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Uma aventura cósmica apenas mediana

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 18/06/2012 19h02, última modificação 19/06/2012 11h01

Apresentada como puro entretenimento, a novela (no sentido de romance curto) de fantasia As Dez Torres de Sangue (Editora Draco, R$ 26,90, 96 págs.), de Carlos Orsi, atende em alguns aspectos a essa expectativa. A narrativa é fluente, o ritmo é adequado a uma história de aventura com toques sombrios e os protagonistas têm personalidade suficiente para sustentá-la. Deixa a desejar, porém, a quem pede consistência e verossimilhança, tanto no que se refere à ambientação histórica quanto na construção das peripécias.

A aventura se passa no reinado de D. João V, ou seja, entre 1706 e 1750, e começa por um naufrágio na costa da África – aparentemente na atual Mauritânia – de um navio que levava uma certa Dona Teresa para um casamento em Goa. Uma amostra da prosa do autor:

A garota, pelo menos, estava intacta. O pensamento fez François sorrir. Afinal, os Rouens haviam chegado a Portugal ainda durante as Guerras de Reconquista, e desde então nenhum nobre português jamais tivera motivos para se queixar dos serviços prestados pela família. E François não tinha a mínima intenção de ser o primeiro a fracassar em uma missão. Se Dom Manuel estava disposto a pagar para que sua irmã - uma jovem bastarda, que só havia sido apresentada à aristocracia após a morte do patriarca d família, meses atrás - chegasse sã e salva a Goa, um Rouen cuidaria disso.

O braço, ferido dias atrás em uma escaramuça com negros caçadores de escravos, continuava a doer. A flecha, de ponta triangular, farpada, deixara um corte profundo e de cicatrização lenta - se é que algum dia a ferida viria a cicatrizar de fato.

- O que vamos comer? - perguntou Dom Manuel. O homem não seria mais velho que o próprio François, mas era nitidamente menor, mais gordo (agora, depois de tantas privações, mais flácido),  mais fraco. E mais covarde. O mercenário imaginou, por um instante, se todos os nobres portugueses dignos do título já não teriam morrido nas colônias, deixando o império nas mãos de trastes como aquele.

Aqui se percebe o primeiro tropeço. O bravo guarda-costas descende de franceses que servem à nobreza portuguesa desde a Reconquista (ou seja, desde antes de 1249, quando se completou a conquista do Algarve), mas se chama François Rouen, como se acabasse de desembarcar da França de Luís XV. Por que isso? Não dá para imaginar que uma família de origem francesa vivesse por meio milênio em Portugal sem se aportuguesar nos nomes e nos modos. Será que o autor, que reserva o papel de poltrão ao irmão de Teresa, sente tanta dificuldade em associar um nome em português a um personagem corajoso e competente?

O próximo estranhamento vem ao se revelar que o verdadeiro nome judeu de um personagem vindo do Brasil que mantinha essa religião sob o disfarce de cristão-novo é “Salomão Gross”. Hoje esse poderia ser o nome de um judeu asquenaze brasileiro, mas no século XVIII seria absurdo. Os cristãos-novos brasileiros e portugueses descendiam de judeus sefarditas (ibéricos) e seus sobrenomes, verdadeiros ou falsos, eram portugueses ou espanhóis (como no caso dos filósofos Uriel da Costa e Baruch Espinosa). Sobrenomes germânicos só foram impostos aos judeus da Europa Central a partir de um decreto do Império Austríaco de 1787 – antes disso, estes só usavam patronímicos (ben- ou bar-, ou seja, “filho de”, seguido do nome do pai).

