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Uma antiantologia

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 27/08/2012 16h18, última modificação 28/08/2012 10h27

Geração Subzero (Record, 322 págs., R$ 39,90) é uma coletânea formada por critérios curiosos. O organizador, o professor, escritor, jornalista e roteirista Felipe Pena, assume que “não é uma antologia”, porque seus vinte contos e autores “não têm a pretensão de figurar entre os melhores de sua geração ou estilo”. Segundo ele, observou nomes comentados em redes sociais, blogs e discussões visando o prazer da leitura e ouviu os signatários do “Manifesto Silvestre”, (grupo que defende “enredos ágeis e cativantes” e que o autor “deve se esforçar pela disseminação de sua obra, o que significa se envolver com a distribuição, o marketing”) e não se preocupou com julgamentos estéticos, mas apenas com refletir “as escolhas dos leitores leigos, mesmo que elas contrariassem meus próprios juízos de valor” Francamente, é inverossímil e soa como pedido antecipado de desculpas. Que leitores leigos? Todos os milhões deles? Apenas aqueles que decidiu ouvir, é claro.

O resultado desse processo ficou bem irregular, cheio de altos e baixos. Alguns contos são excelentes, mas outros, muito ruins, mesmo dentro de uma proposta de entretenimento despretensioso. É interessante notar que, embora haja exceções, os melhores contos tendem a ser dos autores menos conhecidos, daqueles cujos nomes aparecem na capa em letras menores. Alguns dos supostos puxadores de vendas, aqueles que aparecem mais destacados (e que presumivelmente exemplificam autores que “se envolvem com a distribuição e o marketing”), assinam contos dos menos interessantes.

O projeto todo soa como uma resposta mal-humorada à antologia (assumida) Granta 9 – Os melhores jovens autores brasileiros (Alfaguara, 288 págs, R$ 34,90), produto de um júri que escolheu vinte entre 247 textos de autores brasileiros “jovens” (com menos de 40 anos). A publicação, organizada pela tradicional revista literária britânica Granta (fundada em 1889) que hoje procura se mundializar, procurou apresentar o que há de melhor e mais promissor na literatura brasileira hoje. Naturalmente, deixou 227 autores frustrados e muitos escritores e fãs contestando o direito de acadêmicos e críticos literários – ou, no fundo, quem quer se seja – julgarem tais ou quais autores e textos como “melhores” que outros.

A editora parece ter desejado se aproveitar desse clima e a introdução do professor Pena para Geração Subzero, embora baseada em textos anteriores a essa polêmica, se mostra um longo panfleto contra o cânone literário e a favor de uma ficção de entretenimento, que aparentemente inspirou a infeliz diatribe de Paulo Coelho contra James Joyce. Diga-se de passagem que o autor de O Alquimista entendeu mal ou quis ser mais realista que o rei: Pena criticou não o escritor irlandês, mas aqueles que acreditam ser sua reencarnação e escrevem para um público ínfimo ao tentar basear sua narrativa em jogos de linguagem para demonstrar sua suposta genialidade.

De qualquer forma, a dicotomia sugerida pelo organizador entre entretenimento e jogos de linguagem é um equívoco. A própria expressão “jogo de linguagem” indica tratar-se também aí de jogo ou entretenimento e de fato é parte fundamental do entretenimento literário, mesmo quando não é a principal. A questão é que tipo de entretenimento e para quem. Um Ulisses ou mesmo um Dom Casmurro, por exemplo, pode ser cansativo e maçante para um aluno mediano de segundo grau, mas é um ótimo entretenimento para quem está preparado para sua leitura, ao passo que Paulo Coelho, com seus cento e tantos milhões de leitores, Crepúsculo, que entreteve milhões de adolescentes, ou Cinquenta tons de cinza, que hoje faz o mesmo com outras tantas mães de família, podem ser mortalmente entediantes para quem busca obras mais ousadas.

A introdução cita o crítico francês Émile Faguet: sobre “escritores obscuros” que “desfrutam sempre de enorme reputação. Tem um bando e um sub-bando de admiradores. O bando é composto por aqueles que fingem entendê-los, o sub-bando por aqueles que não ousam dizer que não os compreenderam e que, sem os lerem, declaram que são primorosos”. Sem excluir que tais casos possam existir, a leitura possível de que esse pudesse ser o caso de um James Joyce – visto que nenhum outro nome “canônico” é citado – ou é um mal-entendido, ou a manifestação de um autoritarismo estético tão pernicioso quanto o oposto. Por mais que se goste de “enredos ágeis e cativantes”, qual o sentido de desqualificar a priori quem sinceramente aprecia jogos de linguagem e neles encontre entretenimento e prazer estético? É como decretar que a única utilidade concebível da música é servir para dançar e entreter em festas e baladas acusar de esnobe e hipócrita quem aprecia um concerto de música erudita.

