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Política

Entrevista

Armando Monteiro: “Pernambuco ainda tem déficits estruturais imensos”

por Rodrigo Martins publicado 09/09/2014 05h02, última modificação 09/09/2014 13h21
O petebista, que disputa o governo do estado com apoio de Lula, credita a rápida ascensão de Paulo Câmara (PSB) à comoção pela morte de Eduardo Campos
Ricardo Stuckert / Instituto Lula
Armando Monteiro e Lula

Armando Monteiro e Lula durante evento em Petrolina, no interior de Pernambuco, em 4 de setembro

Pela primeira vez desde o início da campanha, Armando Monteiro Neto (PTB) vê sua liderança na disputa pelo governo de Pernambuco ameaçada. Em três semanas, Paulo Câmara (PSB), apadrinhado de Eduardo Campos, cresceu 23 pontos e empatou no primeiro lugar com Monteiro Neto, apoiado por Lula. Agora, ambos figuram com 36% das intenções de voto, de acordo com a mais recente pesquisa Datafolha, de 4 de setembro. No levantamento anterior, divulgado pelo instituto em 15 de agosto, dois dias após o trágico acidente de avião que vitimou Campos e seis integrantes de sua equipe, Monteiro Neto venceria em primeiro turno. Tinha 47%, contra 13% do adversário.

O petebista diz ser previsível certo crescimento de Câmara, apoiado por 21 partidos e com o dobro do tempo no horário eleitoral gratuito. “Com o trágico falecimento de Campos, houve comoção e uma grande exposição de seus aliados na mídia. Isso acelerou o processo. Antecipou o que estava previsto para acontecer a partir de meados de setembro”, afirma Monteiro Neto, em entrevista a CartaCapital. “Quando essa emoção decantar um pouco, o que já está acontecendo, o voto será resultado de uma avaliação, uma reflexão do eleitor sobre os candidatos. Não temos nenhuma dúvida de que o resultado será favorável a nós.”

Senador e ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria, Monteiro Neto avalia que o estado precisa de um modelo de crescimento mais inclusivo, capaz de moldar uma sociedade mais equilibrada. “Pernambuco ainda tem déficits estruturais imensos. Cerca de 27% da população ainda está abaixo da linha de pobreza. Temos um número de analfabetos na faixa superior a 15 anos muito elevado, um sistema educacional ainda muito distante do que se precisa”, avalia. “Precisamos ainda investir fortemente na infraestrutura, porque a própria aceleração do processo de crescimento no estado revelou os gargalos nessa área.”

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: A que o senhor atribui o rápido crescimento de Paulo Câmara, do PSB, nas pesquisas de intenção de voto?
Armando Monteiro: Na realidade, o candidato de Eduardo Campos, apoiado por esse conjunto de forças, tinha de crescer em algum momento, sobretudo após o início da propaganda eleitoral. Era um movimento previsível. Câmara estava em patamares muito baixos, em torno de 10%. Na nossa avaliação, ele não ficaria aí. No mínimo, teria de chegar a 25%, 30% das intenções de voto. O que houve? Com o trágico falecimento de Campos, houve comoção e uma grande exposição de seus aliados na mídia. Isso acelerou o processo. Antecipou o que estava previsto para acontecer a partir de meados de setembro.

CC: Com a maior presença de Lula e Dilma Rousseff em seu palanque, o senhor acredita ser possível reverter essa tendência?
AM: Temos indicações de que não há uma tendência. Em nossas pesquisas internas, vemos um quadro que se estabiliza. Não há um movimento, uma curva de crescimento. Já há sinais de uma acomodação de Câmara naqueles porcentuais. E nós temos uma margem razoável que mantivemos nesse processo. Nossa intenção de votos, num patamar de 40%, é algo sólido, que se cristaliza. Portanto, temos muita confiança no processo eleitoral, sobretudo agora, quando vai se confrontar melhor os perfis, as propostas. Quando essa emoção decantar um pouco, o que já está acontecendo, o voto será resultado de uma avaliação, uma reflexão do eleitor sobre os candidatos. Não temos nenhuma dúvida de que o resultado será favorável a nós.

