Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog do Antonio Luiz / O pobre fascínio do Mal

Política

Literatura

O pobre fascínio do Mal

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 11/11/2013 18h43, última modificação 12/11/2013 11h38
A tentativa de explorar o interesse por fantasia medieval despertado pela série televisiva Guerra dos Tronos levou a editora Darkside a apostar em um de seus concorrentes mais diretos
Prince of Thorns

A capa do livro Prince of Thorns

A tentativa de explorar o interesse por fantasia medieval despertado pela série televisiva Guerra dos Tronos levou a editora Darkside, voltada principalmente para romances de terror, a apostar em um de seus concorrentes mais diretos em termos de fantasia sombria, pessimista e pretensamente realista. A saber, a Trilogia dos Espinhos (no original, The Broken Empire), do americano-britânico (nasceu nos EUA, mas vive no Reino Unido desde a infância) Mark Lawrence que, embora tenha um currículo ideal para um autor de ficção científica (é um pesquisador do campo da inteligência artificial), se especializou em fantasia pseudomedieval.

A trilogia é composta de três romances, Prince of Thorns, King of Thorns e Emperor of Thorns, a serem lançados no Brasil com os mesmos títulos em inglês. Esse modismo do segmento de literatura juvenil aparentemente tenta aproveitar o marketing já feito para o mercado anglófono para dispensar a promoção no mercado nacional, expediente de eficiência duvidosa. O primeiro livro foi lançado em dispendiosa edição de capa dura (R$ 52,90, 360 págs.), o que também é uma escolha estranha para uma obra relativamente pouco conhecida no Brasil e sem perspectivas aparentes de adaptação para o cinema ou para a tevê.

Como sugerem os títulos, a trilogia narra a ascensão do protagonista a posições de poder cada vez mais altas. Em contraste com seu concorrente mais direto – ou seja, o primeiro volume da série Crônicas de Gelo e Fogo de G. R. R. Martin (hoje planejada como de sete livros, cinco dos quais já publicados) – deve-se dizer que Prince of Thorns tem um exagerado senso de propósito. A recomendação comum na literatura comercial de descartar tudo que “não faça avançar a história” é levada aqui a tal extremo que resta pouco de interesse humano, para não falar de profundidade psicológica ou qualquer outra.

Em Guerra dos Tronos, há múltiplos pontos de vista de personagens com diferentes objetivos e princípios, a maioria dos quais morre quase ao acaso antes de desenvolver seu potencial. Oferece um painel que se quer realista do caos da guerra e de vidas agitadas e interrompidas de uma aristocracia feudal ou renascentista, mas ao cabo deixa a sensação de muito som e fúria e pouco significado. O primeiro volume, pelo menos, se encerra com um corte brusco e pouco satisfatório, com pouca preocupação em fechar questionamentos e arcos narrativos.

Em Prince of Thorns tudo gira, pelo contrário, em torno do umbigo de um só protagonista, um príncipe adolescente sociopata e egocêntrico, obcecado pelo poder e pela vingança, cuja vida está protegida de riscos verdadeiros pela estrutura da história – narrativa de feitos passados, em primeira pessoa. A história se fecha como uma etapa bem cumprida, com seus principais objetivos alcançados exatamente como foram previstos, apesar de um ou outro percalço inesperado. É o empresário impiedoso e bem-sucedido exultando sobre a narrativa de sua escalada sobre as costas de empregados, vítimas e concorrentes. Apesar do blurb publicitário da contracapa, é evidente para o leitor que ele sempre está a salvo.

Ainda criança, Honorious Jorg Ancrath, o “príncipe dos espinhos”, vê a mãe e o irmão menor serem brutalmente assassinados na estrada a mando de um conde, rival do seu pai. Jogado numa moita de espinhos que o ferem gravemente e o deixam entre a vida e a morte, ele sobrevive quase por acaso, mas essa é o único acidente real em sua vida. Todo o resto é exagerada e obsessivamente planejado. Jorg trata todas as pessoas como peças de seu jogo descartáveis sempre que possam ser trocadas por algo de maior valor. Ele mesmo é uma peça de si mesmo, o rei do xadrez que há de sobreviver e vencer a partida a qualquer preço.

