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Política

Entrevista - Amaury Portugal

“PF está despreparada para a Copa do Mundo”

por Fabio Serapião — publicado 10/02/2014 13h08, última modificação 11/02/2014 06h24
O planejamento para o mundial não incluiu a Polícia Federal, diz o presidente do sindicato dos delegados de SP, Amaury Portugal. No blog do Serapião
Agência Brasil
Copa das Confederações

Manifestação durante a Copa das Confederações, em 2012

Para o presidente do Sindicato dos Delegados da Polícia Federal de São Paulo e vice-presidente da Federação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, Amaury Portugal, a PF foi deixada de lado do planejamento da Copa do Mundo e tem sua capacidade de ação reduzida pela falta de investimentos do governo federal.

Em entrevista ao Blog do Serapião, Portugal aponta também as principais dificuldades enfrentadas pela Polícia Federal e afirma que sem investimentos em tecnologia, capacitação profissional e renovação de armamentos a PF não conseguirá combater a crime organizado.

Blog do Serapião: Qual o balanço que o Sindicato faz do ano passado?

Amaury Portugal: Em 2013 não houve nada de excepcional, a PF, como tem acontecido nos últimos anos, tem perdido muitas verbas, ou não tem recebido muitas verbas. A questão de recebimento de material, que era expressiva no passado, há sete ou seis anos, diminuiu muito. Aeronaves, viaturas, armamentos, não houve renovação de armamento. A PF, apenas com os recursos que ela tem constitucionalmente, procurou dinamizar esses setores, mas com muita dificuldade. Sobre as operações, elas se desenvolvem, mas nada de excepcional. Em um país como o nosso, com uma fronteira extensa como é, nesse cenário dificílimo para segurança pública, com o crime organizado querendo concorrer com as forças regulares. A PF tem passado algumas dificuldades.

BS: Isso vem de quando, essa queda no repasse de verbas para a PF?

AP: Desde o fim do governo Lula. Foram sete anos muito bons para a PF, ela se reestruturou, ela ganhou outro corpo, recebeu armamentos moderníssimos, recebeu viaturas. No último ano do governo dele começou a cair e depois continuou sempre em queda. Houve tempos que estava critica a situação, mas agora estamos mantendo a média. Nós mantemos uma estreita relação com a administração, inclusive com o ministro José Eduardo Cardozo. Mas existe a dificuldade do recebimento de valores.

BS: Qual a avaliação que o sindicato faz dos motivos dessa queda de repasses, vê motivos econômicos ou uma decisão política?

AP: Acho que são as duas coisas. Acho que é uma conjuntura econômica, na prática não vejo uma economia forte. Isso pesou muito, para todos os setores, inclusive segurança pública. E não falo que isso seja apenas no âmbito federal, no estado também a coisa está complicado, principalmente aqui em São Paulo.

BS: Nessa situação, a Polícia Federal tem condições de combater um crime organizado cada vez mais bem estruturado?

AP: Hoje, a Polícia Federal precisa ser moderna, ela tem que ter meios tecnológicos modernos. Escuta ambiental, interceptações, drones (aeronaves não tripuladas), que aqui conhecemos como VANTs. Por exemplo, nós fizemos um estudo mostrando que para vigiar toda a extensão de nossas fronteiras precisávamos de cerca quinze VANTs, temos apenas um, que nem sabemos se ele é utilizado. O principal desafio desse ano é superar essa defasagem de investimentos para que a Polícia Federal esteja preparada para combater o crime organizado.

BS: Falta apenas dinheiro ou também liberdade?

AP: Na visão do sindicato, dificilmente um policial federal se deixa pressionar pelo poder público. Como dizia o ex-ministro Marcio Thomaz Bastos, a Polícia Federal é um órgão do Estado, ela tem que ter autonomia para trabalhar. Mas sabemos que entre gabinetes essa autonomia pode desaparecer. Mas temos tido avanços no sentido de coibir essa interferência, como a lei 12.830 sancionada pela presidenta Dilma, que dá total autonomia para os delegados. Com ela, fica impossível retirar do delegado qualquer investigação ou inquérito que ele esteja presidindo. Estamos mais seguros nesse sentido. Mas o problema é a operacionalidade e nisso estamos decaindo muito.

BS: Essa falta de dinheiro explica a diminuição no número de grandes operações, como as registradas nos primeiros anos do governo Lula?

AP: O principal motivo é falta de recurso, que caiu desde o último ano do governo Lula e continua a cair com a presidente Dilma. O outro é que você não sente por parte do poder público a vontade necessária para que a Polícia Federal seja atuante como era há alguns anos.

BS: Qual é o resultado dessa falta de investimento?

AP: Eu participei recentemente de uma reunião com representantes das polícias de outros países. Nesse encontro, discutimos o avanço da criminalidade organizada. A previsão deles é que, até 2025, o crime organizado estará em paridade de forças com o poder do Estado. Esse é o resultado, sem investimento corremos o risco de ficar a mercê do crime. Se a coisa continuar a ser dirigida dessa forma, eu não sou otimista. Não se pode ficar nesse jogo de empurra-empurra entre governo federal e estadual. Outra coisa, não podemos ter no comando dos órgãos de seguranças pessoas sem experiência. Como é o caso do estado de São Paulo, o secretário é um promotor. O caso da Secretária Nacional de Segurança Pública, que também é presidida por alguém sem a experiência necessária.

BS: Neste ano o Brasil recebe a Copa do Mundo. O clima é um pouco tenso e temos a possibilidade de grandes manifestações. A Polícia Federal está preparada?

AP: Não, a Polícia Federal está completamente despreparada, a Polícia Federal foi alijada do planejamento da parte de segurança pública desses grandes eventos. Isso ficou a cargo do Ministério da Justiça, exército e outros setores do governo. A polícia Federal tinha seus especialistas, mas houve choque na hora da definição de como seria a organização desses eventos. A Polícia Federal foi deixada de lado no momento de pensar como seria a organização desses grandes eventos.