CC: Pelo perfil da disputa em Pernambuco, altamente polarizada, essa eleição será decidida em um ou dois turnos?
AM: Como essas duas candidaturas polarizam a disputa, e os demais candidatos têm porcentuais muito pequenos, eu tenho a impressão de que a disputa pode ser resolvida no primeiro turno.

CC: Qual é o papel que Lula pode ter na campanha?
AM: Lula é muito querido em Pernambuco. Mas nós sempre sublinhamos o seguinte: nossa chapa tem um lastro político próprio. Eu, o nosso candidato ao Senado, João Paulo (PT), temos um lastro próprio. É claro que Lula e Dilma são aliados muito importantes, valiosos. Mas, no caso de Paulo Câmara, era algo maior. Campos era um padrinho político, lastreava sua campanha.

CC: O senhor se refere ao fato de Câmara ser desconhecido do eleitorado, nunca ter disputado uma eleição antes desse pleito?
AM: Exatamente. O que sempre dissemos? Lula é nosso aliado, evidentemente um aliado importante. É claro que a vinda de Lula a Pernambuco é sempre muito bem recebida. Mas o quadro da disputa vai apontar para uma comparação do perfil dos candidatos. No caso desse confronto, será questionada a capacidade de Câmara poder liderar esse processo em Pernambuco agora e nos próximos anos. Começa a ficar claro na cabeça das pessoas que Campos tinha envergadura política e estatura. Tinha voz, liderança, diálogo nacional, capacidade de articulação. E o candidato que ele escolheu não tem esses atributos. É uma pessoa qualificada, mas que vem da burocracia, tem um perfil diferente. O povo saberá fazer essa avaliação.

CC: Qual é o maior desafio que o próximo governador de Pernambuco terá pela frente?
AM: Transformar esse boom de crescimento, que claramente se evidenciou nos últimos 10 anos, num processo de desenvolvimento verdadeiramente. Precisamos de um padrão de crescimento mais inclusivo, capaz de melhorar os indicadores sociais do estado e de moldar uma sociedade mais equilibrada. Pernambuco ainda tem déficits estruturais imensos. Cerca de 27% da população ainda está abaixo da linha de pobreza. Temos um número de analfabetos na faixa superior a 15 anos muito elevado, um sistema educacional ainda muito distante do que se precisa. Precisamos ainda investir fortemente na infraestrutura, porque a própria aceleração do processo de crescimento no estado revelou os gargalos nessa área. Temos desafios muito grandes.

CC: O senhor tem destacado que Pernambuco ainda é muito dependente de recursos da União para investimentos.
AM: Sim, é muito dependente. Temos projetos de infraestrutura aqui que são cruciais, mas demandam no curto prazo investimentos muito elevados. Para poder responder a essa necessidade, o estado precisa muito dos recursos federais. Por outro lado, há também obras federais em implantação no estado que precisam ser concluídas. Tratam-se de obras que são de responsabilidade direta da União, no sistema viário, na área de infraestrutura hídrica, como a transposição do Rio São Francisco, a construção da ferrovia Transnordestina. Portanto, temos muita necessidade de poder contar com esses investimentos federais para respondermos a essa demanda na área de infraestrutura.

CC: Recentemente, o senhor disse que a economia brasileira “não é aquela Brastemp”, mas continua a apoiar Dilma Rousseff. Por que o senhor renovou a confiança no projeto da presidente?
AM: Primeiro, tem que haver a compreensão de que ela governou num ambiente diferente. No período anterior, havia uma conjuntura internacional extremamente favorável. O Brasil realmente surfou numa onda de crescimento do comércio internacional, com grande elevação no preço das commodities. Foi um período extraordinariamente favorável. Nos anos Dilma, já havia uma série de restrições e dificuldades. Mas eu acho que, no conjunto das ações de seu governo, ela fez coisas importantes. E tem a possibilidade de fazer correções de rumo no próximo governo. A presidente pode e deve fazer uma política macroeconômica mais firme, valorizando mais alguns pontos, como o equilíbrio fiscal. Dilma tem condições de melhorar o ambiente de negócios e de aperfeiçoar, com a ajuda do Congresso, alguns marcos regulatórios. Acredito que um segundo governo Dilma pode preservar certas conquistas e ampliá-las. A presidente tem um aprendizado, um acúmulo de conhecimento, e isso fica mais nítido, agora, na disputa com Marina Silva.

