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Sol, trópicos e punk, combinação insólita mas fértil

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 21/10/2013 15h23, última modificação 21/10/2013 15h23
A Editora Draco fecha trilogia com a coletânea 'Solarpunk', lançada como livro eletrônico

Como sabe quem se interessa por literatura de especulação ou leu as resenhas anteriores sobre as coletâneas Vaporpunk e Dieselpunk, tanto o steampunk quanto o dieselpunk são subgêneros que exploram o retrofuturismo, ou seja, um futuro do pretérito, uma ficção científica que parte do passado. No primeiro caso, um imaginário baseado na linguagem ficcional, cultura e tecnologia da revolução industrial do século XIX e no segundo, o mesmo para o início do século XX, principalmente o período entre as guerras mundiais. Em linha semelhante, seria possível explorar o período da Guerra Fria com o atompunk e o final do século XX e início do XXI como... cyberpunk, pois esse subgênero, nascido no início dos anos 1980 como ficção científica futurista, já viu muitas de suas especulações serem realizadas ou ultrapassadas e outras serem desmentidas, a ponto de soar hoje como mais uma forma de retrofuturismo, quando não como paródia e até crônica do mundo moderno.

Em vez disso, a Editora Draco optou por um salto à frente. Depois das duas antologias acima citadas, fecha uma trilogia com a coletânea Solarpunk, lançada como livro eletrônico (R$ 24,90) em algumas das livrarias virtuais mais conhecidas e que em breve estará disponível também como livro em papel (R$ 52,90, 272 páginas). Neste caso, não se trata em princípio de história alternativa, pois se refere a uma ficção ambientada em um mundo baseado em tecnologias sustentáveis como a energia solar. Como isso só poderá existir no futuro, o título pode sugerir um futurismo propriamente dito e do tipo otimista, se não utópico.

Apesar disso, por diferentes razões, vários dos textos selecionados basearam a ambientação em uma história que tomou um curso diferente da realidade conhecida (às vezes a ponto de situá-la em um passado alternativo) ou lhe deram conotações sombrias e pessimistas, como para resgatar o significado original, já meio esquecido, do “punk” de cyberpunk, o primeiro desses subgêneros. O resultado é um conjunto bem variado e em média, de boa qualidade. Seja qual for a expectativa do leitor, é provável que seja surpreendido.

“Soylent Green is People!”, do jornalista paulista Carlos Orsi, é um policial noir ambientado em um futuro baseado em reciclagem, biocombustíveis e energia solar, tecnologias que têm um papel na trama. Parte do aparente suicídio de um engenheiro de uma empresa de biotecnologia e do desaparecimento de sua mãe, cuja herança é disputada entre a namorada do pesquisador morto e a igreja, aparentemente evangélica, à qual ela pertencia. O autor é bem conhecido pelo viés antirreligioso, mas também é hábil o bastante para evitar o maniqueísmo (ao menos um membro da igreja se mostra uma pessoa inteligente e simpática) e dar à trama um desenvolvimento sutil e interessante e uma conclusão não óbvia. Uma amostra:

Meu silêncio provavelmente a deixara insegura. Balancei um pouco a cabeça para voltar à Terra, sorri e indiquei uma das duas poltronas vazias que reservo aos clientes.

“Minha secretária” era um sistema medíocre de automação comercial que basicamente escaneava os visitantes em busca de armas ocultas, ou material biológico incompatível (alguns tipos de antisséptico bucal não interagem bem com as bactérias que uso para controlar a oleosidade da pele, e é meio chato ficar driblando perdigotos durante a conversa), além de fazer um levantamento antropométrico do visitante nas redes sociais e nos arquivos da PMU e da PF.

Assim, nos três segundos que Sabrina levou para se sentar elegantemente na poltrona, o tampo de minha escrivaninha me apresentou sua página pessoal no FaceSpace, seu Currículo Lattes e um “nada consta” da Secretaria de Segurança Pública. Para obter uma análise de crédito eu precisaria do número do CPF, o que ela iria me fornecer se eu pegasse seu caso, fosse ele qual fosse.

