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Política

Entrevista – Cláudio Couto

“Mesmo fragilizado, o governo ainda tem condições de tocar o barco”

por Rodrigo Martins publicado 17/08/2015 11h30, última modificação 17/08/2015 12h06
Para cientista político da FGV, o governo está enfraquecido e começa a reagir, mas manifestações ainda mostram força. Divisão da oposição é obstáculo para impeachment
Wanezza Soares
Cláudio Couto

A oposição ainda não definiu se quer o impeachment, a renúncia de Dilma ou a antecipação das eleições, observa Cláudio Couto

As manifestações de 16 de agosto reuniram menos pessoas do que em março. Nem por isso o cientista político Cláudio Gonçalves Couto, da Fundação Getúlio Vargas, deixa de reconhecer a força dos grupos que saíram às ruas contra o governo Dilma Rousseff. “É um paradoxo criado pelo sucesso do primeiro protesto. A manifestação de março foi tão grande que qualquer coisa que viesse depois muito provavelmente seria menor”, diz. Ainda assim, ele avalia não haver condições jurídicas e políticas para a abertura de um processo de impeachment. Ao menos por enquanto. Confira, a seguir, a entrevista concedida a CartaCapital.

CartaCapital: Desta vez, o PSDB, principal partido da oposição, ajudou a convocar os protestos. Aécio Neves e José Serra participaram dos atos em Belo Horizonte e São Paulo, respectivamente. Mas a mobilização, embora muito expressiva, parece menor do que a de março.
Cláudio Gonçalves Couto: É um paradoxo criado pelo sucesso do primeiro protesto. A manifestação de março foi tão grande que qualquer coisa que viesse depois muito provavelmente seria menor. Mas não podemos cair na ilusão de que o ímpeto para protestar está menor. É só uma questão de contraste. Se me permite uma analogia com o futebol, é como se um time vencesse o primeiro jogo do campeonato com uma goleada de 5 a 0, e depois continuasse a vencer as demais partidas, mas por um placar menor, 2 a 0 ou 1 a 0. Muita gente poderia dizer que o rendimento caiu, mas a equipe pode sair campeã invicta. Percebe? Não dá para menosprezar o número de pessoas que saiu às ruas.

CC: De fato, a situação do governo Dilma Rousseff não é nada confortável. Diferentes pesquisas indicam uma reprovação superior a 70%, e cerca de dois terços seriam simpáticos à proposta de impeachment. Como é possível reagir diante desse cenário de insatisfação tão evidenciado?
CGC: A saída para o governo é continuar trabalhando, ter paciência e descentralizar as decisões, delegar funções a quem realmente pode manejar melhor a situação. Refiro-me, aqui, a duas questões centrais. A política econômica da gestão anterior é uma política fracassada. Quando a presidente delega ao ministro Joaquim Levy a tarefa de formular uma nova política econômica, capaz de ter maior respaldo do mercado, de levar os empresários a retomar os investimentos, que evite o colapso das contas públicas, ela abre mão do que acredita, mas não deu certo, para tentar salvar a economia.

A segunda abdicação se deu na articulação política. Foram tantas trapalhadas nas relações com o Congresso que a governabilidade ruiu. Antes de confiar essa tarefa ao ministro Aloizio Mercadante, que foi muito inábil, Dilma apostou em Ideli Salvatti, em Gleisi Hoffmann, no Luiz Sérgio, mas a nenhum deles ela deu autoridade de fato para selar acordos, sem antes conferir tudo o que foi negociado. Aí fica complicado travar qualquer tipo de negociação.

CC: Diante desse fracasso, ela confiou a articulação política ao vice Michel Temer, presidente nacional do PMDB.
CGC: Sim, ela teve abdicar de todo esse controle que tinha para tentar obter algum sucesso com o Temer. O vice-presidente hoje pilota a articulação política porque o grupo mais próximo a Dilma era incapaz de fazê-lo. Acredito que, também nisso, a presidente está correta, pois era a única alternativa que lhe restava. A articulação com senador Renan Calheiros, para brecar a pauta do homem-bomba da Câmara, o deputado Eduardo Cunha (risos), é indispensável para uma lenta recuperação. Tínhamos um governo nocauteado, que começa a esboçar uma reação. Evidentemente, ainda corre o risco de passar mais três anos fragilizado. Mesmo assim, tem condições de tocar o barco para frente.

