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Sherlock Holmes em oito reencarnações

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 09/02/2012 20h38, última modificação 12/02/2012 13h39

Desde o início, o detetive da Baker Street se fez notar como um personagem capaz de ganhar vida própria, para além da vontade do autor. Em 1893, quando Conan Doyle quis livrar-se dele para se concentrar em romances históricos mais sérios e o matou em O Problema Final, fãs e editores indignados o obrigaram a ressuscitá-lo e a continuar escrevendo suas histórias. Muitos acreditaram que seus personagens realmente existiam e escreveram cartas para o inexistente endereço da Baker Street 221B.

Escrever histórias apócrifas sobre Holmes é uma tradição inaugurada em 1907, vinte anos antes da morte de Conan Doyle. Os pioneiros foram um time de escritores alemães dentro de uma série chamada Arquivos secretos de Sherlock Holmes, traduzida em francês. E desde que Holmes caiu oficialmente em domínio público, a tentação de reinventar o personagem e suas histórias tornou-se irresistível para seus fãs em todo o mundo. Inclusive no Brasil, onde a Editora Draco acaba de lançar Sherlock Holmes – Aventuras Secretas (264 págs., R$ 46,90), organizada por Carlos Orsi e Marcelo Galvão. Os contos, na maioria, valem a leitura.

A introdução, de Carlos Orsi, lembra como, em 1911, o padre anglicano Ronald Knox fez uma palestra intitulada Um estudo da literatura de Sherlock Holmes, no qual aplicava aos romances e contos publicados até então por Conan Doyle os mesmos métodos aplicados pela Alta Crítica aos Evangelhos, tratando o detetive como realmente existente e procurando, pela primeira vez, atar as pontas soltas deixadas por Doyle.

Vale acrescentar que o exemplo frutificou e talvez Holmes tenha sido o primeiro personagem de ficção a ganhar uma “biografia” detalhada que não foi obra do criador. Escrita por William Stuart Barring-Gold em 1962, procurava preencher os claros e resolver as contradições das narrativas ficcionais e garantia que o detetive morrera em 1957, aos 103 anos de idade.

Engano de Barring-Gold. Ele morreu em 1967, mas Holmes lhe sobreviveu e continua a reaparecer quando e onde menos se espera, inclusive no Brasil, numa das obras fantásticas do escritor José J. Veiga (O Relógio Belisário) e no primeiro romance de Jô Soares (O Xangô de Baker Street), ambos de 1995.

Nos anos 70, enfrentou seu maior rival em fama na ficção britânica de seu tempo no Sherlock Holmes vs. Dracula de Loren D. Estleman. Voltou a fazê-lo, com menos felicidade, no Anno Dracula de Kim Newman. O primeiro dos oito contos da coletânea da Editora Draco, A aventura do americano audaz, de Octavio Aragão, retoma esta tradição específica. Mas nesta ficção alternativa, a tentativa de reduzir os personagens de Bram Stoker e sua aventura às premissas racionalistas do universo do detetive acabou por soar um tanto forçada, resultando em deduções pouco convincentes, numa trama insatisfatória e num desfecho psicologicamente inverossímil.

A tentativa de escrever num estilo compatível com a época se perde em escorregões, como chamar de “cabograma” um telegrama transmitido de Londres para uma localidade rural pouco distante (a palavra era usada para mensagens transmitidas por cabo submarino, ou seja, internacionais e intercontinentais) e de fazer Lord Godalming ameaçar “deportar” Holmes de sua propriedade (“deportar” significa banir alguém do território de um país) e usar anacronicamente a convenção de indicar as horas após o meio-dia segundo a notação de 24 horas, que só seria usada no século XX. Amostra:

Cheguei morto de fome aos aposentos na Rua Baker, por volta das dezoito horas, mas parei na escada ao perceber vozes desconhecidas. Um jovial Sherlock Holmes incitou-me a entrar.

– Vamos Watson. Esperávamos sua chegada para dar prosseguimento à conversa.

