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Sociedade

MP do Futebol

“Tudo o que depende da CBF não avança, nem sequer é discutido”

por Rodrigo Martins publicado 17/05/2015 08h49
Para o zagueiro do Cruzeiro e um dos líderes do Bom Senso FC Paulo André, a MP do Futebol é fundamental por induzir a democratização das federações esportivas e assegurar gestão responsável dos clubes
Divulgação

Desde 2013, o Bom Senso FC, representante de mais de mil jogares profissionais, reivindica a adoção de boas práticas na administração do futebol. O ponto de partida é a democratização das entidades que comandam o esporte e o chamado “Fair-Play Financeiro”, um conjunto de regras de gestão responsável baseado em experiências exitosas da Europa.

A partir daí, seria possível avançar para a discussão de um calendário mais racional, da formação de atletas e dos direitos de transmissão, explica Paulo André, zagueiro do Cruzeiro e um dos líderes do movimento. “Tivemos de bater cabeça nos últimos anos para aprender que tudo o que depende da CBF não avança, nem sequer é discutido. A pedra fundamental é o equilíbrio do poder. Somente quando os atletas tiverem direito a voto, nossas demandas serão ouvidas.”

Atleta experiente, campeão do Mundial de Clubes da Fifa de 2012 pelo Corinthians e com passagem pelo time francês Le Mans, Paulo André conhece bem a força da CBF e da Bancada da Bola nos bastidores do Congresso. Em 2014, o Bom Senso engajou-se na luta pela Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. Concordava com as contrapartidas previstas no projeto do deputado Otávio Leite, do PSDB, mas empenhou-se para assegurar mecanismos mais rígidos de fiscalização e punição dos clubes com gestão irresponsável. Foi um ano perdido.

Diante do fracasso nos gramados legislativos, o grupo correu por fora e negociou com o governo federal uma alternativa. O resultado foi a edição da Medida Provisória 671, assinada pela presidenta Dilma Rousseff em março. Em sua essência, a MP do Futebol, como ficou conhecida, trata do parcelamento da bilionária dívida dos clubes com a União. Mas, desta vez, exige contrapartidas de gestão responsável. De volta ao Parlamento, a medida já reúne mais de 180 propostas de emenda. Em entrevista a CartaCapital, Paulo André explica porque o Bom Senso apoia o texto original.

CartaCapital: Quais são os avanços trazidos pela MP 671?

Paulo André: O principal é a possibilidade de democratização das federações. Os atletas passam a ter voz ativa nas entidades que comandam o futebol brasileiro. Esse é ponto de partida para todas as mudanças que o esporte precisa. Hoje, os atletas não têm nenhuma voz, nenhum poder de influência.

Estamos mobilizados desde 2013, quando sentamos no chão e cruzamos os braços para pedir um calendário mais racional e uma gestão dos clubes mais sustentável. Desde então, a CBF nunca nos respondeu, nunca se preocupou em atender nossas demandas. A MP também inova com o Fair Play Financeiro, que garante o pagamento dos salários em dia, assim como os direitos de uso da imagem dos atletas, que estão previstos nos contratos, mas nem sempre são respeitados.

CC: O texto obriga os clubes a limitar em 70% das receitas os gastos com folha de pagamento dos jogadores. Por que esse teto é necessário?

PA: No mundo ideal, não haveria a necessidade de ensinar para um gestor como ele deve administrar suas finanças. Mas, infelizmente, os dirigentes dos clubes nem sempre são gestores profissionais, e sim torcedores apaixonados. Cometem loucuras ao longo do ano para ter resultados esportivos imediatos. Contratam muitos jogadores, pagam verdadeiras fortunas. Logo depois, a dívida estoura e os compromissos não são respeitados. Esse limite de 70% já é usado na Europa pela UEFA, que organiza a Champions League. Eles entendem que, ao exceder essa linha, o risco do clube se endividar é muito alto.

CC: Você atuou na França pelo Le Mans. Como as coisas funcionavam por lá? Os clubes também tinham de prestar contas e limitar gastos?

PA: Sim. Pelo o que sei, a França foi o primeiro país a criar toda essa regulamentação. Inspirou a UEFA, que depois adotou um modelo semelhante. De maneira alguma é uma ingerência estatal, como a CBF e os cartolas dos clubes têm dito. Na verdade, lá existe um Fair Play Financeiro ativo. Antes de começar o campeonato, os clubes precisam comprovar a receita que têm, para depois saber o que podem ou não fazer. No Brasil, ainda estamos lutando pelo Fair Play passivo, baseado nas despesas. Até porque os clubes brasileiros parecem não se programar muito como os europeus.

CC: A CBF alega que as medidas representam um intervencionismo estatal.

PA: Isso é um engano. Pela quarta vez o governo está refinanciando a dívida dos clubes. É natural exigir contrapartidas e querer regular melhor esse negócio. A União não pode continuar, de tempos em tempos, cobrindo esse rombo, com dinheiro do contribuinte. Não pode continuar investindo num modelo que perpetua os maus gestores.

CC: Também há a alegação de que a MP 671 fere a autonomia das entidades esportivas, ao exigir que elas tenham mandatos fixos de quatro anos para seus dirigentes, com única possibilidade de recondução, além de prever a participação dos atletas nas eleições.

PA: Em 2014, a CBF teve uma arrecadação recorde, superior a 500 milhões de reais. Parece-me claro que só conseguiu esse resultado por explorar a marca do Brasil no exterior e graças às conquistas dos atletas em campo. Mas só as federações estaduais e os clubes têm direito a voto nas eleições da CBF, os jogadores não. Essas exigências que você mencionou constam na Lei Pelé. Foram incluídas em 2013 graças ao empenho da ONG Atletas pelo Brasil, que luta por mais democracia nas federações esportivas.

CC: Nos Estados Unidos, uma lei de 1978 estabelece que as federações esportivas devem reservar ao menos 20 % dos votos aos atletas.

PA: É o modelo que defendo e já apresentei várias vezes para a CBF. Recebi, como resposta, uma cara de vento. Não dizem nem sim nem não. E tudo fica como está. É curioso, porque não vejo ninguém dizendo que os EUA é um país interventor. Agora mesmo, na Espanha, o governo está puxando uma discussão sobre a partilha dos direitos de tevê entre os clubes. A Real Federação Espanhola de Futebol é contra, mas em nenhum momento vi a Fifa acusando o governo espanhol de ingerência. Por aqui, a CBF e os clubes tentam convencer a população disso para que não haja mudanças, para que o caos continue e eles possam se perpetuar no poder.

CC: O Bom Senso pretende entrar no debate dos direitos de transmissão?

PA: O debate é fundamental. Essa enorme diferença que existe entre os clubes precisa ser discutida. Mas esse tema deve ficar latente até a aprovação do Fair Play Financeiro. Quando os clubes só puderem gastar o que arrecadam, as injustiças do atual modelo ficarão mais evidentes. Hoje, temos clubes com arrecadação média que pagam por fora, dão calote, aumentam suas dívidas. Mas conseguem ter um bom elenco e competir em campo com os demais. Só que esse dopping financeiro leva ao endividamento, ao desrespeito dos contratos e salários dos jogadores.

CC: E a necessidade de reformular o calendário?

PA: Tivemos de bater cabeça nos últimos anos para aprender que tudo o que depende da CBF não avança, nem sequer é discutido. A pedra fundamental é o equilíbrio do poder. Somente quando os atletas tiverem direito a voto, nossas demandas serão ouvidas. Aí, sim, poderemos puxar a discussão do calendário, que sobrecarrega os atletas dos times maiores, mas também pune os demais. Se incluirmos os treinadores, massagistas, todo o pessoal de apoio, são mais de 20 mil desempregados a cada fim de campeonato estadual. Cerca de 85% dos clubes profissionais ficam inativos por mais de seis meses. Eles pulam de galho em galho para sobreviver. Disputam um estadual, depois tentam a sorte na série C ou D do Brasileirão. Mas a maioria não disputa competições o ano todo.

CC: O que explica uma média de público tão baixa nas competições nacionais? O Brasileirão perde até para liga de futebol dos EUA, país sem muita tradição no esporte.

PA: É a questão da quantidade versus qualidade. Temos muitos jogos, mas a qualidade deles é ruim. Os torcedores só se animam nas finais. As federações não estão preocupadas, pois arrecadam um porcentual da bilheteria de todas as partidas. Todo mundo sabe que o atual modelo dos campeonatos estaduais não funciona. Se pegar a média de público de todas essas competições, perdemos para a Tailândia, para o Chipre, países em que nem imaginávamos existir futebol. Mas nada muda. Nas eleições da CBF, as federações estaduais tem 27 votos. Os clubes têm 20. A direção da CBF jamais vai contrariar as entidades que a sustentam no poder.

CC: Como vencer o lobby da cartolagem no Congresso?

PA: Lutamos contra um gigante. No ano passado, descobrimos a força que a CBF e a bancada da bola tem nos bastidores. Só com muita mobilização e esclarecimento será possível conseguir algum avanço. Mas sempre há o risco dessa turma nos arrastar para aquela velha máxima: “Vamos mudar tudo para não mudar nada”.