CC: As manifestações voltaram a dar muito destaque à bandeira anticorrupção, mas com um foco específico: a corrupção do governo petista. Eduardo Cunha e outros caciques do PMDB investigados pela Lava Jato quase não foram lembrados. Em alguns casos, chegaram até a receber mensagens de apoio. O que explica essa indignação seletiva?
CGC: No fim das contas, a maior parte das pessoas faz julgamentos morais sobre os outros de acordo com as suas preferências. Então, a corrupção dos meus desafetos políticos é grave. A corrupção dos meus preferidos é aceitável. Isso, de alguma maneira, os diferentes grupos políticos fazem. Essa intolerância contra a corrupção do PT tem, como contraparte, a tolerância que esses mesmos grupos tinham em relação ao Maluf ou a certos governos tucanos. Ao abraçar Cunha como aliado, esses grupos partem daquela velha premissa: “O inimigo do meu inimigo é meu amigo”. A bandeira anticorrupção, portanto, passa a ter importância secundária.

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CC: Após a sinalização de um acordo com o presidente do Senado, Renan Calheiros, em torno da chamada “Agenda Brasil”, e dos protestos de hoje, o movimento pró-impeachment ganha ou perde força?
CGC: Eu acho que o movimento perde força. O impeachment depende de uma série de fatores combinados. Um deles é a existência de uma razão jurídica forte. Parece-me não haver ainda uma razão jurídica suficiente para colocar a presidente contra a parede. Não há nada que a vincule diretamente aos problemas encontrados na Petrobras, não há nenhuma arma fumegante em relação às contas de campanha, nenhum indício de benefício pessoal da presidente de algum esquema ilícito.

E a questão das “pedaladas fiscais”, que me parece o aspecto mais forte do ponto de vista jurídico, carece de um novo entendimento do Tribunal de Contas da União. Aparentemente, o TCU aprovou em governos anteriores as mesmas práticas que hoje estão sendo questionadas. Então, se as pedaladas fiscais já eram praticadas antes, com a anuência do TCU, os ministros da corte não podem julgá-las irregulares retroativamente. Esse é um argumento levantado pelo governo que me parece bastante plausível.

CC: E do ponto de vista político?
CGC: Se a presidente reconstruir a ponte com ao menos uma das Casas Legislativas, por meio dessa articulação com o senador Renan Calheiros, ela fica mais protegida. Quem realmente vem colocando Dilma contra a parede é o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Se, nos desdobramentos da Operação Lava Jato, surgir coisas mais robustas contra ele, Cunha é neutralizado. Portanto, as condições políticas para o impeachment são mais frágeis do que as existentes algumas semanas atrás. Mas nada impede, evidentemente, uma mudança no cenário.

CC: Basta o TCU jogar lenha na fogueira em relação às pedaladas fiscais ou a Lava Jato trazer novidades capazes de dinamitar essas articulações...
CGC: Ou mesmo se o governo voltar a fazer alguma trapalhada na articulação política. Dilma não precisava, por exemplo, de um aliado como aquele dirigente da CUT, que declarou estar disposto a “pegar em armas” para defender a presidente, durante um ato público, em prédio oficial. Parece até um infiltrado disposto a sacanear, pois é inconcebível um aliado, diante do atual cenário, dar uma declaração tão infeliz. Idiotices como essa só contribuem para avinagrar o caldo. Por outro lado, no PSDB ninguém se entende. Há setores que apoiam o impeachment, outros falam em exigir a renúncia de Dilma, tem até essa conversa maluca de antecipação de eleições. Como a própria oposição está dividida, fica cada vez mais complicado falar em impeachment.