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Pelos bigodes de Walt Disney!

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 02/02/2012 17h11, última modificação 02/02/2012 17h41

Informa a AFP que os funcionários dos parques Disney serão autorizados, a partir de 3 de fevereiro, a usar barba ou bigode, que lhes eram proibidos desde a inauguração da Disneylândia em 1955. Curioso, pois todos eles têm no seu coração uma Main Street que reproduz o centro de uma cidadezinha do interior dos EUA nos primeiros anos do século XX, quando barbas e bigodes eram usuais, para não dizer quase obrigatórios, para todos os homens maduros. E o próprio Walt ainda usava o bigode da juventude, assim como seu irmão e sócio Roy.

Pensando um pouco mais no assunto, por que exatamente esse cenário domina o parque temático, logo atrás da entrada marcada pelo “Castelo da Cinderela”? Certamente isso lembrava a Walt, nascido em 1901, a própria infância – e ele provavelmente esperava que os avós, ao trazer os netos, voltassem a se sentir como crianças, entrassem no estado de espírito adequado para apreciar o parque e gastassem quanto pudessem.

O tempo passou, as gerações que viveram o início do século XX desapareceram, mas o parque continua essencialmente o mesmo. Agora, a Main Street não representa mais a nostalgia de um passado vivido e idealizado e sim um imaginário autorreferenciado. Para os pais que hoje vão a um desses parques, ou mesmo os avós, lembra só o parque que visitaram quando crianças ou pelo menos desejaram fazê-lo ao ver a onipresente propaganda.

Mas o parque como um todo, praticamente congelado no tempo, é cada vez mais um símbolo nostálgico dos anos 1950 – um tempo nos quais os estadunidenses, com ou sem razão, se ufanavam sem um pingo de dúvida ou de cinismo. Haviam vencido o bigodinho de Hitler, estavam enfrentando o bigodão de Stálin na Coreia e em Berlim, eram a esperança do “mundo livre” contra os barbudos da Sierra Maestra.

O horror e humilhação do Vietnã ainda estava por vir. O futuro seria uma continuação do presente, só que com carros voadores, aviões supersônicos e naves interplanetárias. As mães continuariam a ser donas de casa exemplares e os pais a serem empregados disciplinados, com uniformes limpos, cabelos bem cortados e queixos e lábios bem escanhoados, que barba e bigode era coisa de cafajeste, transviado, bandido mexicano ou beatnik comunista. Salvo no rosto de um avô ou de um grande empresário como Walt, é claro.

Este blogueiro esteve na Disneyworld de Orlando duas vezes: a primeira como adolescente em 1973, asegunda acompanhando o filho adolescente em meados de 2011. E ficou surpreso ao ver quão pouco mudou o seu prato de resistência, o Magic Kingdom, em 38 anos. Não só a Main Street: também a Fantasyland continua a celebrar os desenhos animados dos anos 1930 ao início dos 1960 – alguns bem obscuros, como A Canção do Sul, de 1946 – e praticamente ignora tudo que foi feito após a morte de Walt, incluindo sucessos como O Rei Leão , Aladin e Mu Lan.

Os bonecos do Pequeno Mundo (it's a small world) continuam os mesmos, com os mesmos gestos e os mesmos velhos clichês sobre africanos com azagaias, brasileiras com abacaxis empilhados na cabeça e japonesas de leque e quimono. Sequer dá um pouco mais de atenção a países que aumentaram enormemente de importância desde aquela época, como a China (ainda representada por uma caricatura da ex-colônia britânica de Hong Kong). Os cenários pseudotropicais da Adventureland também continuam os mesmos, sem nenhum esforço sério para modernizar seja os velhos audio-animatronics – impressionantes nos anos 1950, hoje patéticos –, seja os estereótipos sobre a África, Ásia e América Latina. Inclui os Piratas do Caribe, mas não é que eles sejam baseados na série de filmes relativamente recente: esta é que foi inspirada na velha atração, inaugurada três meses após a morte de Walt.

Claro que se pouco mudou nesses cenários, muito menos na Frontierland e na Liberty Square, dedicadas a uma celebração mítica, acrítica e adocicada da história dos EUA (nada de escravidão e massacre de índios, por exemplo). Mas surpreende constatar que a Tomorrowland também continua a mesma, com foguetes, robôs, armas de raios e discos voadores cheios de cromados e linhas supersônicas, refletindo o imaginário dos filmes e gibis dos anos 1930 aos 1950 sem nenhuma alusão a temas da ficção científica de hoje, como a realidade virtual, a terraformação, a engenharia genética e a nanotecnologia.

Tornou-se um futuro do pretérito, um século 21 que não é aquele em que vivemos e não existirá jamais. Refletirá – para sempre? – o futuro que os EUA sonhavam nos seus anos de glória, assim como o estilo steampunk reflete o porvir com que sonhavam os britânicos durante o apogeu do seu império.

No Magic Kingdom de hoje, como em Meca, no Vaticano ou no Castelo de Windsor, trata-se de preservar um relicário coletivo, que já não se destina a desafiar a imaginação de ninguém, mas apenas a acalentar a nostalgia do tempo dos avós e a saudade de uma inocência perdida.

Não é uma questão de abandono ou de pouco caso: nos parques da Disney, a manutenção e a limpeza continuam impecáveis. Mais, por sinal, do que no parque vizinho e concorrente da Universal, de tecnologia e temática mais atualizadas. E que num dos seus simuladores, o Simpsons Ride, zombava (pelo menos até 2011) das exigências capilares da Disney. O suposto operador do brinquedo, irresponsável e incompetente como a maioria dos personagens da série, garante aos visitantes prestes a partir para o passeio na Krustyland (onde o palhaço Krusty é Walt Disney) que estão em perfeita segurança:

– Não se preocupem, pessoal! Seu conforto e segurança e segurança estão nas mãos de adolescentes altamente qualificados, como eu. Somos obrigados a fazer um extenso curso de segurança e a não usar pelos faciais. Divirtam-se, mas gritem baixo porque tenho que estudar para uma prova de matemática. Se não conseguir um C, me expulsam do clube audiovisual!

Mas e agora? E essa revolução de 3 de fevereiro? Seria um sinal do Apocalipse iminente? Ou pelo menos de que a Terra se move, o reino mágico se descongela e a Bela Adormecida um dia despertará de seu sono de muitas gerações? Dificilmente. É antes sintoma da decadência do fordismo e do aumento da desigualdade na sociedade estadunidense. Nos anos 1950 e ainda nos 1970, pelo menos, os trabalhadores desses parques temáticos podiam se considerar parte do que nos EUA se chama de middle class, assalariados disciplinados e suficientemente bem pagos para sustentar sozinhos uma família com todos os confortos usuais Hoje, como sugere o Simpsons Ride, os funcionários são estudantes (ou aposentados) para os quais o salário é um complemento, ou imigrantes excluídos da sociedade de consumo. O que o parque lhes paga não basta mais para justificar a submissão às obsessões do velho Walt. A família exemplar do American Dream já não existe na vida real do parque, mas até que desapareça do seu imaginário serão outros quinhentos.

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