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Internacional

Opinião

China e América Latina: Parceria Sul-Sul?

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 22/01/2015 10h13
Pequim tem uma política definida para o continente, mas os países latinos reagem de maneira fragmentada e pouco propositiva
Prensa Miraflores
Celac

Xi Jinping, o presidente da China, em discurso durante a reunião da Celac no Grande Palácio do Povo, em Pequim

Por Alexandre de Freitas Barbosa*

A realização do Fórum China-Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe) recebeu as reportagens de praxe da grande imprensa brasileira. Foi a primeira viagem exterior do novo chanceler brasileiro. Equador e Venezuela enviaram os seus presidentes “de pires na mão” num contexto de queda dos preços do petróleo. A China, ao ocupar o “quintal” dos Estados Unidos, explica a reaproximação de Obama com Cuba. E assim por diante.

Mas o encontro ocorrido na primeira semana de janeiro é apenas uma foto na parede. Precisamos acompanhar o longa-metragem que desemboca nas cenas do presidente Xi Jinping abrindo o Fórum e do primeiro-ministro Li Kegiang recebendo amistosamente os hermanos latino-americanos.

O ano de 1994 funciona como uma espécie de ponto de partida. São criados o China Development Bank (CDB) e o China Ex-Im Bank, que passam a servir de suporte às linhas mestras dos planos quinquenais. Em 1998, inicia-se a política chinesa do Going Global, de estímulo à internacionalização das empresas estatais, agindo em consonância com os bancos de desenvolvimento e apoio ao comércio exterior. Em 2000, é lançado o Fórum China-África, quando no Grande Salão do Povo – tão conhecido do camarada Mao – se estende o tapete vermelho para uma procissão de líderes africanos (48 ao total). Em 2004, Hu Jintao faz o seu périplo sul-americano, enquanto os países da região disputam entre si os polpudos investimentos chineses. Em 2008, o governo chinês divulga um documento sobre “A Política da China para a América Latina e o Caribe” na maré montante do boom das commodities e da ampliação do comércio entre as duas regiões econômicas.

Em 2012, Wen Jiabao, então primeiro-ministro chinês, faz um discurso histórico na Cepal. Depois de mencionar a “civilização latino-americana, fruto do desenvolvimento histórico e do intercâmbio com as diversas civilizações do mundo”, ele tece as linhas da diplomacia da ascensão pacífica chinesa: parceria econômica, tecnológica e cultural com “outras” regiões em desenvolvimento; e ação integrada com o objetivo de criação de uma “ordem multipolar” no âmbito geopolítico. De concreto, oferece um Fundo de Cooperação China-ALC e disponibiliza créditos especiais do seu Banco de Desenvolvimento.

Agora é a vez do presidente Xi Jinping dar continuidade à agenda estruturada pela potência chinesa – um dos centros da nova economia-mundo capitalista – há pelo menos vinte anos. Aqui, política econômica e política externa se combinam numa estratégia geopolítica para atuar nos vários espaços do tabuleiro mundial.

Na reunião dos dias 8 e 9 de janeiro de 2015, é definido o Plano de Cooperação entre a China e a Celac para o período 2015-2019 e assinada a Declaração de Pequim. Para além das previsões alvissareiras de crescimento do comércio e dos investimentos chineses na América Latina, o governo de Pequim oferece 6 mil bolsas de estudos para os membros da Celac, convida mil líderes partidários para visitar a China e se compromete a organizar cursos de mandarim nas escolas fundamentais e de ensino médio da região.

No quesito investimentos, o foco é a infra-estrutura, onde a China tem desenvolvido “grande capacidade nas áreas de produção, tecnologia e equipamentos”. O objetivo é contribuir para o desenvolvimento da América Latina, “em vez de apenas promover fluxos comerciais de recursos naturais e de energia de um país para o outro”.

E o que dizer dos países latino-americanos? A impressão é a de que atuam como figurantes rendidos de um roteiro definido no outro lado do Pacífico. Ora, a Celac, inaugurada na Venezuela, em 2011, é rapidamente reconhecida pelo governo chinês. No discurso na Cepal, em 2012, é a única entidade da região mencionada. Três anos depois, o fórum – que congrega todos os países latino-americanos, inclusive Cuba e exclusive Honduras, e serve de contraponto à OEA – está criado. Cumpre o papel de estabelecer uma “parceria” com a América Latina, cujos detalhes são definidos no âmbito bilateral, ou seja, entre cada país individualmente e a China. Em poucas palavras, uma “cooperação pragmática”, segundo o jargão confuciano.

