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Sociedade

Refogado

Sabine Hueck em 3x4

por Marcio Alemão publicado 26/10/2014 06h16
Uma brasileira traduz a renovação da gastronomia na Alemanha
Divulgação
Sabine Hueck

Sabine Hueck: no belo livro há novos restaurantes e velhas receitas

Sabine é uma paulistana que vive em Berlim. Berlim, onde seu bisavô era proprietário do planetário local e amigo do Albert, o Einstein. Seu avô, o professor e doutor Kurt Hueck, saiu de Berlim depois da guerra e foi para as Américas, onde “desenhou” o nosso mapa botânico. Ao longo desse caminho, os filhos iam criando raízes. O pai de Sabine escolheu o Brasil.

E Sabine fascinou-se com o talento da avó – sempre as avós! –para fazer bolos. Decidiu que seria cozinheira e com pouca idade ganhou o mundo. Mas entrar numa cozinha era coisa de menino. A barra era pesada. Sabine optou pela hotelaria. Até que um dia o Muro caiu e isso mudou toda a gastronomia alemã.

Como assim? O.k. Vou mais devagar e tento reproduzir com minhas palavras o que me disse Sabine, que acabou de lançar um livro, um belíssimo livro: Guten AppetitA nova cozinha alemã.

Sim, a cozinha alemã começou a mudar quando a Queda do Muro passou a aproximar as pessoas. Não se faz boa comida quando não se sente prazer em estar ao redor de uma mesa, compartilhando do pão ao coração. Hoje, a Alemanha é o segundo país em número de estrelas Michelin. E essa mudança aconteceu muito rapidamente.

A impressão é de que trataram de ir atrás do tempo perdido e quem sabe bater algum recorde. E durante essa corrida, Sabine levou para lá o seu conhecimento da cozinha verde-amarela, compactuou com os muitos vietnamitas que vivem e cozinham em Berlim, vasculhou todas as memórias de sua infância e adolescência e se fez conhecer na capital alemã como uma cozinheira atrevida que funde culturas e sabores. Em breve estará inaugurando uma escola/restaurante em uma área de 70 metros quadrados.

Setenta metros quadrados? A resposta harmonizou com os motivos que levaram a cozinha alemã a mudar: eles gostam de ficar próximos. As aulas são, também, um pretexto para conhecer pessoas e se relacionarem a partir de um interesse comum.

E nos restaurantes que o livro menciona, que os críticos enaltecem? Uma supervalorização das matérias-primas regionais, dos ingredientes nativos. A velha e boa estratégia de fazer o diabo para que o sabor cresça. E minha maior supressa: alho é raro e ervas, poucas as utilizadas. A tal valorização do que existe no quintal chega a ser... germânica. Se não existe, não se usa. E o que existe se aproveita, ainda que poucos pudessem recomendar. O resultado, em alguns locais, tem sido extraordinário.

Pratos clássicos da velha cozinha alemã foram revistos. Não muitos, posto que Sabine também admite que não havia uma cultura gastronômica. Uma nova história está começando a ser contada ao redor das novas mesas alemãs. E não só nas mesas, mas também nas ruas.

Comer bem está na moda por lá. A economia vive um ótimo momento e isso ajuda demais. Ajuda no astral e ajuda na disposição para sair e gastar em comida, o que seria impensável há 20 anos.

Também na moda, a caça. A caça seguida de uma refeição com os troféus. E isso, admito, invejo sobremaneira. Sabine em seu livro mapeou toda a gastronomia alemã por regiões; de certa forma e, guardando as tais proporções, um trabalho semelhante ao de seu avô com a nossa botânica.

As receitas tiveram de sofrer algumas modificações por causa dos ingredientes que aqui não se encontram. E o que mais me chamou atenção, digo agora: as apresentações. Cada vez mais esse quesito ganha importância. Comer com os olhos faz bem, não engorda e alimenta os sentidos. E o livro de Sabine também faz isso de maneira virtuosa.

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