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Sabu: um cabo Anselmo cyberpunk

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 12/03/2012 18h32, última modificação 12/03/2012 18h32

O mundo dos ativistas virtuais foi surpreendido em 6 de março com a notícia de que Sabu, o líder do grupo LulzSec (laughing out loud at security, “rindo alto da segurança”), ramo do Anonymous conhecido por ataques a sites de empresas e governos por diversão, mas também em nome de causas políticas, atuava como espião e agente provocador do FBI desde 7 de junho de 2011.

Na manhã desse dia, Sabu, cujo nome verdadeiro é Hector Xavier Monsegur, um portorriquenho desempregado de 28 anos que criava duas primas pequenas (filhas da tia, presa juntamente com o pai de Sabu por tráfico de heroína) vivia de golpes com cartões de crédito, foi detido por agentes federais e ameaçado com 124 anos e meio de prisão, com a promessa de redução da pena se colaborasse com a polícia na captura de outros integrantes do grupo.

Ele tinha sido, por sua vez, denunciado pela hacker Jennifer Emick, que diz ter sido assediada online pelo Anonymous após criticar alguns ataques do grupo, ao qual havia pertencido. Em retaliação, ela e colegas da empresa Backtrace Security resolveram caçar a liderança do LulzSec. “Levamos só quatro horas para encontrar Sabu”, disse ela ao site Cnet. Seguindo nomes que julgava ter relação com o grupo, descobriu um chat onde Sabu e colegas discutiam um ataque a uma empresa de segurança digital. Ela chegou a um post de Sabu sobre seu carro Toyota AE86 numa rede social, o identificou e o delatou ao FBI.

Sabu se confessou culpado das acusações e integrante dos grupos LulzSec, Anonymous e Internet Feds, prometeu colaborar com a polícia e assim se fez. O FBI usou um software para rastrear suas atividades online e vigiar com câmeras de vídeo tudo que fazia no seu pequeno apartamento em Manhattan. Ao ser dispensado, foi elogiado como um informante exemplar: “desde o dia em que foi preso, Hector cooperou com o governo proativamente. Muitas vezes passou noites em claro em conversas com os conspiradores para ajudar as autoridades a criarem processos contra eles”, afirmou um promotor. Ajudou a prender cinco outros hackers do LulzSec nos EUA, Reino Unido e Irlanda.

Vale notar que Sabu já tinha sido detido em 22 de junho de 2011, quando o LulzSec executou seus primeiros ataques ao governo brasileiro, derrubou temporariamente sites do governo brasileiro, tentou hackear a Receita Federal e publicou alguns dados pessoais da presidenta, de Gilberto Kassab e de alguns funcionários da Record. E a farsa já durava meses quando Sabu exortou os brasileiros a se rebelarem contra o governo Dilma no Twitter, “brasileiros, unam-se contra a corrupção e a censura!”, às vésperas das comemorações de 7 de setembro de 2011, apelo atendido por um punhado de “cansados”. Foi, portanto, com conhecimento do FBI. O governo brasileiro foi informado? Se não foi, recebeu explicações de Washington?

É interessante, também, como Sabu e seu colega Topiary (detido em julho) mantiveram a máscara durante tantos meses, divulgando bravatas e proclamações diárias e provavelmente iludindo muitos jovens ingênuos, do tipo que prefere ignorar as complexidades e contradições da realidade política e se convence facilmente de que um discurso exaltado e inflexível é necessário e suficiente como prova de sinceridade e de compromisso revolucionário. A penúltima mensagem de Sabu em sua conta no Twitter (@anonymouSabu) foi “O governo federal é conduzido por um bando de covardes fodidos. Não se entreguem a essas pessoas. Contra-ataquem. Sejam fortes”.

A última foi “Die Revolution sagt ich bin, ich war, ich werde sein”. É uma citação das últimas palavras de “A Ordem Reina em Berlim”, último artigo da revolucionária comunista alemã Rosa Luxemburg, pouco antes de ser executada por militantes de direita. Em tradução livre, “A revolução [amanhã se levantará de novo brandindo suas armas com estrondo e com suas trombetas] proclamará: ‘Era, sou e serei!’”

A ficção científica cyberpunk criou o mito do hacker humilde e heroico que, munido de esperteza e acesso à internet, derrota no anonimato os poderosos do mundo. A linhagem inclui o Case de Neuromancer, o Hiro de Nevasca, o V de V de Vingança, o Neo de Matrix e a Lisbeth Salander de Homens que não amavam as mulheres. Muitas pessoas jovens e bem-intencionadas parecem levar essa ficção romântica ao pé da letra, como foi o caso de Sabu, que iniciou sua militância virtual aos 16 anos, em 1999, protestando contra o uso da ilha portorriquenha de Vieques como alvo de testes de armas e operações da Marinha, cujas comunicações também tentou atrapalhar.

A máscara de V substitui o retrato do Che e o laptop do século XXI substitui o fuzil do século XX, assim como este substituíra a bomba dos anarquistas do século XIX, mas os novos aspirantes a revolucionários ignoram quão fácil pode ser rastreá-los caso se tornem realmente incômodos. Como foi o caso dos grupos Anonymous e LulzSec ao visar grandes empresas como a Fox, Sony e PayPal e ajudar o WikiLeaks com ataques a empresas financeiras que bloquearam as doações à organização e oferecendo-lhe arquivos secretos, inclusive os da empresa de espionagem privada Stratfor.

Com muito conhecimento de truques de programação e pouco de história e ciências políticas, os jovens hackers também parecem ignorar como seu ambiente virtual os torna ainda mais vulneráveis que os conspiradores do passado a métodos de infiltração e provocação bem testados desde o tempo de Napoleão III, quando já se dizia que cada célula radical inclui três agentes da polícia, seis inocentes úteis e, talvez, um ativista realmente perigoso.

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