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Cultura

Post de estreia

Minha alma canta

por Edgard Catoira — publicado 05/07/2013 11h53, última modificação 06/07/2013 10h15
O Rio de Janeiro que queremos ver (e mostrar) não é o Rio de todos os dias. Mas continua maravilhoso. Por Edgard Catoira, na estreia de seu blog para CartaCapital
Luisa Catoira
Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro, ao amanhecer

Diariamente minha filha Luisa sai de casa, por volta de 6 horas da manhã, rumo à academia de ginástica antes de começar sua jornada de trabalho. Invariavelmente, quando chega na Avenida Atlântica, ela fotografa o dia amanhecendo e posta o que admira no Facebook. Além da Praia de Copacabana, ainda vazia, estão os prédios da orla, o mar azulado, o amanhecer carioca com o céu colorido numa verdadeira paleta de cores.

Em geral sou um dos primeiros a saudar o que chamo orgulhosamente de “quintal de casa”. Em seguida, dezenas de amigos curtem e fazem comentários elogiando nosso pedaço de trópico.

Foi sobre essa maravilha da natureza, amada e cobiçada por todos, que tive de escrever, dias atrás, para uma revista inglesa dirigida a um público sofisticado. Deveria fazer uma espécie de roteiro turístico para leitores muito ricos da Europa.

Sentado diante do computador, já com o espírito cheio de falsa humildade para mostrar o Rio de Janeiro, decidi pegar na mão do leitor e andar pela cidade comentando os encantos de onde vivo. Mentalmente, dividi o texto em “centro histórico”, “praias”, “passeios imperdíveis” e “compras”. Em cada item falaria de bares, lojas, monumentos e restaurantes. É sempre bom conversar com estrangeiros, que ficam abismados com a alegria do carioca, a história do Brasil contada pela rica arquitetura de diferentes épocas, as cores da cidade, o contraste de montanhas verdes com os prédios e as tonalidades verde azuladas do mar.

Porém – e sempre tem um “porém” para estragar nossa felicidade – quando comecei o texto, caí numa real: eu não podia, num texto que vende a cidade, ficar falando do lado podre, como faço neste espaço.

Como omitir, já de início, que o aeroporto Tom Jobim – pobre maestro – é desorganizado, sem serviços, sempre lotado de gente gritando, sem locais para pequenas refeições, e total falta de orientação ou serviço? Consegui advertir que, como o resto da cidade, o aeroporto também está em reformas e ampliações para os grandes eventos internacionais, incluindo a Copa das Confederações (que acabou de acontecer), o Encontro da Juventude Católica, a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Simplesmente aproveitei as desculpas das autoridades envolvidas com o caos aéreo do Tom Jobim – e do Santos Dumont também. E ainda o fato de que os aeroportos internacionais, mesmo os da Europa, andam com sérios problemas de infraestrutura.

Mas meus problemas aumentavam à medida que ia desenvolvendo o texto.

O imperdível passeio ao Cristo, uma das Sete Maravilhas do Mundo moderno, símbolo da cidade, e até do país – e local mais visitado pelos turistas, de acordo com estatísticas oficiais – por exemplo, é uma baderna. A prefeitura não decide um local exato para a compra de bilhetes para subir o Corcovado pelo bondinho que atravessa a floresta da Tijuca, num trajeto de 20 minutos e que é um dos orgulhos do carioca: a paisagem é belíssima. Fui honesto. Escrevi que o melhor seria comprar pela Internet ou se orientar com uma agência de viagens. Até mesmo com a recepção dos hotéis. Afinal, todos os que apareceram no texto eram de cinco estrelíssimas.

Na parte das compras e dos restaurantes, as indicações foram mais fáceis, em contraste com um passeio – que não pode realmente deixar de ser feito – através da Floresta da Tijuca que, com ufanismo, foi citada como “a maior floresta urbana do mundo”, o que é pura verdade. Mas a grande floresta não tem sinalização. Os administradores reconhecem que qualquer um pode se perder entre o bairro do Cosme Velho até a Barra da Tijuca.

Fiquei num beco sem saída, como ficaria meu leitor abastado  ao entrar num caminho errado e ser morto numa das favelas que ficam ao longo do trajeto. Claro que não é preciso assustar o turista, mas, sem falar em bandidos, avisei que o ideal seria fazer o passeio com um guia turístico, para não correr o risco de ficar perdido no meio da mata tropical.

Enquanto ia fazendo os roteiros, as notícias de estupro, assalto e morte de turistas iam pipocando.

E eu aconselhando guia turístico, já sem conseguir esconder minha certeza de que esse guia é, na verdade, um verdadeiro guarda-costas. Até o carioca que ia buscar sua mulher no aeroporto, errou uma entrada e caiu no meio de uma favela. Foi assassinado, claro. Mas isso não é material a ser mostrado para turista. E, para o público a que me dirigia, felizmente eu não tinha que falar de transporte público.

Vivido este drama, completei o texto e os ingleses adoraram. Com fotos de Américo Vermelho, o material ficou realmente muito bom. Mas, na mensagem em que o editor me avisou para mandar meus dados para efetuar o pagamento, mostrou-se preocupado, perguntado se estava tudo bem comigo, evidentemente referindo-se aos tumultos daqui que são divulgados na Inglaterra.

Devo confessar que escrevi sobre o que amo, a minha cidade, minha gente. Se pudesse, falaria sobre os nossos governantes, que parecem odiar o Rio. Mas, com todo o descaso de nossas autoridades, a cidade continua sendo digna do seu hino – Cidade Maravilhosa. Com todas as mazelas, daqui não sairei muito. Do Rio, sinto saudade até do mau cheiro da Linha Vermelha, e da aparente ‘nova cidade’, feita de velhos containers empilhados na zona portuária, feios e que, garanto, já é um novo problema de descarte e, com certeza, mais um rico foco de dengue.

Como fico no pé do senhor governador-que-adora-festas-em-Paris e do prefeito-campeão-de-votos, voltarei ao assunto.

E convido: vem para o Rio você também – vem!

 

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Sobre o autor. Neste blog, Edgard Catoira passa a escrever sobre o Rio de Janeiro, suas crônicas, suas maravilhas e suas questões urbanas, políticas e sociais --estas nem tão maravilhosas. O autor iniciou sua vida profissional em 1964 como repórter da Edição de Esportes do Estado de S. Paulo. Foi Chefe de sucursal da Ed. Abril (BA), Secretário de Redação da Veja e Gerente da Abril Press (SP). No Rio de Janeiro, foi editor da revista TV Guia, das revistas femininas e Playboy, da editora Abril; revistas Amiga, Manchete e Supermoldes, da Bloch Editores; de projetos especiais do Jornal do Brasil e O Globo. Sempre no Rio, trabalhou como Chefe de Comunicação Social da Embratur, Fundação Roberto Marinho, Procuradoria do Município, Secretaria de Educação da Prefeitura, Secretaria Estadual da Infância e Juventude e Câmara Municipal. É editor dos livros: “Guia do Jardim Botânico”, “Meio Ambiente e Desenvolvimento - uma experiência brasileira”, “White Martins” e “Jeans, a Roupa que Transcende a Moda”.

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