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Uma ficção mais verdadeira que verossímil

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 27/02/2012 17h23, última modificação 27/02/2012 17h23

Como romance de Umberto Eco, O Cemitério de Praga (Record, 480 páginas, R$ 49,90) se sai menos do que satisfatório. Em geral – e embora algumas passagens de A Misteriosa Chama da Rainha Luana consigam surpreender positivamente nesse aspecto – não se espera desse excelente crítico literário e razoável romancista seja sério e profundo ao explorar os sentimentos humanos, de maneira que o livro não decepciona nesse aspecto. Pode-se, por outro lado, contar com cenários históricos e culturais muito bem pesquisados e recriados e com reflexões brilhantes sobre o uso da linguagem e a manipulação ideológica, e esta obra não deixa de cumprir muito bem essa sua obrigação.

O que Eco às vezes consegue e outras vezes não é uma trama verossímil e envolvente. É neste aspecto que este seu mais recente trabalho de ficção – mais precisamente, semificção – ficou devendo. Por absurdos que pareçam, os acontecimentos decisivos da trama são historicamente verdadeiros ou pelo menos interpretações aceitáveis dos fatos conhecidos, mas essa não é a questão: Como escreveu Mark Twain, “A verdade é mais estranha que a ficção, porque a ficção é obrigada a se ater ao verossímil e a verdade, não.”

A história de Eco é quase real, mas não é contada de maneira convincente e por muitas vezes parece desconjuntada e forçada, mesmo quando se sabe que os fatos realmente se passaram da mesma maneira.

Em parte isso se deve a personagens mal esboçados, cujos motivos soam frequentemente arbitrários e são explicados ou sugeridos de maneira superficial e sem convicção, principalmente no que se refere ao protagonista.

Simone Simonini se move ao sabor de seus interesses egoístas pontuais, interessado apenas em embolsar seus ganhos e livrar-se de seus apuros, sem que a história mantenha um curso definido por tempo suficiente para empolgar o leitor. Apesar disso, ele nutre uma obsessão de décadas por criar uma falsificação sobre uma conspiração de rabinos que se reúnem num cemitério de Praga para planejar o domínio do mundo – eventualmente vendidos à polícia secreta do tsar como os infames Protocolos dos Sábios de Sião – e no final do livro se diz feliz por contribuir para o extermínio dos judeus.

Apesar de ser o motivo condutor do livro e a razão do título, a obsessão de Simonini é vista como uma espécie de hobby do personagem que em nenhum momento é bem analisada ou aprofundada. Ele é antissemita porque aprendeu a sê-lo com o avô, porque foi desprezado por uma garota judia e nada mais. Simonini parece ter sido concebido como expressão da “banalidade do mal” analisada por Hannah Arendt. Acontece que, ao que se sabe, Adolf Eichmann, em relação a quem essa expressão foi criada, não era particularmente antissemita, nem era fascinado por uma fantasia recorrente: era apenas um burocrata obediente, ansioso por subir na carreira. Não é o caso de Simonini, cuja criatividade perversa (apesar de baseada numa colagem de clichês conspirativos de diferentes autores) exigiria outro estofo para convencer.

Outra parte da sensação de inverossimilhança se deve aos excessos a que Eco recorreu para contar sua história. O protagonista é contratado ou ameaçado por representantes de diferentes serviços secretos e organizações que encomendam fraudes e falsificações para chantagear personalidades ou manipular a opinião pública. Embora isso envolva importantes acontecimentos, como a unificação da Itália, a Comuna de Paris e o Caso Dreyfus, além de personagens como Giuseppe Garibaldi, Sigmund Freud e Alexandre Dumas, para o leitor que não se interessa pelos conflitos do século XIX e pela história do antissemitismo, muito disso pode soar tão repetitivo, monótono e sem sentido quanto parece a Simonini.

Para combater esse tédio e conferir interesse a um protagonista banal, Eco criou uma trama paralela fazendo este desenvolver uma dupla personalidade – o falsificador Simonini e o abade católico Dalla Piccola – cada uma das quais ignora parte do que a outra sabe e que se comunicam por recados escritos, uma contando a outra a sua história, até Simonini conseguir superar essa situação com ajuda de algumas ideias do “Doutor Froïde”. Não que seja impossível, mas soa tão forçado que o falso mistério não consegue despertar interesse. Ao contrário do que se passa em A Misteriosa Chama..., no qual a amnésia do protagonista, muito plausível como resultado de um AVC, é o fundamento da trama e gera um drama humano convincente.

Além disso, Eco dá rédea solta a maneirismos que acabam por se tornar irritantes – particularmente a mania das listas, à qual dedicou recentemente um livro inteiro (A Vertigem das Listas). Há parágrafos inteiros dedicados a desfiar listas de acusações aos judeus, títulos maçônicos, nomes de conspiradores e assim por diante, mas as mais insistentes são os menus e as receitas, já que o protagonista compensa sua indiferença ao amor e ao sexo (coisas de que Eco, como narrador, foge como o diabo da cruz) com a paixão pela boa comida. Alguns resenhistas expressaram preocupação com que o romance pudesse ressuscitar clichês e preconceitos a respeito de judeus, maçons e outras vítimas das falsificações de Simonini, mas é mais provável que o leitor acabe por desenvolver ódio pelos gastrônomos. Fora isso, as maiores vítimas do livro são o Papa Leão XIII e a Igreja Católica da Belle Époque, impiedosa mas merecidamente ridicularizados em sua propensão a repercutir patranhas grotescas a respeito de judeus e maçons e recompensá-las generosamente.

Vale a pena o esforço da leitura? Sim, para o leitor interessado na análise das origens históricas de preconceitos e teorias da conspiração e na importância da ficção, das falsificações e da manipulação dos meios de comunicação na história e na cultura, sem se incomodar com as manias e pedantismos do autor. Para quem busca apenas o prazer de uma boa narrativa, talvez não.

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