de Kodama revelam que Célio seria o operador internacional da quadrilha, em Hong Kong.

Para entender as operações do filho do ex-juiz, é preciso conhecer um pouco mais as ações de sua chefe. Kodama liderava um bando responsável por movimentar ilegalmente ao menos 103 milhões de reais entre 2012 e 2013. Ligada a doleiros conhecidos como Alberto Youssef e Fayed Trabousi, a operadora se vangloriava dos crimes. Em uma mensagem interceptada pela Polícia Federal, afirma: “Profissão doleira kkk eh (sic), talvez eu seja mesma a última dama do mercado”.  Kodama acabou presa ao tentar embarcar para a Itália com 200 mil euros na calcinha. Em um depoimento à CPI da Petrobrassela disse que a Operação Lava Jato era a responsável pela recessão no País. “Uma vez que parou a corrupção, parou o Brasil. O Brasil é movido a corrupção.”

As ligações com a família Rocha Mattos são antigas. Ela foi concunhada do ex-juiz, que sempre negou qualquer relação comercial com ela. Durante a maior parte das investigações contra a doleira, um integrante da quadrilha conseguia manter oculta a sua identidade. Sabia-se apenas que usava o e-mail [email protected] e era o responsável por parte das transações financeiras. Expert em informática, o personagem não deixava rastros e usava o falso nome de Fernando Souza. Os agentes da Polícia Federal só conseguiram identificar que o dono do e-mail era o filho do ex-juiz meses depois.

O canal para chegar a Célio foi Luccas Pace Júnior, que era o gerente de operações e decidiu colaborar com as investigações após se sentir abandonado pelos advogados da doleira. Pace Júnior explicou que as contas operadas pelo jovem Rocha Mattos funcionavam em Hong Kong por causa da falta de controle por parte das autoridades locais e a facilidade na abertura de empresas offshore. Os investigadores abriram um inquérito de número 694/15, no qual o filho do ex-juiz aparece diretamente envolvido na organização criminosa.

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Célio enviava dinheiro a integrantes da quadrilha de Kodama

 A relação de Célio com o mundo do crime deu-se ainda no início década de 1990, pelas mãos do próprio pai. Quem conta a história é a ex-mulher do juiz. Uma gravação feita por Norma mostra uma discussão na qual ela acusa Rocha Mattos de ser o responsável por integrar Célio a suas negociações criminosas. “É incômodo para você admitir que é um bandido, é um canalha, um sórdido, um imundo, que colocou o menino (Célio) em contato com corrupção e putaria?” E continua: “Foi dinheiro que o Célio te deu para comprar esse apartamento, não foi?”

Uma das provas anexadas aos autos que atestaria o envolvimento direto de Célio com a quadrilha de Nelma é uma troca de e-mails. No dia 12 de novembro de 2013, Célio envia uma mensagem para três endereços pedindo dez “Swifts da Da Vinci”. Swifts são ordens de pagamentos para transações financeiras internacionais e Da Vinci era uma das empresas usadas por Kodama para movimentar o dinheiro sujo. Em outro e-mail, Célio encaminha dois recibos que estariam relacionados a operações da doleira.

Não só o filho de Rocha Mattos mantinha contatos com Kodama. Outra ex-mulher do juiz também aparece nas investigações. Uma mensagem de correio eletrônico interceptada pela Polícia Federal flagrou um diálogo entre a doleira e Aline Kemer Tamada. Na conversa, elas demonstram preocupação com a prisão do doleiro Fayed Traboulsi durante a Operação Miqueias, que investigava fraudes contra o regime previdenciário. Elas falam ainda de uma possível delação de Traboulsi. A doleira diz ter pago 40 mil reais a um delegado para receber antecipadamente as perguntas que lhe seriam feitas em uma investigação que seria ouvida.

Kodama acabou condenada a 18 anos de prisão por causa das investigações da Polícia Federal. As relações dos citados na reportagem com a doleira e com o ex-juiz ainda devem alimentar novos inquéritos e talvez expliquem o motivo da família de Rocha Mattos ser tão ligada a Kodama. Procurado por CartaCapital para falar da relação do filho e da ex-mulher com a quadrilha, Rocha Mattos foi sucinto: “Não sei de nada”.

*Reportagem publicada originalmente na edição 866 de CartaCapital, com o título "Filho de peixe"