Entrei, esquecido da fome, e deparei-me com três pessoas, um casal na faixa dos vinte e cinco anos, mas cuja metade masculina aparentava mais idade, com uma descuidada cabeleira encanecida. A moça, bela porém magra a ponto de me fazer questionar sua saúde, mantinha-se de pé, diferente do suposto marido, empertigado em uma de nossas cadeiras, olhar alerta e desconfiado para qualquer coisa que se mexesse; no caso, eu. O terceiro visitante, recostado na estante maior, aparentava a mesma idade dos outros dois, mas certa falta de correção no corte das roupas, cujo tecido era de qualidade indiscutível, emprestavam-lhe uma aparência desajeitada, como se estivesse afogado na vestimenta de outra pessoa.

– Watson, diga olá ao casal Jonathan e Wilhermina [sic] Harker e ao Dr. John Seward – e os olhos de Holmes completavam capciosos, “eu não disse?”.

(Spoiler: além de descobrir e diagnosticar uma doença nova com métodos insuficientes, Holmes provoca uma luta corporal gratuita com um personagem que supunha ser portador de uma doença mortal e contagiosa, descobre e diagnostica essa doença com métodos absolutamente insuficientes e convence várias pessoas a cometer suicídio de maneira cruel e descabida, sem nenhuma delas discordar ou desobedecer).

Do organizador Marcelo Galvão, o segundo conto, Das reminiscências do Dr. Ormond Sacker, Clínico Geral, é menos ambicioso e mais bem-sucedido. Nesta ficção alternativa, o Dr. Watson nunca chegou a ser o parceiro de Sherlock Holmes porque adoeceu quando ia se mudar para a Baker Street e seu lugar foi tomado pelo médico do título. Algum tempo depois, Watson é assassinado e é Sacker quem relata a investigação por Holmes.

Ao contrário de Watson, o Dr. Sacker, banal e preconceituoso, nada compreende dos métodos do detetive. Sua mediocridade faz ressaltar que o médico criado por Conan Doyle, ao contrário da impressão popular, é um personagem corajoso, inteligente e competente, que só parece menos capaz por ficar sempre um pouquinho atrás do genial detetive. A linguagem é adequada, a trama verossímil e bem construída e a exploração irônica da cultura da época e da obtusidade de Sacker, um tacanho pequeno-burguês vitoriano, faz desse conto o mais divertido da coletânea. Amostra:

– Minha esposa precisa de sua ajuda, Dr. Sacker – disse Richard Bullock, assim que entrei na sala. Além do senhorio, encontrava-se no cômodo o novo inquilino que ocupava, desde aquela tarde, os antigos aposentos de Simmons. Eu esperava que os Bullocks tivessem melhor sorte com esse homem, mas duvidava, já que ele, um velho de barba cheia e grisalha, tinha um nariz enorme que denunciava uma provável origem semita ou talvez mediterrânea. Qualquer que fosse sua ascendência, protegi minha carteira quando ele passou por mim e subiu para seu quarto.

– Eloise está com todos os sintomas do histerismo – Bullock continuou, enquanto caminhávamos para o aposento do casal, localizado nos fundos do andar térreo. – Como não podemos mais contar com o Dr. Watson, sugerira que eu contratasse o senhor, antes que algo pior aconteça.

– Fez a coisa certa. Asseguro-lhe que posso muito bem lidar com a hiperemia pélvica de sua esposa.

O quarto dos Bullocks era minúsculo, decorado com manchas de umidade e móveis surrados, além de um biombo que uma vez fora vermelho, mas que o tempo transformara em um rosa pálido. Eloise Bullock me aguardava de pé, enconstada na cama, as mãos pequeninas e bem-feitas cruzadas na frente do corpo, o olhar fixo no chão.

(Vale notar: Ormond Sacker foi um nome cogitado por Conan Doyle para o coadjuvante de Holmes, antes de decidir chamá-lo John Watson)

Em A aventura do falso Dr. Watson, de Carlos Orsi, o coadjuvante de Holmes é mais uma vez tirado de cena. Desta vez pelo próprio detetive, que assume a função de narrador. Viúvo, Watson é apresentado a um “grupo de espiritualistas” por nada menos que Arthur Conan Doyle. Holmes descobre que o suposto médium em torno do qual se reúnem é um antigo agente de seu arqui-inimigo Moriarty. Para investigá-lo, Sherlock faz seu irmão Mycroft enviar Watson ao exterior, disfarça-se do seu amigo e assume seu lugar no círculo espiritualista para investigar e desmascarar seus organizadores.

