Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog do Marcio Alemão / Eu quero mocotó

Sociedade

Refogado

Eu quero mocotó

por Marcio Alemão publicado 09/06/2014 09h03
A temperatura convida: saborosas cartilagens e tudo o que estiver à mão

Aproveitei a temperatura civilizada do fim de semana e preparei um mocotó. Contei com amigos apreciadores, o que não é muito comum (amigos e apreciadores de mocotó). Para quem não tem certeza, o mocotó se prepara com a pata do boi, ou com a mão de vaca.

Francamente não sei dizer como escolher a melhor pata. Ficam penduradas, com aparência muito semelhante. O que as diferencia é o tamanho. Apalpar, cheirar, nada disso vai certificar sua escolha. Confie no feirante ou no açougueiro. Aquelas facas assustadoras fazem a peça em rodelas imperfeitas.

Chegando em casa, lave, em cada parte esfregue limão e depois deixe de molho em água com suco de limão. Se preferir, vinagre também se usa. Eu sempre acho que o vinagre deixa marcas indeléveis.

Duas horas depois, mais uma boa lavada em tudo e esse tudo vai para uma panela de pressão. E nessa panela, meus caros e caras, esqueça a expressão mão de vaca e saiba que o excesso de ideias razoáveis é permitido. Salsão, cenoura, cebola, alho-porró, alho, rama de erva-doce, louro, cheiro-verde e cravo, este com muita parcimônia. Cobre-se com água e mais uns dois copos de bom vinho tinto. Uma hora de chiadeira, no mínimo.

Ao abrir, as cartilagens devem estar se soltando dos ossos. Esses últimos vão para o lixo ou para um cachorrão sortudo e de bons dentes. Separe o caldo das carnes e mande para a geladeira. Do caldo, horas depois ou no dia seguinte, retira-se a pouca gordura. E a partir desse momento, como diria Ivete Sangalo, vai rolar a festa.

Em uma grande frigideira refogam-se mais alhos, cebolas pequenas, uma boa linguiça calabresa picada e um bom chouriço português (escolha bem, não caia nesses ordinários de grandes indústrias nacionais. São lixo puro e vão, com absoluta certeza, arruinar seu prato). As cartilagens, picadas, devem se juntar ao refogado já pegado. Dedo-de-moça sem semente, pimentão sem pele, talos de coentro ­ poucos, picadinhos. Tomates frescos, cinco, maduros mas firmes, também em pequenos pedaços. Tudo frigindo, sabores e sucos e gorduras num intercâmbio riquíssimo.

Hora de jogar a gelatina do caldo e apurar. Prove o sal. Uma boa mão de cheiro verde no final e azeitonas pretas sem caroço, picadas. Com arroz, com farinha ou com feijão-branco. Antes disso, recomendo fortemente: coe um pouco de caldo, acrescente boa cachaça, gotas de pimenta e sua fé no mundo será renovada. E, ao final do repasto, sugiro um trenzinho com o clássico de Erlon Chaves, com o swing do Trio Mocotó (https://www.youtube.com/watch?v=A_dkX-jfkGA): Eu quero mocotó, eu quero mocotó...

registrado em: