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Política

Operação Lava Jato

A vez do operador da Lava Jato

por Fabio Serapião — publicado 02/05/2015 05h42
Primo do ex-ministro Nelson Jobim, Atan Barbosa é alvo da força-tarefa
Lava Jato

Apreensão. A PF encontrou contratos entre as consultorias de Barbosa e empresas fornecedoras da Petrobras

Ao condenar o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, na quarta-feira 22, o juiz Sergio Moro encerrou o processo que deu origem à investigação do esquema de fraudes a licitações na maior empresa brasileira. Instaurado para julgar os desvios na Refinaria Abreu e Lima, o procedimento teve origem na primeira fase da Lava Jato e propiciou o surgimento de todas as frentes de apuração, cujo resultado foi a descoberta de um cartel de empreiteiras estruturado para corromper agentes públicos e garantir benefícios nos certames bilionários da estatal.

A força-tarefa instalada em Curitiba continua a seguir o dinheiro e mira os operadores ligados às empreiteiras para chegar à totalidade de contratos, cuja disputa foi fraudada pela organização criminosa. Nesse caminho, os investigadores se concentram na análise dos documentos apreendidos na fase My Way. Realizada em 5 de fevereiro, a operação realizou buscas e apreensões na residência de 11 empresários apontadas pelo ex-gerente de Engenharia Pedro Barusco como operadores de propina das construtoras. 

Além de João Vaccari Neto, indicado por Barusco como operador do Partido dos Trabalhadores, foram alvo da My Way: Mário Goes, Shinko Nakandakari, Bernardo Freiburghaus, Zwi Zcorniky, Atan Barbosa, Guilherme Esteves de Jesus, Milton Pascovich, Luis Eduardo Campos Barbosa da Silva, Augusto Amorim Costa e Cesar Roberto Santos Oliveira. Nakandakari assinou acordo de delação premiada e confirmou ser o responsável por distribuir a propina da Galvão Engenharia. Outros três, Vaccari, Mário Goes e Guilherme Esteves, foram presos e aguardam na carceragem da PF pelo desenrolar dos inquéritos. 

Para os investigadores, a movimentação financeira dos alvos da My Way devem revelar mais obras cuja licitação possa ter sido fraudada pelo cartel de empreiteiras. Um dos operadores, Atan Barbosa, chama atenção dos procuradores e delegados. Primo do ex-ministro do STF Nelson Jobim, Barbosa é ex-funcionário da Petrobras e em sua residência foi apreendida farta documentação relacionada a obras milionárias na estatal, empresas sediadas em paraísos fiscais e e-mail com citações a ex-funcionários da estatal.

Entre outros fatos interessa aos investigadores esclarecer a relação de Barbosa com ao menos sete empresas, algumas sediadas em paraísos fiscais. Estão na mira a Sales Consultant, a Heatherley Business, a Civic Corporation, a Excon Engenharia, a Alamo Participações, a Valmont Corporate Ltd. e a Larus Consultoria Empresarial. Os investigadores desconfiam que Barbosa utilizava consultorias fictícias para receber vultosos valores de fornecedores e parceiros da Petrobras em negócios no exterior. É o caso da compra pela Petrobras, em 2006, da distribuidora de gás de Montevidéu, capital do Uruguai, a Gaseba Uruguay. Nos documentos de Barbosa, foram catalogados vários contratos, e-mails e cobranças detalhadas do serviço prestado pela Heatherley Business à Gaz de France, empresa detentora, à época, de 51% das ações da Gaseba. Para os investigadores, Barbosa é o proprietário da Heatherley, sediada em Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. Em sua delação, Barusco afirmou que Barbosa utilizava a Heatherley para repassar os valores oriundos da propina em contratos da Petrobras com a Iesa Oléo e Gás. Em sua conta, disse o ex-gerente de Engenharia, Barbosa depositava mensalmente ao menos 29 mil dólares. 

A PF encontrou ainda duas notas fiscais emitidas pela Larus Consultoria em nome da Iesa, que, somadas, alcançam 1,1 milhão de reais. Para a força-tarefa, os comprovantes materializam o crime denunciado por Barusco. Outro contato da Larus que causa estranheza é o firmado com o consórcio Lummus Andromeda. Em sociedade com a MPE Montagens, tida como integrante do cartel, o consórcio realizou obras de montagem da unidade de polietileno do Polo Químico de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A Petrobras tem participação na RioPol, à época responsável pela contratação do consórcio. Somente uma das faturas da Larus, em nome da Lummus, apreendida pela Lava Jato demonstra o pagamento de 1,9 milhão de
reais ao primo de Jobim.

Além dos acordos com empresas que mantiveram contratos no Brasil e no exterior com a Petrobras, a PF apreendeu na casa de Barbosa uma série de e-mails nos quais ficam evidentes as negociações entre o operador e a Diretoria Internacional da estatal. Em um deles, datado de 2006, Barbosa é informado por executivos de empresas estrangeiras sobre um encontro com Nestor Cerveró, preso em Curitiba e apontado como nome do PMDB na petroquímica. Outras conversas expostas em documentos apreendidos citam negócios no Panamá, na Argélia, na Arábia Saudita e no Iraque. 

Antes de se tornar alvo da Lava Jato, Barbosa chegou a ser funcionário da Petrobras durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Entre os documentos apreendidos, uma carta de 1996, demonstra seu poder. Nela o então presidente da estatal, Joel Rennó, indica Barbosa e sua esposa, Heloísa, para uma vaga no Gávea Golf, exclusivo clube carioca. Nesse cenário, com Barbosa sendo primo do ex-ministro da Justiça de FHC e da Defesa nos governos Lula e Dilma, investigar seus negócios ajudaria a força-tarefa a comprovar que, como disse Barusco, os desvios na Petrobras começaram muito antes de o PT chegar ao poder.