Cultura

Refô

Uma linda noite

por Marcio Alemão publicado 12/07/2014 09h38
Ocasiões especiais podem ser perigosamente banais. No La Vistamar, isso é impossível
Nicolas Fleury/Flickr
Hotel Hermitage

O Hotel Hermitage, que abriga o La Vistamar

Durante a viagem à Riviera Francesa, minha filha iria completar 25 anos. Estaríamos em Mônaco. Pas mal para uma comemoração.

Primeira ideia: o Luiz XV, de Alain Ducasse. Um três estrelas Michelin respeitado, cultuado e, segundo meu amigo Nicolas, que cuidava da produção do filme (estávamos lá para filmar um comercial), hoje em dia quase uma filial de uma filial de uma filial. Ainda assim um grande restaurante, me garantiu. Grande demais para o meu bolso e pomposo demais para uma criança de 25 anos.

Não sendo amigo de Galvão Bueno e tampouco de colunistas bem mais viajados e informados que eu, não consegui descolar nenhum cantinho onde servem uma comida de sonhos por um preço ridículo. Pensas que tenho atalhos, dicas especiais? Nada disso. As ferramentas acessíveis a todos os mortais alfabetizados.

A busca me levou ao La Vistamar, no Hotel Hermitage, que não é pouca coisa, não. É o segundo mais caro do principado e realmente lindão. O restaurante, há muitos anos, segura uma estrela Michelin.

Mandei um e-mail com antecedência, pedindo, se possível, uma boa mesa. Às 21 horas do dia 18 estávamos lá, bem vestidos, bem felizes, bem ansiosos. Lembrou-se a hostess de minha solicitação e disse: consegui uma linda mesa. A melhor, sem dúvida, na beira do terraço, de peito para o porto, para a baía. Clássicos violeta, azuis e mais de 50 tons de outras cores no céu do principado e eu pergunto: pode haver situação mais civilizada do que estar em pleno verão, confortável em um blazer, vendo o dia terminar com uma taça de Ruinart Rosé excepcional?

E veio a noite. Em algum momento me passou pela cabeça que, se todos aqueles minitransatlânticos ali aportados fossem vendidos, a fome do mundo, por um bom tempo deixaria de existir. Foi um brevíssimo momento. Prometi a mim mesmo que voltaria a pensar no assunto.

Chegaram minipastéis de massa folhada de rara delicadeza. E, na sequência, mais seis pratos que compunham o Dîner Gourmand: Autour du Homard et des Légumes de Printemps. Dois dos melhores brancos da vida eu tomei durante o jantar: Bordeaux Pessac-Léognan Château Laville-Haut-Brion, 2000.

Ninguém precisa entender de vinho para colocar na boca um monstro como esse branco para se admirar: “O que é isso?”  Não se dá um gole sem uma pausa. E quase o mesmo eu diria do Bourgogne Meursault Charmes 1er Cru 2005 Domaine des Comtes Lafon. Com uma única diferença. Eu estou mais acostumado aos brancos da Borgonha. Com a sobremesa, Sauternes Chateau Lafaurie-Peyraguey 1990.

Ainda é possível fumar em locais abertos, para deleite dos amigos fumantes e de minha filha. É coisa que sinto saudades. Falta, não mais. Apenas saudades de fazer uma pausa mais longa e harmonizar a fumaça de um bom tabaco com o tabaco do vinho e a lembrança do que passou pela boca.

Como crítico escreverei em outra oportunidade sobre os seis pratos do menu. Como pai eu digo que sou grato a todas as entidades, físicas, espirituais e profissionais que me permitiram oferecer à minha filha uma noite dessas. Saibam que continuo fugindo que nem o diabo da cruz do vazio que a banalização de ocasiões especiais produz. Ah, sim! Curtimos até o banheiro do hotel que serve ao restaurante.