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Sociedade

Rio de Janeiro

O pitbull do Leblon

por Edgard Catoira — publicado 08/07/2013 11h14, última modificação 08/07/2013 12h26
Insatisfação popular expõe relação tensa entre o governo de Sérgio Cabral, a Polícia Militar do estado e os moradores
Fernando Frazão / ABr
manifestação cabral

O Rio só quer a paz social que sabe merecer

A semana carioca terminou com muito turista paulista nas praias, emendando o feriado de 9 de julho – feriado exclusivo de São Paulo, comemorativo à Revolução de 32.

Fora esse pessoal bonito, nada de novo. Só na praia do Leblon surgiu uma concentração maior na altura da Rua Aristides Espínola, onde mora o governador Sérgio Cabral Filho. Tudo em paz, com professores reivindicando seus direitos e o resto reclamando do governo. Duas patrulhas da PM em cada esquina do quarteirão garantiam a tranquilidade do trecho do bairro – até porque Sérgio Cabral e família estão na mansão de Mangaratiba, perto de Angra dos Reis, para onde vai e vem constantemente a bordo de um dos sete helicópteros do governo estadual.

Porém, a paz da elegante Praia do Leblon, um dos metros quadrados mais caros do mundo, tem sido quebrada constantemente nas últimas semanas: depois de 15 dias de servir de moradia para uma legião de jovens – e muitos adultos – que acamparam na esquina, na quinta-feira 4, à noite, a PM tirou todo mundo com muita truculência. Até os moradores dos luxuosos apartamentos, que apoiaram o incômodo acampamento de repúdio a Cabral davam apoio aos manifestantes oferecendo água, alimentação, enfim, atenção. E também se revoltaram com a batalha campal da quinta-feira, que teve até, coincidentemente, as luzes da rua repentinamente apagadas. Moral: já no dia seguinte, começaram a passar um abaixo assinado considerando Cabral persona non grata no bairro e pedindo que ele vá governar no palácio, e não em casa, no Leblon.

Eu, particularmente, tenho a certeza que Cabral prefere mesmo é governar de Paris, entre festas nababescas com políticos e empresários amigos, mas, agora, que todos sabemos disso, ele, pobre, fica impedido de ir para lá – ou mesmo para a Flórida, ou Trancoso – Bahia.

Para viajar, não existe problema. Os amigos têm aviões particulares, e levam, com prazer, quem o governador quiser, tudo de graça. Claro que, em troca, suas empresas prestam serviços ao Estado. Mas isso já é assunto de governo. Aliás, de governo do Rio e outros – vide as viagens do governador Cid Gomes, do Ceará – além de parlamentares, juízes... Só Geraldo Alkimin está tirando o dele da reta vendendo rapidamente o helicóptero que usa.

Cabral também é gentil. Tanto que cede os aviões oficiais para o vice Pezão, o presidente da Assembleia Paulo Mello, e até para o prefeito Eduardo Paes, que usou um deles para escapar da multidão que cercou a sede da prefeitura. Paes, esperto, agora trabalha na residência oficial da Gávea Pequena, fora de mão para manifestantes e sem perigo de ser maltratado pela plebe do Rio.

Agora, como o público descobriu todas essas maravilhas aéticas do poder, vai ficar mais difícil continuar nessa doce vida. Mas eles sabem, é por pouco tempo. O povo esquece.

Enquanto isso... Sem contar com a violência das últimas semanas, a PM passou a ser mal vista pela população, depois de tratar o povo com balas de borracha, spray de pimenta, bombas de efeito moral e o famoso “caveirão” espalhando pânico.

Um policial amigo meu, que trabalha no setor de inteligência da segurança pública do estado – e, por isso mesmo eu não identifico, nem diante da truculência que não assistia desde a época da ditadura – explica como vê a PM nesta hora. Diz ele:

– Na verdade, vejo a PM como o cão que morde o dono, ou seja, quando é para guardar o quintal da gente contra invasores indesejados (tráfico, bicheiros, assaltantes etc e etc) nós queremos um pitbull, mas quando chamamos o cãozinho para nos fazer companhia queremos um pinscher. Não dá para ter dois cães no mesmo corpo. As polícias são o cão que morde o dono, que é a sociedade, e não o governador, que apenas segura a guia do cão em determinado momento.

Concordo plenamente com o raciocínio desse policial que “pensa a polícia”. E adorei sua conclusão:

– Os PMs são verdadeiros cães de guerra. Posso lhe falar assim, pois já estive com eles em diversos confrontos e os caras são soldados valiosos e valentes, enfrentam e vão entrando no meio do turbilhão, e agora a sociedade quer descartá-los como sendo cães sarnentos? Não me parece razoável isso, não é inteligente, a PM é minha, é sua, é nossa, é um importante, poderoso e eficaz instrumento, vamos consertá-la e tirar da mão do playboy desvairado, reservando-a para nos socorrer, como sempre fez, nos momentos de necessidade!

Para encerrar, devo admitir que Cabral, antes de mandar tirar o populacho das ruas em frente a sua casa, recebeu no Palácio Guanabara, sede do governo, uma comissão de jovens para conversar. Foi tudo registrado, fotografado, limpo. E bem divulgado. Os assessores só não contaram que a meninada que Cabral recebeu é da turma do filho do governador. Por isso deu tudo certo. Precisamos agora só de um encontro mais sério, que inclua a turma que tomou porrada dos pitbulls do nosso playboy do Leblon. Talvez assim o Rio fique apaziguado, não como a Favela da Maré, que provou estar desprotegida depois de um confronto que terminou em mortes na semana passada. Só o governo acredita que achamos que as favelas estão em paz.

O Rio só quer a paz social que sabe merecer.

Diante desse quadro, lembro que é difícil para o povo ficar constantemente revoltado com o governo. Minha filha, sempre ela, Luisa, postou no Facebook, para mim, esta foto, como faz todo dia, para alegrar minha alma. É linda!