O conto é interessante ao explorar a contradição entre a famosa credulidade de Doyle, disposto a acreditar em fraudes hoje risíveis sobre fadas e espíritos e o disciplinado ceticismo de seu mais famoso personagem, e também ao analisar e desvendar várias das técnicas de ilusão e prestidigitação usadas para simular espíritos e fenômenos psíquicos, além de fornecer curiosas informações científicas paralelas. O ponto fraco é que este Holmes “sai do personagem” em relação a si mesmo (como temia fazer ao encarnar John Watson) e fica pouco convincente como o detetive de Conan Doyle ao atropelar a lei e a ética com indiferença na caça aos criminosos, enquanto deixa de exibir vários dos pequenos defeitos e peculiaridades do original. Amostra:

Mycroft olhou de lado, desconfortável. Eu sabia que a lisonja poderia afetá-lo até certo ponto, mas que ele logo veria, também, a necessidade lógica do plano.

– Dr. Watson tem ferimentos de guerra, e recebeu baixa honrosa. Não podemos simplesmente convocar um reservista ferido a serviço da Coroa, a menos que haja uma emergência...

– Diga-lhe que é uma missão secreta. Onde é que nossos homens estão sendo atingidos por uma doença misteriosa...?

– Birmânia.

– Mande-o para lá. Para investigar a causa da moléstia.

– “O beijo zayat” – disse Mycroft, movendo a boca como se mastigasse algo amargo. – Parece ser algum tipo de ataque terrorista. Uma versão oriental da varíola que os americanos usaram contra seus índios. Suponha que ele fique doente, também?

– Então, mande-o para Berlim. Ou Atenas. Ou Buenos Aires. Mas tire-o de Londres por pelo menos um mês.

– E o motivo para essa farsa melodramática seria...?

– Investiguei alguns dos espiritualistas com quem ele anda se reunindo. Segui-o, misturando-me aos invisíveis de Londres... varredores de rua, acendedores de postes, cocheiros, leiteiros, carteiros, entregadores. O suposto médium do grupo, Finch, eu o conheço. Era um batedor de carteiras que atuava preferencialmente na saída da ópera, até que ficou cego. Desde então, vive de uma pensão por invalidez, paga pela organização de Moriarty aos seus.

– E Conan Doyle não desconfia de nada? Foi ele quem apresentou Watson ao grupo, diz você.

Encolhi os ombros:

– Conan Doyle é um caso à parte. Um homem extremamente inteligente, mas sua inteligência tem um ponto cego, que é o sobrenatural. Suas funções críticas simplesmente não funcionam aí. Um dia, temo, acabará enganado por crianças, acreditando em sílfides e dríades.

(Vale notar: “beijo zayat” é uma alusão ao primeiro conto de Sax Rohmer sobre o “gênio do mal” Fu Manchu, encarnação do “perigo amarelo” no Ocidente.)

De Cirilo Lemos, O caso do detetive morto é um dos melhores contos da antologia. Aqui, o Sherlock Holmes propriamente dito não existe e seu lugar é tomado por seus principais inspiradores. Um é o modelo literário, o detetive C. Auguste Dupin criado por Allan Poe. O outro é o modelo da vida real, Dr. Joseph Bell, cujas habilidades dedutivas impressionaram seu discípulo Conan Doyle a ponto de servir de inspiração a seu próprio detetive.

Neste conto, Doyle é o “Watson” do Dr. Bell enquanto este se dedica a desvendar um evento aparentemente de pouca importância – o desaparecimento de um livro legado por Dupin ao Dr. Bell. A trama surpreende com seu engenho à medida que o médico desenrola o fio da meada que leva à causa da morte misteriosa do detetive francês e a aventura é narrada numa linguagem eficaz em evocar a atmosfera e os cenários físicos e sociais do mundo do Sherlock Holmes original, sem deixar de ser clara e fluente. Amostra:

Tomamos um táxi até St. Roch, uma ruazinha sinuosa de comércio modesto. Nosso destino era o Antiquaire Violet, uma pequena loja encravada numa esquina de pouco movimento. Não fosse a plaqueta onde se lia “aberto”, diria que o lugar estava abandonado há anos.

