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Olho por olho, idiotice por idiotice

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 09/01/2012 20h16, última modificação 10/01/2012 14h46

Na sexta-feira, 6 de janeiro, o governo de Sebastián Piñera voltou atrás quanto à troca da expressão "ditadura" por "regime militar" nas aulas de história do ensino fundamental chileno. O porta-voz do governo, Andrés Chadwick, comunicou que o ministério da Educação deverá redigir e enviar uma nova proposta para a questão ao Conselho Nacional de Educação, do qual partira aquela determinação desastrada.

Mas o governo chileno continua a dar tiros no pé. Nessa mesma sexta, o presidente Piñera afirmou num ato na cidade de Arica que os incêndios que destruíram 55 mil hectares de florestas no sul do Chle desde 27 de dezembro são "atentados" cometidos por uma "mão perversa e criminosa" e o ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter, acusou a Coordenadora Arauco Malleco – uma organização clandestina de indígenas mapuches que reivindicou o incêndio de um helicóptero da guarda florestal em 30 de dezembro – pelo incêndio nas florestas da área araucana de Carahue, onde morreram sete bombeiros, e pediu a aplicação aos mapuches da Lei Antiterrorista imposta pela (para usar a palavra certa) ditadura de Pinochet.

O ministro foi contrariado pelo prefeito de Carahue e pelo comandante do Corpo de Bombeiros da cidade, que disse que incêndios anteriores e similares na região tinham sido provocados por moradores da zona ao produzir carvão vegetal ilegalmente. A comunidade mapuche protestou contra a acusação sem provas e a líder Natividad Llanquilleo acusou o governo de buscar um pretexto para militarizar a região atingida pelas chamas. Mais uma vez, o governo foi obrigado a voltar atrás e já no sábado 7 o ministro se desdisse, passando a afirmar que “os únicos encarregados de estabelecer responsabilidades são os tribunais” .

É de se perguntar se o governo chileno, acuado e com popularidade em baixa, apenas atirou a esmo ou procura conscientemente na extrema-direita uma compensação para a perda do apoio da maioria centrista, o que seria um caminho muito perigoso (embora não seja desdenhado pelos supostamente centristas tucanos brasileiros, como mostrou seu comportamento na última eleição).

O único acusado formal pelos incêndios até agora foi o turista israelense Roten Singer, de 23 anos, que teria provocado por negligência o incêndio no Parque Nacional Torres del Paine, no extremo sul, ao não apagar adequadamente um fogo que provocou ao queimar seu papel higiênico. Singer foi defendido por sua família, que acusou o governo chileno de querer transformá-lo em bode expiatório.

O deputado democrata-cristão Fuad Chahín escreveu no Twitter, de maneira tão apressada e sem provas quanto o ministro Hinzpeter, que “Apostaria que o ‘turista’ israelense que causou o incêndio em Torres del Paine é daqueles enviados por seu Estado depois de matar meninos palestinos”. Depois disse à CNN que “milhares de turistas israelenses, depois de fazer seu serviço militar obrigatório, vêm percorrer a Patagônia. Todos sabemos o que faz o exército israelense, é o que têm as maiores condenações de organizações de direitos humanos”. Outro deputado oposicionista, Eugenio Tuma, do PPD, queixou-se de que “no país entram israelenses aos milhares como ‘na casa da sogra’ e ninguém lhes diz nada, mas quando há uma responsabilidade e ninguém lhes diz nada, sem dúvida que se são destacamentos financiados pelo Estado de Israel, esse estado deveria encarregar-se de reparar nosso patrimônio.”

Essas declarações, de conotações xenófobas e antissemitas, foram devidamente condenadas pela comunidade judaica chilena, mas geraram um sem-número de disparatadas teorias conspiratórias que culpam o governo de Israel de ter mandado seu cidadão (e presumivelmente ex-soldado) cometer um atentado contra as florestas chilenas, sabe-se lá por quais motivos. Será que o ministro Hinzpeter, de origem judaica, estupidamente sentiu-se compelido a vingar uma acusação absurda com outra, em um desses círculos viciosos de irracionalidade visceral que aprofundam cada vez mais a intransigência e o impasse político em tantos países do Ocidente e Oriente?

Atualização em 10 de janeiro: Coordenadoria Mapuche Arauco Malleco negou formalmente a autoria dos incêndios no sul do país em documento assinado por seu dirigente Héctor Llaitul, que está preso:

http://www.biobiochile.cl/2012/01/10/coordinadora-arauco-malleco-niega-autoria-de-incendio-que-provoco-tragedia-en-carahue.shtml

 

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