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Sociedade

Refogado

Rosa Moraes em 3x4

por Marcio Alemão publicado 07/05/2014 15h52
Ela aposta no talento brasileiro no mundo das panelas. E na Laureate vai revelando o futuro

Rosa, o marido e os filhos mudaram-se para os Estados Unidos no fim da década de 1980. O marido, Filinto, começava um novo negócio em terras norte-americanas. Filhos pequenos, não mínimos, mas ainda pequenos. Babás? Não. Isso era e é luxo de Terceiro Mundo.

Não saberia dizer se Filinto, que tive o prazer de conhecer há 30 anos, teria se inspirado na canção de Wilson Batista, Emília, ao se casar com Rosa: Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar/Que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar. Que ambos me perdoem a brincadeira, mas o fato é que Rosa decidiu se dedicar ao lar, à família.

A primeira parada foi em Los Angeles. E antes que me esqueça, saibam que Rosa tem como sobrenome Moraes. E vou além. Rosa Moraes tem hoje, como responsabilidade, a coordenação das áreas de hospitalidade e gastronomia da Laureate, além de cuidar da comunicação e RP. Laureate é um dos maiores grupos de educação do mundo. Aqui no Brasil são 12 instituições.

Vamos com calma. Estávamos em Los Angeles. Uma das opções de Rosa talvez fosse passar as tardes em Rodeo Drive. Preferiu, todavia, dedicar-se a assuntos não imbecilizantes e descobriu que no supermercado perto de sua casa um curso de culinária iria acontecer. Apontou lápis, comprou um caderno novo e no primeiro dia de aula lá estava ela. Na frente de quem? Ninguém menos que Marcela Hazan, um dos nomes mais importantes da culinária italiana. No Brasil a Companhia das Letras tem um de seus livros publicados: La Cucina.

Marcela não foi o marco zero de Rosa, cuja família sempre cultivou o hábito de se reunir ao redor da mesa. Mas deve ter sido Marcela que lhe mostrou a ponta de um iceberg de possibilidades.

Mergulhou em livros, arriscou ideias, aprimorou sucessos até chegar a ser uma atração local. E esse local não mais era a Califórnia. Estavam todos em Connecticut, e quando digo atração local quero dizer que vizinhos e amigos haviam eleito Rosa como a melhor chef da região.

Connecticut é uma palavra pronunciada com sotaque nostálgico. Não me arrisco a tentar desvendar todo o encantamento que aquele tempo lhe permitiu viver.

De alguma maneira, porém, a Rosa Moraes que me mostrou as excepcionais “cozinhas de aula” da unidade da Laureate no Itaim parece ser a mesma que preparava as refeições para a família e amigos. A cada sala que entrávamos ela sorria com orgulho e sincera alegria. Todos ali pareciam seus filhos, seus amigos.

Mais um salto para trás para que se entenda o crescente da história: Dias Lopes, na época editor da Revista Gula, convida Rosa para ser a correspondente da revista naquelas bandas do norte. Me disse ela: “Nas primeiras matérias, duas ou três linhas eram minhas”. Não demorou para ser dona das páginas e para representar a revista em importantes eventos da alta gastronomia. Falei do sorriso ao entrar na cozinha de aula. É o mesmo que vejo em seu rosto quando me conta da noite que estava com Bocuse, Ferran Adrià, Charlie Trotter, Arzak...

Ela certamente entendeu o que é fundamental em seu trabalho: não importa o lado da mesa, todos devem estar sempre felizes e preparados para deixar o outro feliz. E mais: estamos sempre aprendendo.

O novo a fascina. Quase senti entusiasmo maior que o descrito no encontro estelar de chefs quando me contou sobre as unidades em seis estados diferentes que estão revelando cozinheiros de enorme potencial.

Acredita muito no talento brasileiro no mundo das panelas e mostra enorme aflição ao falar sobre a má qualidade dos serviços. A distância entre a nossa capacidade de cozinhar e a de atender bem está se tornando abissal.

Faltou dizer que foi em 1998 que Angela Freitas a convidou para comandar a escola de gastronomia que ainda seria aberta: Anhembi Morumbi. Rosa achou que Angela estava maluca, mas o tempo lhe deu razão. Connecticut não ficou só no passado. Em uma de suas paradas em São Paulo ela ouve o pedido de um fã: “Mãe, você cozinha pra mim, hoje?”

E isso ela me conta, emocionada.

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