Centenas de livros e quinquilharias se amontoavam no espaço exíguo, abarrotando prateleiras, mesas, formando pilhas no chão. A sineta anunciou nossa chegada. Um rapazote desceu apressado por uma escada nos fundos da loja e veio em nossa direção.

– Bom dia, cavalheiros. Sou Antoine. Posso lhes ser útil?

– Certamente, meu jovem – respondeu Dr. Bell. – Poderia nos ajudar e encontrar o que procuramos.

– Se estão procurando por livros raros, vieram ao lugar certo. Temos aqui um exemplar de Spinoza que...

– Procuramos M. Armand.

– O entusiasmo de vendedor do rapaz desvaneceu-se. Ele balançou a cabeça timidamente e desapareceu escada acima. Voltou pouco depois, acompanhado de um homem grisalho, Armand.

– Vieram a mando da senhoria? – ele parecia nervoso.

– Na verdade, não. Queremos saber de certo livro, e fomos informados de que o senhor poderia nos ajudar.

– O homem enxugou a testa com um lenço.

– E que livro seria esse?

– Um livro árabe.

O caso do desconhecido íntimo, de Romeu Martins, mantém Sherlock Holmes e John Watson, mas lhes dá destinos completamente diferentes. Em vez de ser um brilhante detetive, Holmes industrializa o reagente para hemoglobina cuja invenção anunciara no primeiro romance, Um estudo em vermelho e se torna um próspero empresário. Quanto a Watson, enlouquece logo depois de conhecê-lo, delira com aventuras detetivescas que imagina viver em sua companhia e escreve os romances e contos que conhecemos até que, indigente e agonizante, é recolhido a um hospital.

Ao ler seus escritos, o médico que o atende avisa Holmes – protagonista e narrador – que visita o Watson já inconsciente, mas nada compreende. Infelizmente, nem o leitor. Nenhuma revelação interessante sobre a causa dos delírios, nenhum lampejo de inspiração sobre o relacionamento da dupla ou a natureza da loucuraem geral. Este Holmes, talvez o mais obtuso já imaginado, vê Watson como uma monstruosidade incompreensível e sem sentido. Compara-o ao homem-elefante Joseph Merrick, atendido no mesmo hospital e não mostra nem sombra da perspicácia que o tornou célebre na pena de Conan Doyle e que retorna na maioria dos contos desta antologia.

Desajeitado na forma e prosaico no conteúdo, o conto trivializa seus personagens e lhes rouba o encanto sem nada ter para dar em troca. Notam-se também alguns anacronismos: Watson recebe medicação intravenosa, prática criada só nos anos 1930 e Holmes dirige uma grande empresa de pesquisa especializada, décadas a frente do tempo. Amostra:

O jovem médico se aproximou de mim e tocou em meu ombro, fazendo o mesmo rosto que, presumo, deveria dedicar àqueles a quem era obrigado a dar notícias sobre a proximidade da morte.

– Seria tão fácil quanto falso eu dizer que posso imaginar o que sentiu ao ler aqueles textos. Creio que ninguém poderia se pôr no lugar do senhor, para saber o que se passa em seu espírito com toda esta situação tão inusitada.

Não posso negar o quanto estava confuso desde que, em meu escritório, recebera o baú repleto de papéis escritos com uma caligrafia que ficava mais errática com o tempo. Desvendar a forma, no entanto, não era mais difícil do que aceitar o conteúdo, com tudo o que dizia respeito a mim. Ou, pelo menos, a uma versão possível de mim, da minha vida, do meu passado, e até mesmo, do meu futuro...

Por isso tudo, com tamanha confusão, não me sentia à vontade para desabafar a respeito com o médico, que conheci superficialmente anos antes e de quem não ouvira falar desde então. A única coisa que me ocorreu responder foi:

– Esta parte do hospital é bem mais tranquila que o ponto onde entrei, não?

