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Política

Um Detran de doer

por Edgard Catoira — publicado 27/08/2013 13h45, última modificação 27/08/2013 15h19
Antes de licenciar, o Governo do Rio obriga a vistoria do carro

O Rio de Janeiro ainda obriga o proprietário de um carro a fazer vistoria paga em seu veículo todos os anos. Apesar de contestações judiciais que alegam que ela não faz parte do Código de Trânsito Brasileiro. Ou desnecessária, porque se houver fiscalização, nenhum motorista vai se arriscar a poluir acima dos níveis definidos – ou deixar de trocar uma lâmpada de farol queimada. Basta uma fiscalização competente, como acontece com a Lei Seca, muito respeitada no Rio.

Quem já teve que ir ao Detran da Rua Santa Luzia, no Centro do Rio, para a vistoria anual do carro ou para tirar algum documento, de saída se espanta com o mau gosto das instalações. Em estrutura metálica, o posto contrasta com dois belos edifícios: o Museu Histórico Nacional e a Santa Casa da Misericórdia.

A burocracia não surpreende. É a mesma do século passado. Pilhas de papéis pelos cantos, papel carbono e pessoas chamadas aos berros por funcionários com humor e fisionomia pouco amigáveis. Tudo isso numa sala de espera que mais lembra um posto de saúde. Pessoas aflitas ao imaginar que a sequência do atendimento pode ser ainda mais dolorosa.

Mas para os que se esquecem de anexar a cópia de algum documento, como foi meu caso, que não juntei a do comprovante da mesma residência que constava nos 15 documentos anteriores, e que precisam ser renovados todo ano, os funcionários apontam uma solução que é a cara da administração pública do Estado: uma camionete estacionada na esquina, que não passaria em nenhuma vistoria ou fiscalização, mas que tem uma máquina Xerox que resolve o “problema”.

Sabe-se que aquela repartição estadual é terceirizada, e que o nome da empresa é Facility. Facility? Coincide com a marca da empresa de Arthur Cesar Menezes Soares Filho, um dos maiores fornecedores do governo Sérgio Cabral, de quem é amigo íntimo. Claro que ele tem jatinho que pode levar os amigos para onde desejarem.

Mas isso é detalhe. Psicologicamente, o importante é que tudo parece piada de mau gosto. A vistoria me remeteu a um passado longínquo, quando era levado por minha mãe para tomar injeção no posto de vacinação. Triste memória! Lembro-me do pavor que sentia só de passar ao lado. Hoje, depois de décadas, o pavor é ter que ir todo ano aos postos do Detran,  este,  um sofrimento que não faz o menor sentido.