Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog do Edgard / Vidas imigrantes

Política

Vidas imigrantes

por Edgard Catoira — publicado 14/11/2013 20h54, última modificação 15/11/2013 08h43
Famílias inteiras que buscavam dignidade de vida no Brasil alcançaram suas metas
Tiffini / Flickr / Creative Commons
Passaporte

Famílias inteiras que buscavam dignidade de vida no Brasil alcançaram suas metas

Sou filho de pai espanhol com mãe de tradicional família paulista.

Hoje estou me lembrando como eram as vidas dos imigrantes da primeira metade do século passado. Meu pai, que saiu de um convento de Santiago de Compostela, onde foi criado para se tornar o padre da família, teve que deixar sua terra no fim da década de 1920. Ajudado por um irmão que morava em Buenos Aires, acabou escolhendo São Paulo para tentar a vida. Além de teologia e latim, pouco sabia da vida. Talvez por isso mesmo, começou editando livros. Com sua pequena editora, prosperou. Casou-se com minha mãe, mesmo contra a vontade da família dela. Afinal, ele não era de qualquer casta brasileira. Era apenas um –  pejorativo – “espanholzinho”.

Com todas as dificuldades de um estrangeiro, não conseguiu manter sua editora, constantemente perseguida pela ditadura de Vargas. Já pai, com alguma vivência no país, ele partiu para o ramo imobiliário, setor em que obteve sucesso.

Nunca, porém, abandonou suas origens. Era comum, como faziam todos os imigrantes de sua época, buscar – e dar abrigo – a outros imigrantes que chegavam. Amigos, parentes, gente que vinha para o Brasil tentar a vida que a conturbada Europa pós guerra lhes negava.

Assim, íamos sempre ao porto de Santos – experiência  também vivida por minha mulher, Lu Catoira, descendente de imigrantes italianos, que buscavam sua gente no mesmo local.

Até meados dos anos 1950, nos acostumamos a ver famílias descendo dos navios por escadas da terceira classe. Todos saiam encasacados, carregando baús. Tristes, em bancos de madeira, esperavam a triagem num enorme galpão. Conosco ficavam os que nossas famílias iriam encaminhar para a nova vida. Foram muitos os que vimos nessas condições e que prosperaram no Brasil.

Algum tempo atrás estive em Santos e, num passeio turístico de bonde, passamos por esse galpão. Não senti nostalgia. A tristeza tomou conta de minha alma. Não quero mais voltar a esse atual ponto de turismo.

Nestes dias, dois fatos me remeteram a esses anos: o lançamento do livro “Marcelo Hicho por inteiro”, com muita pompa, no Copacabana Palace, e a posse do juiz Arthur Lachter, em Brasília.

Conheci Hicho há cerca de 20 anos, quando chegou da Argentina para trabalhar no Rio. Minha mulher era, então, editora de moda da revista Desfile. Na página 28 do livro, a descrição do jovem maquiador:

“A introdução no universo das celebridades foi feita pelas portas da extinta Editora Bloch. Lá, ele conheceu a jornalista e produtora de moda Lu Catoira e o jornalista e editor Roberto Barreira. Com eles, aprendeu muito e fez capas de algumas das revistas mais importantes da moda brasileira em meados da década de 90, como a Desfile e a Moda Moldes”.

Realmente, hoje, Hicho é disputado pela alta roda do Rio de Janeiro. Prova disso foi a noite de autógrafos, quando todas as beldades da cidade transitaram pelos salões do sofisticado “Copa”, onde Hicho dominou a noite, agora com olhar seguro de um profissional que venceu na vida.

Já o juiz Arthur, é neto de um grande amigo, morto em 1998 – Mendel Fishman, que conheci quando me mudei para Copacabana, em 1976. Mendel era um culto judeu romeno que, durante a guerra chegou a ser levado para um campo de concentração, de onde conseguiu fugir. Serviu o exército russo até a rendição da Alemanha. Só então reencontrou sua família, em Paris, de onde veio para o Brasil.

Ficamos amigos. O homem severo se esmerava em falar um português perfeito, que ele aprendeu lendo jornais. Sua filha Clarice, formada em letras, quando queria, conseguia irritá-lo profundamente corrigindo alguma frase dele. Mas tudo acabava em boas gargalhadas.

O homem sério, porém, não conseguia esconder sua sensibilidade, como no dia em que o levei no suntuoso Mosteiro de São Bento, que ele não conhecia. Chegou às lágrimas durante uma missa rezada em rito gregoriano. Também tentou me fazer participar das rezas judias pela morte da mulher de um amigo comum, rabino. Mendel sabia que eu não sou judeu mas quis me levar porque achava que minha presença, mais que as orações, confortaria o rabino.

Agora, com alegria, vejo seu neto como magistrado em Brasília. Esquecendo a luta do Arthur Lachter para chegar lá, prefiro homenagear seu avô. Arthur é o legado de mais um imigrante que construiu a sociedade brasileira.

Em tempo: com direito à cidadania de meu pai, que já passei para minha família, me orgulho de poder ser um “espanholzinho” do século XXI. Por ironia, de acordo com as leis na Espanha, meu passaporte tem como último sobrenome, o materno e tradicionalíssimo – brasileiro – Amaral.