Personagens, elementos do cenário e acontecimentos surgem na hora certa para oferecer desafios a serem enfrentados e os meios para vencê-los, de maneira tão linear quanto num jogo de computador. Mesmo o protagonista não passa de raso artifício de enredo, uma máquina programada para se vingar do conde e se tornar rei aos quinze anos, sem vida emocional própria. É impossível admirar soluções tão mecanicamente preparadas como engenhosas, bem como ter empatia por qualquer personagem, inclusive ele.

Há apenas o prazer vicário e perverso de se imaginar na pele de um garoto de treze ou quatorze anos que não precisa acatar os limites da moral ou da realidade. Não só estupra, tortura e mata sem remorso, como conquista a fidelidade e obediência cega de seus seguidores sem precisar mostrar por eles afeto ou respeito e insulta e ataca oponentes mais maduros e fortes sem recear consequências. Realisticamente, um adolescente que se comportasse dessa maneira em seu ambiente semibárbaro, príncipe ou não, estaria morto em dias, mas em seu caso, os planos sempre dão certo e os acasos sempre funcionam a seu favor.

Tal fantasia perversa certamente não é mais “realista” do que a Alta Fantasia cristã e maniqueísta à maneira de J. R. R. Tolkien, a não ser no sentido em que reflete mais fielmente os devaneios de onipotência e as pulsões violentas de rapazes incentivados pelo clima da cultura de massas neoliberal a tudo subordinar à lei suprema do egoísmo. Não falta sequer a ilusão da potência sexual ilimitada. As mulheres não existem a não ser para serem estupradas e mortas ou (se nobres) como inimigas ou tentações perigosas, exceto por uma jovem meretriz cuja função é permitir ao protagonista mostrar que é capaz de “cansar uma prostituta”. Não o vemos se deleitar com ela, apenas se gabar disso – e usá-la em seguida como apoio para seu livro, enquanto discute estratégia com seu lugar-tenente.

O mais curioso do romance são os indícios, que se tornam cada vez mais explícitos ao longo da história, de que a trama não está ambientada na Idade Média nem num mundo fantástico imaginário, mas na Europa Ocidental de um futuro pós-apocalíptico. Além de permitir ao protagonista ser, à sua maneira, um católico crente e fiel, citar Nietzsche e Popper como filósofos antigos e mostrar, quando convém, conhecimentos ignorados da Europa Medieval (da estratégia de Sun Tzu a artes marciais orientais), permite que muitos, se não todos os elementos mágicos da trama encontrem explicações alternativas como remanescentes de um passado tecnológico ou efeitos colaterais da catástrofe, provavelmente uma guerra nuclear, que o destruiu. É um conceito que mereceria trama e personagens mais interessantes.

A linguagem, é em geral clara e direta, mas o autor não resiste a multiplicar metáforas de bom ou mau gosto, nem sempre em consonância com o caráter objetivo e pouco imaginativo do narrador e protagonista. Uma amostra do segundo capítulo:

“Irmão Rike gosta dos prazeres simples”, disse Markin.

Claro que gostava. Rike sentia verdadeira fome por eles. Uma fome que era tal e qual fogo.

As chamas engoliram Mabberton. Eu mesmo pus a tocha no telhado de sapê da estalagem e o fogo nos persegui até a saída do vilarejo. Apenas mais um dia maldito daqueles longos e violentos anos da queda de nosso Império.

Makin limpou o suor, manchando-se com fuligem. Ele tinha um talento para se sujar – ah, se tinha. “Você não se manteve acima desses simples prazeres, irmão Jorg.”

Não poderia discordar. “Quantos anos você tem?”, aquele fazendeiro gordo quis saber. Velho o bastante pra visitar suas filhas. A gordinha não calava a boca, assim como o seu pai. Guinchava como uma coruja de celeiro, ferindo meus ouvidos. Preferi a mais velha. Ela era quieta. Tão quieta que você precisava lhe dar uns trancos, só para ter certeza de que ela não morrera de medo. Embora eu imagine que nenhuma das duas tenha permanecido calada quando o fogo as alcançou...