Reivindicar que os estudos literários e culturais respeitem e deem atenção e espaço também à literatura popular, como dão às histórias em quadrinhos, à música popular, ou à arte naïf,  é perfeitamente razoável, mas “tomar partido” a favor dela e dos sucessos momentâneos de vendas e público contra a literatura ao gosto “acadêmico” é uma atitude conformista disfarçada de contestadora. Se não reacionária, pois repete temas usados nos ataques da velha guarda dos românticos contra os realistas do século XIX, ou nos ataques aos modernistas no século XX. Como, aliás, notou o escritor de fantasia e ficção científica (por definição, “não-canônico”) China Miéville em palestra na Conferência Mundial de Escritores de Edimburgo de 2012, citado em matéria do jornal britânico Guardian de 21 de agosto:

(...) O leviano ataque a Joyce de Paulo Coelho fez dele motivo de ridículo esta semana, mas ele é um alvo fácil porque, com livros multitarefa que servem um pouco abertamente demais como manuais de autoajuda, não é tão aceito no clube. Ao contrário, digamos, de Ian McEwan [autor de Amor sem Fim e Amsterdã, entre outros], que de maneira não tão diferente se declarou contra a “mão morta do modernismo” em todo o mundo, como se o estilo literário dominante Inglaterra do pós-guerra fosse a experimentação steiniana ou algum Oulipo britânico [alusão a duas pequenas escolas de literatura experimental], contra os quais os “jovens turcos” resistissem com interioridade limpidamente observada, metáforas decodificáveis, tensas relações de classe média e as verdades eternas da condição humana ™ (...) A tendência culturalmente dominante no romance inglês tem sido por anos o que Zadie Smith chamou de “realismo lírico”: a priorização sem remorsos – e peço desculpas por repetir minha heurística favorita – do reconhecimento sobre o estranhamento.

Claro que existe e deve existir literatura popular, literatura de gênero (fantasia, ficção científica, policial etc.), middlebrow ou como se quiser chamá-la, mas seria estúpido, principalmente para quem quer escrever, desprezar tudo que se pode aprender com a literatura canônica, o modernismo e os estilistas da língua. Mesmo nesta coletânea que se supõe reunir obras despretensiosas e de entretenimento, aquelas mais bem-sucedidas e de fato entretidas são as que sabem usar jogos de linguagem a seu favor e combinam bem forma e conteúdo para criar um clima adequado a seu tema. São exemplos, dentro desta coletânea mesma, os contos de Luiz Brás e Cirilo Lemos.

Aqueles que procuram contar uma boa história sem um mínimo de saber jogar/entreter com a linguagem, e infelizmente são muitos, acabam não contando uma história tão ágil e cativante assim. Se o organizador da coletânea se preocupa, como Todorov, com o risco de a literatura deixar de participar da vida do cidadão por não se preocupar com sua afetividade e seu prazer e buscar o elogio da crítica, deveria se preocupar também com o risco de ela deixar de instigar o leitor ao se submeter demais à pieguice e à reciclagem de estereótipos batidos ao se focar excessivamente em ser fácil de ler e vender mais, o que é um caminho mais curto para a irrelevância. Mesmo na literatura mais popular, é preciso um mínimo de jogo entre inovação e repetição ou, como diz Miéville, estranhamento e reconhecimento. E mesmo dentro da literatura popular, há textos de melhor e pior qualidade e se pode e deve ter a coragem de fazer juízos de valor estético e literário, independentemente da aceitação maior ou menor dos textos pelo grande público ou pelos círculos de fãs aos quais um organizador escolheu dar ouvidos.

Um rápido comentário sobre cada conto:

“O cão”, de Juva Batella: uma piada longa demais e mal contada. Sem mais.

“Cristais de prata”, de Pedro Drummond: uma história de amor interessante, com toques originais. Está entre as que vale a pena ler.

“A canção de Maria”, de André Vianco: uma história de vampiros na Terra Santa da época de João Batista e Jesus. Um tanto confusa (o próprio Vianco parece confundir, a certa altura, as duas Marias que há na história), sentimental, arrastada e cheia de anacronismos, embora busque uma ambientação incomum para seu tema batido.

