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Rapaz encontra garota, uma história original. Sério.

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 08/10/2012 17h26, última modificação 08/10/2012 17h26

Se há um gênero do qual ninguém espera muita novidade é a comédia romântica. Por definição, o núcleo do enredo gira em torno da busca de amor por um ou mais protagonistas e (quase) sempre acaba por unir casais improváveis depois de muitas brigas e mal-entendidos. Não que isso necessariamente resulte numa obra inferior: muitos clássicos de William Shakespeare, Jane Austen, José de Alencar e Machado de Assis se enquadram nessa moldura. Também não chega a ser uma inovação combinar essa estrutura a elementos fantásticos que nem sempre a tornam menos previsível: é uma tradição que inclui tanto Sonhos de uma Noite de Verão de Shakespeare quanto Stardust de Neil Gaiman.

É agradável, contudo, encontrar uma agridoce comédia romântica de fantasia que, sem deixar de atender aos requisitos essenciais do gênero, consegue surpreender tanto na linguagem e no cenário quanto na maneira de conduzir e concluir a trama principal e as secundárias. A Morte é Legal, do autor mineiro que usa o pseudônimo de Jim Anotsu (Editora Draco, 320 págs., R$ 49,90) é uma fantasia moderna, ambientada numa cidade imaginária chamada Dresbel (misto de LonDRES e BELo Horizonte, mas com uma torre parecida com a Eiffel) e em seus submundos fantásticos, que incluem o mundo das fadas e o mundo dos ratos.

Andrew, um candidato a escritor de 19 anos, com poucos talentos além do sarcasmo, sem rumo na vida e desavergonhadamente emo e depressivo, mas com vergonha de quase tudo o mais que se possa imaginar, conhece uma garota chamada Ive (um tanto parecida com Björk), portadora de uma coelha falante, que lhe propõe saírem juntos em busca dos três nomes de um certo gato, senhor todo-poderoso de dezenas de universos. Se forem bem-sucedidos, o gato atenderá dois desejos. Ela quer fugir ao destino de herdar o negócio da mãe, nada menos que a Morte, a dama da foice, e ele quer conquistar Briony, uma garota alegre que toca violino numa banda de folk rock. Mas têm antagonistas de grosso calibre. De um lado, o mago Astrophel, que disputam o mesmo prêmio para escapar à morte que ameaça a ele e à fada Stella – que abriu mão da imortalidade para prolongar a vida do marido – após muitos séculos de casamento. De outro, Rayla, irmã mais velha de Ive, comanda a D.I.E. – a tropa de elite da Morte–  e quer impedir Ive de atingir seu objetivo e por em risco a ordem de todo o Universo. Enquanto isso, Amber, a irmã de Andrew, sonha aos quinze anos ser uma estrela do rap ao lado de seu amigo Jonas, vítima habitual do bullying de valentões.

A partir destas premissas, quem já tem alguma experiência de comédias românticas não terá muita dificuldade em prever o rumo geral do enredo. Mas pode apostar que será surpreendido – sem ser decepcionado – tanto com as peripécias quanto com os desenlaces. Como sugere essa sinopse, a trama tem um enorme potencial de absurdo, fantasia, humor e alusões culturais populares e eruditas que, o leitor fique sossegado, será muito bem explorado. A aventura fantástica de Andrew e a pé-no-chão de Amber abrem caminho tanto para um imaginário irônico e alucinado quanto para a realidade das ruas do século XXI e a cultura da música pop na qual jovens desesperançados buscam o sentido que não encontram em suas vidas. De brinde, vêm o prefácio mais honesto e provocante na história da literatura fantástica brasileira, de autoria de Jacques Barcia, e nas vinhetas de cada capítulo, frases de A Violinista de Fevereiro, o tal romance que Andrew luta ingloriamente para escrever. O único reparo a fazer é que a revisão deixou escapar muitos pequenos erros, dos quais o mais frequente é a troca indevida de pronomes retos por oblíquos.

O que não dá para mostrar só com o resumo é que a história é, além de tudo, narrada numa linguagem ácida e divertida, com frases bem sacadas, criativas e sinceras a cada passagem.. Um exemplo:

Ive levantou-se e encarou-o de uma forma séria. Havia um jogo nos olhos escuros dela. Um jogo de olhos capaz de fazer com que um urso faminto rolasse e fingisse de morto.

– Você realmente gosta dessa menina?

– Claro que sim.

– E se houvesse uma forma de você ficar com ela sem sofrer, você aceitaria?

– Se fosse possível... Quem não desejaria isso? Mas as coisas simplesmente não funcionam assim.

– Funcionam, Andy, garoto de pouca fé.

Andrew não entendeu de imediato o que ela queria ao se abaixar na grama e apanhar alguma coisa, mas logo viu se tratar do pássaro morto. Ela o segurava cuidadosamente e passou uma das mãos para ajeitar as penas. Sua mente não conseguia adivinhar o propósito daquilo e estava começando a pensar que a garota tinha um sério desajuste mental.

– Nunca conte isso para minha mãe, seria ruim para os negócios da família. E o mais importante... silêncio, bobinho.

– O que você...

– Não diga nada. Eu preciso de concentração.

Ficou observando sem entender o desenrolar da cena. Viu os lábios dela se moverem em silêncio. Estava começando a se sentir desconfortável. Olhou em todas as direções pra checar se mais alguma pessoa estava com os olhos postos sobre aquela situação atípica. Mas as pessoas de Dresbel não davam atenção a qualquer coisa que não fosse um obstáculo imediato ao próximo passo.

– O que você está fazendo? – perguntou, a voz esganiçando como na puberdade.

Nenhuma resposta. Talvez o melhor fosse simplesmente se despedir dessa garota esquisita e ir para casa escrever. Imaginou o que um observador casual poderia pensar ao ver aquela cena. Preocupar-se com as opiniões alheias era tão natural quanto respirar para ele. Talvez isso fosse culpa de sua garota de treze anos interior, uma drama queen cuja escala Richter de ataques ia de nada a dez num piscar de olhos.

Andrew nunca havia sido raptado por alienígenas nem enfrentado um rinoceronte faminto. Nunca se meteu em uma briga ou nadou além do que seus pés alcançavam. Nem mesmo viu um fantasma ou esteve em um tiroteio. Sua vida tinha sido um grande tédio desde o início. Mas no segundo em que viu o pássaro começar a bater asas e sair voando para o alto e mais um pouco, pensou: Ah, droga!

P.S.: é irresistível tomar nota também destas que estão entre as frases mais originais e absurdas que um casal de personagens já trocou após o sexo na história da literatura:

– Você está com o sorriso de uma marmota numa casa da árvore.

–Pelo menos eu não pareço uma torta de abóbora.

São frases tão bem achadas que o leitor chega a desejar que realmente rinocerontes fossem carnívoros e marmotas fizessem casas nas árvores. Para que elas fizessem mais sentido.

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