De Alexandre Mandarino, A aventura do penhasco dos suicidas é bem mais interessante. Passa-se muitos anos depois das aventuras clássicas, durante a II Guerra Mundial, quando um inspetor de polícia investiga o aparente suicídio de um homem cujo corpo é encontrado ao pé do famoso penhasco Beachy Head e, a conselho de seu superior, consulta um senhor aposentado que vive ali perto e é conhecido como Sherringford, um dos nomes cogitados por Conan Doyle para o detetive, antes de decidir-se por Sherlock.

Ainda que soe um tanto melodramática, a trama é inteligente e explora de maneira sensível e verossímil a dinâmica de uma família e a psicologia de seus membros. E apesar de ser o único conto da antologia a romper com a tradição sherlockiana das narrativas em primeira pessoa, é o que melhor preserva o sabor de Conan Doyle. O inspetor Wells, ao surpreender-se com os métodos e deduções do nonagenário detetive, traz de volta o frescor da novidade e o senso de deslumbramento das primeiras aventuras com Watson. Amostra:

Uma curta viagem de carro largou Sherringford e Wells na delegacia de polícia de Eastbourne. Era o meio da tarde e estava um clima agradável, mas o ancião apresentou-se encapotado e andava lentamente. O médico-legista abriu a gaveta que continha o corpo do sapateiro. Feridas, cortes e hematomas horríveis cobriam seus braços, pernas e tórax. O rosto do morto estava perturbadoramente calmo, como se dormisse. O legista disse, em tom casual:

– Morto entre a meia-noite e as quatro da madrugada de ontem. Saudável, 35 anos. A autópsia não revelou sinais de álcool ou nenhum tipo de substância entorpecente. Deve ter caminhado no escuro e caído, ou simplesmente se jogado, Deus preserve sua alma. A causa da morte, obviamente, foram os ferimentos causados pela queda.

– Impossível – disse Sherringford.

– O quê? O que quer dizer, senhor? – perguntou o Inspetor Wells, enquanto o legista olhava o ancião com desprezo.

– Impossível. Quero dizer, o adjetivo que assinala a total incapacidade prática de um dado fato ter acontecido. Não pode ter sido assim.

De Rosana Rios, Um estudo em azul passa-se na São Paulo do ano 2000. O início do conto lembra o primeiro capítulo do romance inaugural de Conan Doyle, Um estudo em vermelho, trocando o Dr. Watson por um estudante de direito chamado Fernando que divide um apartamento do Centrocom Ana Rosa, uma bela recém-formada da Escola de Polícia, que estagia na sétima delegacia de polícia da capital, que fica na Lapa (Rua Camilo, 317, para ser preciso) que ocupa o lugar de Sherlock Holmes. Ela é chamada para ajudar no caso de uns velhos ossos descobertos na demolição de uma antiga pensão de imigrantes da Lapa, presumivelmente escondidos após um assassinato acontecido por volta de 1930 e descobre que a vítima fora um inglês que se pensava ter existido apenas na ficção.

A narrativa se afasta drasticamente, todavia, do idealista modelo britânico de Conan Doyle e Agatha Christie para se aproximar do estilo hardboiled dos romances policiais estadunidenses à maneira de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Quer dizer, uma abordagem mais realista da sociedade na qual os crimes são cometidos, das investigações na vida real (nas quais a precariedade de meios, as ameaças e as pressões administrativas e políticas, mais que as dificuldades lógicas, são os verdadeiros problemas) e da vida modesta de detetives menos brilhantes, mas mais humanos e sensuais.

O clima noir, as expressões, cenários e hábitos familiares ao leitor brasileiro (ou pelo menos paulistano), a humanidade dos protagonistas e a linguagem moderna, informal e fluente deveriam fazer desse conto o mais verossímil. Escorrega, porém, na frágil construção da trama, que se baseia em pressupostos exageradamente inverossímeis. Amostra:

Então, numa sexta-feira fria e chuvosa, saímos juntos pela primeira vez. Passava de meia-noite e eu estava no quarto digerindo um artigo sobre direito corporativo, quando ela bateu na porta antes de entrar. Eu já ia fantasiando uma mulher sedutora, num negligé transparente, irrompendo apaixonadamente porta adentro... Mas Ana entrou usando casaco e botas de sola grossa, com o celular numa mão e dois guarda-chuvas na outra.