“O Confronto dos Reinos”, do escritor português Telmo Gonçalves, também é uma trama policial, mas bem mais brutal e sem nenhuma pretensão a sutileza ou equilíbrio. O maniqueísmo é aqui desbragado, ainda que sua vítima seja uma nova classe imaginária de seres humanos “clorofilizados” de forma a viver de energia solar e supostamente não precisarem mais de alimentos, detestados pelo protagonista investigador antes de ter razões concretas para isso. A sensação é de que o autor descarrega contra uma minoria imaginária o ódio, os preconceitos e os impropérios que gostaria de manifestar contra inovações e minorias mais reais e contra o “governo” e o “sistema”, aludidos com o rancor flácido dos despolitizados. Amostra:

Virei-me ao vereador e disse-lhe que queria vasculhar as lixeiras e o sistema de esgotos, que ia mandar vir brigadas especializadas, que precisava de mais gente para ajudar.

Ficou em estado de choque. Até baba lhe escorreu pelo canto da boca, só de imaginar os Neandertais a entrar por ali afora. Lembrou-se logo de qualquer coisa para ajudar:

– Há um grupo de munícipes, membros da comunidade solar, que ultimamente andam um pouco esquisitos...

O mais que lhe arranquei chegou para ordenar uma pequena lista com nomes, endereços e terraços prediletos. Comecei logo a dar as minhas voltas, lá por cima, onde as Lagartixas competem com os coletores fotovoltaicos.

Fiquei a ouvi-los falar. Tudo malta jovem. Parvoíce atrás de parvoíce. Tratamentos de hormônios para aqui, suplementos de enzimas para acolá... Para os entender precisava de ser farmacêutico. Ouvi miúdos da faculdade discutir as vantagens de remover órgãos tão supérfluos como o baço e o fígado.

“E atenção: Notícia urgente!”, do jornalista catarinense Romeu Martins, caricatura um evento real, a invasão e destruição parcial de viveiros de eucaliptos transgênicos da antiga Aracruz (hoje incorporada pelo grupo Votorantim na Fibria) no Rio Grande do Sul por 1.800 mulheres da Via Campesina, em 8 de março de 2006, num protesto contra o monocultivo do eucalipto. Mas paródia dos movimentos de sem-terra é apenas o ponto de partida, pois a trama os faz marionetes e cobaias de um grupo multinacional que desenvolve projetos inconfessáveis. Falta compreensão e conhecimento dos movimentos de trabalhadores rurais, mas a especulação segue um caminho interessante. Amostra:

[Jingle] Têêêêêêêêêê –Cê, Ááááááááááá-Emê! A rádio que escuta você.

[Âncora] E voltamos a informar diretamente do interior do Paraná, onde o laboratório de uma empresa do setor de pesquisa agrícola corre o risco de ser invadido a qualquer momento por uma multidão de trabalhadores rurais sem-terra. Vamos falar com a repórter Helena Garcia, que acompanha tudo no local desde o início da tarde. Helena, você nos ouve? O que pode informar a nossos ouvintes em todo o Brasil? Boa noite.

[Repórter] Boa noite. Ouço bem, Herbert. Estou aqui no município de Telêmaco Borba, aproximadamente a 250 quilômetros da capital paranaense, Curitiba. Diante de mim está aquela que é considerada a maior e mais moderna estufa da América Latina, usada pela multinacional Transciência como laboratório para o cultivo de produtos geneticamente modificados. É uma enorme redoma feita de um plástico especial, transparente. Neste momento, cerca de cem manifestantes do movimento Trabalhadores Campesinos gritam palavras de ordem e ameaçam invadir as instalações da empresa. São pessoas das mais diferentes origens, vejo descendentes de japoneses, de alemães, negros, gente de toda parte do estado. Também posso ver gente de todas as idades, desde senhores e senhoras com cabelos brancos até crianças, passando por uma maioria de jovens, que são a linha de frente na entrada da estufa. Somos a única equipe de imprensa presente na cobertura ao vivo da manifestação. Não podemos nos aproximar muito porque este movimento é bastante hostil à presença de jornalistas, mas acho que vocês podem ouvir os gritos de ordem deles pelo meu celular. Um instante, vou ajustar o fone direcional do TalkCel para tentar captar o som... Lá vai.

[Multidão] ... com a comida de laboratório! Não somos cobaias das multinacionais! Fora com a comida de laboratório! Não somos cobaias das multinacionais! Um, dois, três, quatro-cinco-mil, queremos que os transgênicos vão pra puta que o pariu! Um dois, três...