Ainda mais estranho é ver esse personagem que viveu entre o Brasil, Portugal e o Saara, afirmar que “mandou fazer uma faca no Afeganistão” (país que sequer existia como tal) como se vivesse na era da internet e do cartão de crédito internacional. E um pouco adiante, depois de falar à cristã Teresa sobre a “Árvore da Vida” dos cabalistas, afirmar que “nós censuramos algumas partes do Velho Testamento antes de passá-lo para vocês”. Ora, o cristianismo não foi uma cultura estrangeira à qual os judeus “passaram” o que quiseram de seus escritos, mas é um rebento do judaísmo antigo, que continuou a veneração dos mesmos livros sagrados e lhe acrescentou outros. O judaísmo, por sua vez, continuou a criar seus textos religiosos, inclusive o Talmude e a Cabala. Esta tradição jamais foi ou se disse parte da Tanakh, que é como os judeus chamam o que os cristãos conhecem como “Velho Testamento”: pretende ser uma tradição esotérica oralmente transmitida desde a Antiguidade (embora seus escritos datem da Idade Média) para a interpretação do mesmo.

O autor mistura uma pitada de cabalismo judeu (a estrutura da Árvore da Vida e de suas dez sephiroth, não muito aprofundadas) com outro tanto da obscura tradição muçulmana dos “sultões pré-adamitas”, cujo registro mais autorizado é uma citação pelo persa Zakariya al-Qazwini, cientista e precursor da ficção científica do século XIII, mas que é mais conhecida no Ocidente pelo romance de fantasia oriental Vathek, do inglês William Beckford (1786). Segundo essa lenda, os jinns (gênios) habitaram a Terra por dois mil anos e tiveram quarenta ou 72 sultões antes de Alá decidir criar Adão e Eva, o que levou parte deles a se rebelar sob a liderança de Iblis, o equivalente muçulmano de Lúcifer ou Satã.

Na versão de Orsi, porém, os sultões pré-adamitas são inimigos tanto de Deus quanto de Satã e manipulam a cabala para nada menos que aniquilar o Universo – não só a Terra, mas as estrelas e galáxias –, divertindo-se com torturar humanos enquanto não atingem sua meta. Seu líder é Kadmon, que na tradição cabalista é simplesmente o “homem primordial”, o ideal original, celestial e andrógino, de humano que serviu de modelo a Adão e Eva. É uma mistura de metafísicas e motivações que não faz muito sentido nem dá boa liga. Serve apenas para pintar os “sultões” como vilões absolutos, que precisam ser detidos pelos heróis a qualquer custo.

E quando começa a se chegar à sequência decisiva da aventura, é um pouco desapontador perceber que a resolução desse drama de proporções cósmicas se reduz a um videogame banal. O leitor chega a se perguntar onde está o seu joystick. Para atingir seu misterioso objetivo, os heróis precisam entrar numa complicada galeria por baixo da mística cidade das “Dez Torres” – uma dungeon, no jargão dos jogadores – formada de compartimentos com monstros ou outros desafios cada vez mais estranhos e impressionantes, superados de forma implausível fora do contexto de um joguinho.

Por exemplo, é preciso cortar uma grade de ferro debaixo d’água, enquanto se prende a respiração – e não com uma ferramenta adequada, mas com uma cimitarra. E os tais sultões pré-adamitas, poderosíssimos, foram capazes de criar uma corrente imensa e indestrutível, cada elo da qual “do tamanho de uma carroça”, mas lhe colocaram uma tranca modesta, como que feita especialmente para ser aberta por um arrombador humano provido de uma trivial coleção de gazuas.

Carlos Orsi já mostrou habilidade em textos que variam do terror lovecraftiano à ficção científica, incluindo, por exemplo, a ótima antologia Tempos de Fúria (Novo Século, 2005). Desta vez deixou impressão de uma obra apressada e um tanto desleixada. Mesmo como passatempo para um dia chuvoso ou uma entediante viagem de avião, teria se beneficiado muito de uma pesquisa histórica e religiosa um pouco mais aprofundada, de um mais complexidade na construção dos antagonistas e de originalidade e verossimilhança na concepção dos desafios e suas soluções.

 

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