– Fê, você me faria um favor enorme? – ela perguntou.

Havia recebido um telefonema da sétima DP, onde estagiava. Sempre que estourava alguma emergência à noite ou em feriados, Ana Rosa era chamada. Estava se especializando em averiguações tediosas, investigações bizarras, interrogatórios desimportantes.

– Tenho de encontrar um detetive na Lapa. Disseram que a parede de uma casa podre de velha desabou e revelou uns ossos humanos. É coisa de no máximo uma hora, lavrar a ocorrência e esperar a polícia científica. Se me levar lá, fico em dívida com você...

Eu não lhe negaria absolutamente nada nesta vida e provavelmente nas próximas. Levaria Ana Rosa em meu fiel e detonado carrinho até a China, se preciso. E à noite, com chuva e avenidas congestionadas, ir do Centro de São Paulo à Lapa talvez fosse mais difícil que atravessar a Ásia para comprar rolinhos primavera em Beijing.

(Spoiler:  a trama pressupõe uma suposta conspiração mundial para ocultar a existência real de Sherlock Holmes e John Watson, séria a ponto de assassinar qualquer um que se aproxime da verdade. Por cabeludas que pudessem ser as questões de Estado em que eles tivessem se envolvido na Inglaterra vitoriana, que importariam ao Brasil e ao mundo moderno, mais de um século depois? O conto seria genial se conseguisse dar a isso uma explicação plausível, mas como não o faz, parece fazer pouco caso da inteligência do leitor – coisa nada recomendável numa trama detetivesca, ainda mais quando quer parecer realista.).

O último conto, O punhal adamantino do vazio, de Lúcio Manfredi, tem a abordagem mais original e instigante. Passa-se logo após a luta de Sherlock Holmes com o professor Moriarty, quando ambos caem nas cataratas de Reichenbach. Como o conto de Carlos Orsi, explora a contradição entre o racionalismo cientificista do personagem Sherlock Holmes e a credulidade espiritualista do autor, mas no sentido diametralmente contrário.

Desta vez, é Conan Doyle quem está certo e as habilidades dedutivas de seu detetive chegam repetidamente a conclusões totalmente erradas. Seus métodos usuais mostram-se impotentes ante uma realidade mística na qual as fadas existem, o cão dos Baskervilles é realmente uma entidade sobrenatural, a vida após a morte é uma possibilidade e nada parece fazer sentido. Uma história interessante e psicologicamente perspicaz, prejudicada apenas pela linguagem mais arrastada e sobrecarregada que o necessário. Amostra:

Uma débil luminosidade coruscou do meu lado esquerdo, desviando-me a atenção. Olhei na direção do brilho. Uma mariposa com as asas fosforescentes adejava junto ao canto onde a parede e o teto se encontravam. O formato das asas era semelhante ao da mariposa Vandeleur, descoberta por Rodger Baskerville nos tempos em que posava de naturalista. Dois detalhes contrariavam essa identificação. O primeiro era a sobredita fosforescência, uma característica absolutamente inédita nessa raça de mariposas. O segundo era o formato do corpo que, àquela distância e semioculto nas sombras, pouco se assemelhava ao de um inseto. Por uma ilusão das mais curiosas, dava a impressão de ter algo singularmente humano e eu acreditava, até mesmo, entrever um par de pernas balouçando-se no ar.

Bizarrices entomológicas, entretanto, estavam longe de ser a minha prioridade naquela noite. Ao relancear para a janela do meu apartamento, constatei que o falso Holmes já não estava em sua poltrona, que era a minha. Um frêmito de excitação tomou conta do meu corpo ao ver seu vulto ganhar a calçada, envolto num sobretudo, com o indefectível boné de couro de veado protegendo-lhe a cabeça. Corri em direção à porta, não sem notar que a estranha mariposa também se havia ido. Naquele momento, isso pouco se me dava.

A caçada ia começar.

 

 

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