“Era uma vez um mundo” de Antonio Luiz M. C. Costa (o mesmo autor desta resenha) é um dos exemplos de “solarpunk” desenvolvido como retrofuturismo e como uma sequência (décadas depois) da noveleta “Ao perdedor, as baratas” da antologia Dieselpunk. Imagina-se aqui um desenvolvimento social e tecnológico muito mais rápido do que o da história real, de modo que personagens históricos como Luís Carlos Prestes, Rosa Luxemburg, George Orwell, Werner Heisenberg e Filippo Marinetti (em papéis diferentes do que tiveram na realidade) vivem uma economia socialista e sustentável de um mundo politicamente unificado, mas não isento de conflitos e problemas – neste caso, uma trama terrorista. Patrícia Galvão, escritora, artista, jornalista e militante da época, protagoniza a história como repórter da web. Amostra:

– De Cosmópolis, Raul Bopp, presidente da Comissão de Ciência e Cultura do Conselho da União. Pronto para ir pro moquém e ser devorado pelos nossos cibernautas, Deputado?

– Certamente, com prazer! Espero ser saboroso! – Sorriu, procurando parecer à vontade.

– Bom, o caso da Olga e Luís Carlos fez a audiência do acompanhamento da Missão Ares bombar como nunca. Superou o lançamento, a chegada, o desembarque e a descoberta dos bacterioides vivos em Hellas. Nestes dois anos e pouco, o público se interessou menos pelos avanços científicos do que pela vida pessoal dos cosmonautas. Pergunto: a União das Nações gastou cinco bilhões de cômputos só para criar a novela romântica mais cara da história?

A pergunta era inesperada, mas não agressiva, era o tom provocativo de quem realmente procura respostas convincentes. Seria bom que as tivesse.

– Eh, Pagu, eh! Suponho que a pergunta seja retórica, não creio que você pense assim... – Pareceu que ia enrolar, mas de repente mudou de ideia. – Olha, dito de outra maneira, a missão custa um cômputo a cada habitante do planeta, um dia de salário mínimo. Na parte que me toca, contribuo com prazer e não vejo o interesse pela convivência deles como uma perda de tempo, de jeito nenhum! – Gesticulou, entusiasmado.

– Por quê, Raul? Que há de bom em observar e discutir o que se passa a cada dia e a cada momento com sete pessoas reais enclausuradas juntas, acordando, brigando, trabalhando, almoçando, namorando? Estivessem numa casa em, sei lá, Jacarepaguá, seria um divertimento meio besta e mórbido, não é? Por que é diferente numa nave ou numa base marciana?

“Fuga”, do estudante de computação paulista Gabriel Cantareira, é o texto mais fraco da coleção. Um grupo de empresas reconstruiu o centro de São Paulo, cidade devastada por uma guerra mundial nos anos 2030 e em troca obteve carta branca para governá-la à sua maneira, usando tecnologias baseada em energia solar. Uma jovem descobre que essas empresas conspiram para provocar uma catástrofe que lhes permita se apossar de todo o país, copia as provas num cartão de memória e passa a noveleta inteira fugindo pela cidade, apesar de ser filha de um desses grandes empresários. É uma trama que com uma perseguição mais elaborada, bons atores e técnicas hollywoodianas poderia servir de passatempo no cinema, mas num texto canhestro soa óbvia, aborrecida e repetitiva. O fato de vir entremeada de discursos soporíferos sobre ideias políticas confusas e simplórias não ajuda. Amostra:

Seguranças uniformizados e equipados apareceram em corredores e escadas nas extremidades da estação. Ela já havia visto mais seguranças que o normal na plataforma da Trianon-MASP; não sabia se era de fato por sua causa, mas havia conseguido entrar no trem antes que fosse forçada a descobrir. Os seguranças da estação Paraíso pareciam procurar alguém, desta vez de uma forma bem menos delicada, abrindo caminho entre as pessoas presas no local. O modo como vinham diretamente em direção ao trem eliminou qualquer dúvida. Ela abaixou a cabeça e andou pela plataforma. Ambas as estações também possuíam dezenas de câmeras e sensores, e ela provavelmente estava passando à vista de todos eles.

Portas fechadas, como sair daqui? Vamos, pense.

Mariana encontrou o que poderia ser uma rota de fuga enquanto ouvia os seguranças questionarem os passageiros por informações sobre uma terrorista procurada que tinha uma descrição desconfortavelmente parecida com a sua. A estação estava sendo expandida e havia várias seções em obras, entre elas uma nova plataforma que conectava à que ela se encontrava agora. Aparentemente, o sistema de segurança do corredor em construção ainda não havia sido conectado à central da estação, já que os portais ainda estavam abertos. Assim que ouviu uma comoção atrás de si e notou pessoas apontando em sua direção, a jovem passou pelas faixas de isolamento das obras sem pensar duas vezes e correu.