Em vez de assumir uma visão precipitada de que presenciamos uma nova forma de imperialismo, vale lembrar que – ao contrário dos Estados Unidos – a China não oferece um pacote fechado à América Latina. Assina tratado de livre-comércio com quem quer, como no caso de Chile, Peru e Costa Rica. Na Venezuela e no Equador, predomina a cooperação via loans-for-oil (empréstimos em troca de petróleo). No Brasil, a cooperação bilateral dá-se no âmbito da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Cooperação e Concertação (Cosban), havendo também os acordos firmados nos Fóruns dos Brics. No México, a relação é tensa, em virtude das medidas anti-dumping impostas pelo país às importações chinesas. E assim por diante.

Seria o caso de perguntar se esta fragmentação deve-se ao desejo da China de “dividir para reinar”, ou se não é o próprio espelho do processo de integração latino-americana, onde os países possuem diversos padrões de inserção externa num contexto de ausência de uma efetiva perspectiva integracionista?

Alguns dados sobre as relações econômicas entre a China e América Latina são reveladores. Entre 2001 e 2013, o comércio bilateral multiplicou-se por 22 vezes. Quando se observam os saldos comerciais por tipo de produto, ao longo do período, o resultado não dá margem para dúvidas: o saldo positivo latino-americano em commodities saltou de 2,3 bilhões de dólares para 62,6 bilhões de dólares, ao passo que o déficit com a China em bens industrializados alcançou 130,7 bilhões de dólares em 2013, contra – 7,5 bilhões de dólares em 2001. Em termos de investimentos externos diretos chineses, estes ainda são de pequena monta (em parte, porque os dados estão subestimados), mas vêm crescendo rapidamente, depois de 2010, nos setores de petróleo, energia, mineração, infra-estrutura e, inclusive, na indústria de transformação. O mais marcante, contudo, é o dado referente a empréstimos para o ano de 2010: os créditos chineses à região mostram-se superiores ao total das carteiras do Banco Mundial, BID e Eximbank dos Estados Unidos para os países latino-americanos.

Em síntese, a China já tem a sua política para a região e sabe muito bem o que quer e o que pode oferecer para a América Latina. Do outro lado, resta saber se a América Latina existe em termos geopolíticos e econômicos, ao ponto de saber o que quer e como negociar com a China. Isto porque tem respondido aos movimentos da diplomacia chinesa de maneira fragmentada – cada país possui (quando muito) uma agenda própria – e pouco propositiva.

Do ponto de vista brasileiro, a agenda com a China, para além da dimensão multilateral – o país foi elevado à condição de “parceiro estratégico global” pela potência asiática em 2012 – possui duas outras dimensões: a regional e a doméstica. Apesar de possuir um superávit comercial com a China, o Brasil tem sido deslocado nos mercados dos parceiros latino-americanos pelos produtos industrializados chineses, além de ver as suas cadeias produtivas encolhidas no mercado interno.

Tal como os chineses, precisamos combinar a política econômica com a política externa. Assinar acordos de livre-comércio com os países desenvolvidos – hoje na pauta inclusive do governo, por meio do novo ministério da Fazenda, dentre outros – é dar um tiro no pé. Significa asfixiar o mercado interno e perder o papel de potencial dínamo da integração latino-americana.

A política externa brasileira – estruturada pelo Itamaraty em diálogo com outros segmentos do governo e da sociedade civil – especialmente se não estiver subordinada à lógica da integração passiva, deve ser capaz de pensar a China como parceiro relevante nos fóruns multilaterais; sem descuidar dos desafios que a economia deste país, assim como o seu padrão de inserção externa, representam para nações com parque produtivo diversificado e tradição – revalorizada no período recente – de protagonismo regional e global.

*Alexandre de Freitas Barbosa é professor de História Econômica e de Economia Brasileira do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP). É Integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

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