CC: Em Pernambuco, a Marina tem um porcentual de intenções de voto superior ao de Dilma. Dá tempo de recuperar o terreno?
AM: Olha, a diferença é muito pequena. Na verdade, a situação aqui é de empate técnico. As novas pesquisas já mostram certa recuperação de Dilma, e eu imagino que o Nordeste deve contribuir bastante nesse cenário. Agora, com o início dos debates, dos confrontos entre os candidatos, a propaganda na televisão, a Dilma leva uma vantagem no processo. Em que pese a indisposição, o mau humor de alguns setores, diante da imprevisibilidade de um governo Marina, que possui um caráter ambíguo de posições e alianças, a Dilma tende a ganhar a eleição.

CC: O senhor é um dos candidatos que mais investiu dinheiro do próprio bolso na campanha, 3,6 milhões de reais. E também um dos que tiveram a maior evolução patrimonial nos últimos quatro anos. Em 2010, declarou à Justiça Eleitoral ter 1,2 milhão de reais. Agora, diz possuir 14,9 milhões. Qual é a explicação?
AM: Essa evolução patrimonial é muito fácil de ser esclarecida. Eu recebi de meu pai uma doação. Na verdade, ele fez doações a todos os filhos, inclusive a mim. Essa doação foi naturalmente declarada às autoridades. Tudo está devidamente registrado, e eu pude fazer o uso de parte desse dinheiro na campanha. Até porque, se nós não acreditarmos na eleição, quem vai acreditar? Evidentemente, fiz isso com a concordância de minha família, dos meus filhos. E fiz tudo dentro do que a legislação permite.

CC: Era preciso demonstrar confiança aos potenciais doadores da campanha?
AM: Não é bem isso. Confiança, nós tínhamos. E esse apoio veio depois, aumentou o fluxo das contribuições. Mas, num primeiro momento, era importante fazer esse aporte para garantir, também, o cumprimento de uma série de compromissos assumidos. Como gostamos de honrar nossos compromissos, não tive nenhum embaraço de colocar na campanha recursos próprios.

CC: O histórico de falências das empresas de sua família também tem sido usado para questionar a sua capacidade de gestão. Como o senhor rebate essas críticas?
AM: Ao ser questionado sobre isso pelo jornal Valor Econômico, até fiz um reparo ao termo “histórico de falências”. Nosso grupo empresarial tem 60 anos de história. Sou da terceira geração de empreendedores da família. Tínhamos um conglomerado de empresas que gerava mais de 10 mil empregos em Pernambuco. É um grupo tradicional. Durante 40 anos, tivemos uma forte expansão, de crescimento e diversificação das atividades do grupo. Começamos no setor sucroalcooleiro, depois fomos para a o setor metalúrgico, o setor têxtil, a área de distribuição de veículos. E a família também controlava o Banco Mercantil de Pernambuco. Em 1994, quando houve aquele processo de estabilização da economia, o choque da estabilização, vários bancos no Brasil tiveram crise de liquidez e acabaram sofrendo intervenção do Banco Central. Foi assim com o Nacional, o Bamerindus, o Econômico... O nosso também teve.

CC: E as demais empresas do grupo?
AM: Com a intervenção do Banco Central, a partir de 1995, houve uma série de restrições à operação das demais empresas do grupo. Eu não era dirigente do Banco Mercantil. Ele pertencia à família, mas eu nunca atuei lá. A instituição financeira era presidida por meu pai, e um dos diretores era meu irmão. Eu não, sempre atuei na área industrial. Mas a intervenção impôs uma série de restrições à operação das outras empresas. Pelo fato de o controlador do banco, no caso meu pai, ser acionista das demais empresas, houve uma série de restrições. Tivemos dificuldades financeiras e fomos obrigados a reduzir as operações.