“Na maternidade”, de Thalita Rebouças: um pequeno conto ou crônica do quotidiano, levemente humorístico. Apenas satisfatório.

“Fogo e trevas”, de Eduardo Spohr: um conto de RPG bem tosco, cheio de clichês e inconsistências. Os personagens parecem literalmente jogar em turnos e o monstro segura tão pacientemente o pequeno halfling sobre sua boca ameaçando engoli-lo, para dar tempo aos heróis para descobrir uma maneira de derrotá-lo, que o leitor fica entediado. Terminada a história previsível, segue-se uma introdução a outra, como se fosse um corte arbitrário dentro de um seriado. Só se aproveita o humor involuntário.

“O índio no abismo sou eu”, de Luiz Brás: uma boa história de ficção científica pessimista, especulando com reanimação de mortos congelados, transplantes e realidade virtual. Vale a leitura.

“A filha do diabo”, de Luiz Eduardo Matta: história de terror e exorcismo mal contada. Clima mal desenvolvido e incongruências óbvias.

“Dê-me abrigo”, de Sérgio Pereira Couto: um caso de trauma e condicionamento construído de maneira um tanto artificiosa e com um final muito forçado, embora o estilo não seja desagradável.

“Ao cortar os cordões”, de Estêvão Ribeiro: história de fantasmas fluente, mas superficial e não suficientemente convincente como terror psicológico.

“O primeiro dragão”, de Raphael Draccon: outro conto de RPG abaixo da crítica. Não se chega a ouvir os dados rolando como no conto de Spohr, mas os personagens são ainda mais estereotipados e inverossímeis e não há uma sombra de humor: em vez disso, muita pieguice, dramalhão barato e filosofia de botequim.

“O preço de uma escolha”, de Ana Cristina Rodrigues: uma ficção científica e policial num Rio de Janeiro do futuro. Envolve a caça a um delinquente com poderes paranormais conferidos por um acidente nuclear, como em gibis de super-heróis, mas o tom está mais próximo de uma novela mexicana. História melodramática e ingênua na caracterização dos personagens e de seus motivos, recheada de dispensáveis lugares-comuns sobre política e corrupção.

“Polaco”, de Júlio Rocha: um conto dinâmico sobre violência no Rio de Janeiro, convincente e com um toque de humor.

“Para sempre um dia”, de Helena Gomes: uma história de vampiros no Portugal medieval, de ação rápida e violenta e com alguns toques interessantes de criatividade.

“Outra vez na escuridão”, de Carolina Munhoz: um conto de fadas sombrio sobre uma sidhe que proporciona fama e sucesso a uma jovem estrela do pop e em troca lhe suga a vida e a energia. Proporciona alguns momentos poética e psicologicamente interessantes, mas logo se torna muito previsível e seu prolongamento apenas uma insistência em bater nas mesmas teclas.

“A sabedoria de Clementina”, de Vera Carvalho Assumpção: uma ficção histórica bem-humorada sobre crendice e costumes, bem ambientada na São Paulo do tempo da Marquesa de Santos. Ágil e bem achada.

“Entrevista com o Saci”, de Martha Argel: não chega a ser o equivalente brasuca da Entrevista com o Vampiro de Anne Rice, mas é uma tentativa atraente de atualizar e transformar em fantasia urbana a lenda mais popular do folclore brasileiro.

“Outras onomatopeias”, de Janda Montenegro: uma tentativa de fazer humor com a vida de empregado de escritório mal casado e com o trânsito e a violência do Rio de Janeiro, mas não muito bem-sucedida. Na maior parte, colagem pouco fluente de clichês.

“O escritório de design probabilístico”, de Delfin: uma ideia instigante sobre trabalhadores de escritório que recebe a ordem de questionar sua própria função, mas esse núcleo promissor é diluído por um prólogo dispensável sobre a vida doméstica do protagonista e por uma conclusão igualmente insossa.

“Um chá com Alice”, de Eric Novello: uma sessão de uma jovem com seu terapeuta Cappellaio se torna uma releitura de Lewis Carroll.  É um chá aguado e requentado se comparado com o que a Alice original toma com o Chapeleiro Maluco, mas tem momentos engenhosos e sutis.

“A lua é uma flor sem pétalas”, de Cirilo S. Lemos: uma ficção cyberpunk sobre um Rio de Janeiro ultraviolento e distópico do futuro, com linguagem e enredo muito bem trabalhados, personagens realistas e convincentes e uma ambientação assustadoramente verossímil. Um dos mais interessantes e originais da coletânea.

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