“Gary Johnson”, do professor de literatura gaúcho Daniel I. Dutra, é uma história curiosa, narrada pelo suposto bisneto de um empregado do padre gaúcho Landell de Moura, famoso por experiências com ondas hertzianas nos primeiros anos do século XX que o fizeram um dos inventores do rádio. Ao procurar documentos do bisavô italiano para solicitar dupla cidadania, o narrador encontra papéis que revelam a colaboração de Landell de Moura com um físico estadunidense racista numa pesquisa muito mais complicada e perigosa, que resulta na descoberta de uma fonte de energia alternativa tão eficiente quanto antiética. A despeito de ocasionais redundâncias e outros deslizes de linguagem, o bom manejo das revelações e do vocabulário permite que o narrador descreva em segunda ou terceira mão um passado para ele já distante e mesmo assim consiga fascinar o leitor e transmitir suspense. Amostra:

Da porta dos fundos da igreja, que dava para o porão, meu bisavô ouviu o que ele descreve como “o grito mais angustiante que uma pessoa podia emitir”. Ao tentar abrir a porta localizada no chão, cuja escadaria dava acesso ao porão, meu bisavô afirma que seu corpo atravessou a porta como se ela fosse “feita de ar”. As cores fortes e brilhantes cobriam as paredes e dificultavam sua visão, forçando-o a cobrir os olhos para não ficar cego, de forma análoga como alguém cobriria o nariz para não sufocar em meio a fumaça. Tudo que ele pôde ver foi um borrão azulado imenso à sua frente, cercado de formas indefinidas. No meio daquele cenário que ele não conseguiu encontrar palavras para descrever, limitando-se a afirmar que era como estar mergulhado num pesadelo, logrou reconhecer a máquina oval. O que diferenciava a máquina das demais ocasiões em que ele a havia visto de relance era que o cilindro transparente no topo exibia uma rachadura minúscula. A origem do inferno de cores parecia vir daquele ponto específico.

“Xibalba sonha com o Oeste”, do funcionário e estudante carioca André S. Silva, é uma história alternativa tão exótica que é difícil dizer se pertence ao passado, presente ou futuro. É ambientada na “cidade-estado da Guanabara”, o Rio de Janeiro de um mundo que, por razões não explicadas, divergiu tanto do nosso que uma civilização indígena (mais precisamente asteca e tupi) governa as Américas e de alguma maneira extrai energia elétrica dos céus sob o domínio tecnológico e político do Império Chinês. A protagonista é uma professora de Arariboia (Niterói) cujo pai foi supostamente sacrificado como traidor há muitos anos e se envolve numa conspiração contra o poder vigente, liderada por um heroico subversivo. Vale pela ousadia, mas a tentativa de descrever esse universo paralelo tão diferente da nossa realidade deixa a desejar pela falta de autenticidade das crenças, costumes e nomes supostamente indígenas. Entre os personagens, por exemplo, encontram-se um Luc, uma Tayanna, uma Iracema (nome que não é realmente indígena, mas um anagrama de “América” inventado por José de Alencar) e um grupo de maias rebeldes chamados “filhos de Palenque” (palenque, “fortificação” em castelhano, é o nome dado pelos espanhóis a um complexo de ruínas maias em Chiapas cujo nome nativo era Lakam Ha, sede da cidade-estado de B’aakal). Mesmo o nome da protagonista, “Maiara”, é uma corruptela portuguesa do tupi Mba'e îara (senhora das riquezas).  Amostra:

– Tenham fé no futuro, minhas crianças. – Maiara suspirou num tom maternal. – Sempre há esperança e sabem por que?

A resposta da turma veio em uníssono:

– Porque Quetzal-Tupã vela por nós!

– Exatamente – A professora assentiu, satisfeita. – Quetzal-Tupã nos dá tudo e é responsável por tudo à nossa volta. Ele nos traz as chuvas e com elas a energia, e sussurra boas ideias para os homens enquanto dormem, permitindo que construam algo tão maravilhoso quanto Xao-Kuna, e suas pontes sobre os mares de gelo. Não há nada além de bondade em nosso criador. Ele sempre irá nos proteger, e essa é...

– A verdade única! – Todos responderam numa só voz.

Maiara sorriu, compartilhando da mesma convicção inabalável. Da mesma inocência.

