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Política

Os imortais – ou imorais

por Edgard Catoira — publicado 10/07/2013 17h01
Nesta semana, estamos voltando às ruas para protestar
Divulgação
Câmara Municipal do Rio de Janeiro

A Câmara Municipal do Rio. Vereadores estão de olho nas vagas disponíveis no TCM

No Rio de Janeiro, também, enquanto as manifestações de rua apresentam uma agenda de reivindicações importantes para a cidade, na Câmara do Rio, em surdina, a base do prefeito Eduardo Paes (PMDB) está preocupada com as vagas para o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas, que serão abertas com a aposentadoria compulsória de alguns dos atuais sete conselheiros.

O Tribunal de Contas do Município representa para os políticos cariocas o que a Academia Brasileira de Letras representa para os literatos, e com inúmeras vantagens: carro oficial com motorista, cargos para nomear seus colaboradores e remuneração imortal, ou melhor, vitalícia, equivalente a dos desembargadores – mais de 25 mil reais mensais. E eles nem precisam escrever corretamente. Aliás, qualidade cada vez mais rara na nova geração de políticos.

A coisa, evidentemente, é muito séria. Tanto é que os vereadores cariocas Jorge Felippe (PMDB), presidente da Câmara, e Luiz Antonio Guaraná (PMDB) – líder do governo, e fiel amigo de Eduardo Paes – trataram de patrocinar a mudança da Lei Orgânica do Município. Os dois, evidentemente, estão interessados nas vagas que vão surgir. Por meio de um grupo de colegas, apresentaram um projeto, garantindo que as próximas duas vagas de conselheiros do TCM serão preenchidas por escolha dos próprios vereadores, deixando para trás a vez dos auditores e procuradores do Tribunal.

O projeto teria que ser aprovado em dois turnos, pelo voto favorável de 2/3 dos nobres edis, mas, como querem ir mais rápido, resolveram pegar carona em outro projeto já aprovado em primeiro turno. Apenas elaboraram uma emenda a este projeto e definiram nele as novas regras de nomeação dos conselheiros imortais.

Mas a novela é ainda mais instigante e deve ser também levada aos protestos de rua, já que pouca gente, infelizmente, se importa com o TCM, embora todos paguemos a conta de sua crônica ineficiência. O script da novela mostra que, preterida pelos colegas, outra vereadora do PMDB, Rosa Fernandes, conseguiu que seu colega Zico, do PTB, desse entrada a outra emenda, determinando que as três próximas vagas – e não mais as duas – serão escolhidas pelos vereadores para, com isso,  fechar um acordo de apoios recíprocos.

Aí é que entra o povão: a votação de tais emendas, certamente, ocorrerá em agosto, a menos que a grita das ruas aumente. Aí, a vaga do TCM vai mesmo "subir no telhado" do Palácio Pedro Ernesto, a sede da Câmara do Rio. Mas, se passarem, os futuros conselheiros-vereadores só terão que conter a ansiedade para aguardar as mortes, digo, as aposentadorias compulsórias. Apesar de que corre, à boca pequena, que um dos atuais conselheiros, por cinco milhões de razões, renunciará ao cargo para abrir, ainda este ano, a vaga para o primeiro da lista sucessória.

Claro que os vereadores Jorge Felipe, Guaraná e Rosa Fernandes estão inquietos. Mas, neste momento em que o brasileiro está querendo mostrar que não é uma boiada, é melhor não tocar neste assunto que pode acabar na atual onda de protestos.

Enfim, tudo isso também faz parte das coisas da política. E eu me pergunto: até quando?