“Sol no Coração”, da editora de vídeos paraense Roberta Spindler, repete, curiosamente, o tema pouco plausível de “O Confronto dos Reinos”: humanos adaptados para viver diretamente de energia solar e a resistência a essa mudança. Mas neste caso, a questão é tratada sem sarcasmo e hostilidade e com sensibilidade e inteligência. Existe uma cirurgia que implanta uma tatuagem de nanodispositivos e placas solares necessária para evitar os efeitos nocivos de “explosões solares” e que ao mesmo tempo proporcionam fotonutrição e chegou a hora de fazer a delicada operação numa criança fisicamente frágil. O pai, que sente como uma perda o fato de não mais se alimentar, acha que as pessoas deveriam poder escolher e se desentende com a mãe, cuja família pagou caro para que ela pudesse ter seu implante e sobreviver. Amostra:

Ele a envolveu com os braços – ambos cobertos por uma espessa linha negra que começava nos pulsos e ia terminar na base do pescoço – e a beijou na nuca.

– Aterrorizado. E você?

Antes de responder, ela fechou os olhos e abaixou a cabeça, deixando-se distrair por aquele breve carinho.

– Não queria acordar. Será que isso responde a sua pergunta?

De mãos dadas, caminharam até a sacada espaçosa e deixaram que a luz do sol banhasse seus corpos nus. De maneira relaxada, ele fechou os olhos e sentiu uma leve descarga elétrica percorrer as várias tatuagens que o cobriam. No mesmo instante, estava bem mais disposto, renovado.

– Você acha que ele vai sentir falta de tomar café da manhã? – Perguntou de maneira tímida, ainda mantendo os olhos cerrados.

“Azul Cobalto e o Enigma” é do físico e escritor carioca Gerson Lodi-Ribeiro, o organizador da coletânea, mas de certa forma é a noveleta que mais se afasta de sua proposta original. Trata-se da extrapolação para o futuro de uma série de contos e noveletas de história alternativa do mesmo autor (incluindo “Consciência de Ébano”, publicada em Vaporpunk) que supõe a consolidação, sob a liderança dos descendentes de Ganga Zumba, de um Reino de Palmares independente, rival do Brasil. Como a noveleta pressupõe que o leitor conheça os episódios anteriores (brevemente recapitulados), não é preciso esconder que o segredo das vitórias de Palmares é um vampiro imortal capturado pelos primeiros quilombolas, o “Enigma” do título. Para enfrentá-lo, os brasileiros criam um “super-herói” provido de um traje biocibernético equipado com bateria atômica e “batacitores quânticos”. O traje pode assumir qualquer cor, mas seu usuário, o tenente Jonas Aranha convertido em “Capitão Cobalto”, prefere “azul cobalto e o pontilhado de estrelas douradas característico do pavilhão brasileiro” (embora essas estrelas sejam brancas, ao menos em nosso mundo). Salvo pelo inexplicado “batacitor” (algo como um capacitor que seria tão poderoso quanto uma bateria), as energias alternativas e a sustentabilidade não têm nenhum papel nessa trama passada em boa parte no espaço e é preciso um pouco de boa vontade para aceitar que um vampiro vencido ou dominado com relativa facilidade por incas e quilombolas do passado se torne um osso tão duro de roer para inimigos que dispõem de tecnologias tão avançadas. Vale, porém, como uma eletrizante aventura pulp de espionagem e ficção científica. Amostra:

Atado em seu leito para evitar que um movimento brusco espúrio o arremessasse camarote afora, Jonas Aranha lança um olhar intrigado ao holograma de Júpiter que gira vagaroso no teto do compartimento. Esboça um sorriso. Mesmo nesta aceleração gravitacional inferior à lunar, jazeria inerme, não fosse a proteção da vestimenta.

Uma semana em Galileo e nem sinal do adversário. O pior de tudo é a sensação de que o tal Enigma, sejam quem for ou o que for, soube de sua vinda. Caso contrário, como explicar que houvesse desaparecido ou, hipótese alarmante, se ocultado, indetectável aos sensores de sua VIB?

O mais provável é que Enigma tenha se evadido da base científica internacional para outro sítio qualquer de Europa. Joanas não exclui sequer a possibilidade de o adversário ter subido para uma das três estações orbitais do satélite. Embora os registros de lançamento não indiquem partidas de veículos tripulados após sua chegada procedente de Io na Oswaldo Cruz, é possível que a inteligência palmarina disponha de naves não registradas. Não pretende incidir no velho erro ingênuo de subestimar o engenho do inimigo, responsável por boa parte dos malogros da história militar brasileira.

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