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O lado B do islamismo

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 23/04/2012 18h36, última modificação 23/04/2012 20h40

“O autor faz com o Islã o que Foucault fez com a sexualidade cristã no Ocidente”, afirma a contracapa de Sexualidade no Islã (Globo, 380 págs., R$ 36), do sociólogo e escritor tunisiano Abdelwahab Bouhdiba. É uma propaganda enganosa, não há como tergiversar, mas desnecessária, porque o livro tem seus próprios méritos e interesse.

Ao investigar a história da sexualidade no Ocidente, Michel Foucault não partiu de nenhum compromisso com a moral cristã ou outro ideal normativo. Abordou o surgimento do discurso moderno sobre a sexualidade e a repressão para esclarecer um aspecto importante do nascimento do biopoder, do uso e regulação políticos dos corpos e criticar a ideia romântica de que existe um conflito entre a repressão social e a sexualidade “natural”, quando nossas identidades sexuais modernas foram constituídas por essa repressão.

Pelo contrário, Bouhdiba parte da ética do amor e casamento no “verdadeiro Islã” que, para ele, tem um valor sagrado indiscutível, para criticar tanto a suposta deformação desses ideais pelas sociedades muçulmanas históricas quanto sua negação pelos “modelos fáceis de comportamento sexual norte-americanos ou europeus”, um erotismo “que apenas é bestialidade”.

O livro se divide em três partes: a primeira, “A visão islâmica da sexualidade”, é uma descrição do que o autor vê como os verdadeiros ideais sexuais muçulmanos, expressos no Alcorão e nos supostos atos e falas de Maomé.

Ao contrário dos mais sagrados textos cristãos, para os quais ideal é o celibato e o casamento é apenas o mal menor (“melhor casar do que abrasar-se”, escreve Paulo de Tarso na Epístola aos Coríntios), o Alcorão nega o pecado original, dá um valor muito positivo ao sexo dentro do casamento e condena o ascetismo, o celibato e o marido que recusa o agrado de suas esposas. Para Maomé, “degustar o delicado mel da união”, exercer a sexualidade não só para a reprodução, mas para dar e receber prazer, é uma obrigação religiosa. O Paraíso é concebido como um lugar de prazer sexual eterno e ilimitado, proporcionado tanto pelas esposas quanto pelas famosas huris.

Bouhdiba precisa, porém, admitir que mesmo no ideal alcorânico, “a vida conjugal é hierarquizada e a família islâmica andrólatra”, mas insiste em que “qualquer que seja a reciprocidade de perspectivas, ela não permanece menos total e dialética, pois o homem não encontra sua plenitude senão na mulher’. Estranha totalidade dialética essa, que exclui tantas pessoas e tantos atos humanos. Por exemplo, a maioria das formas de sexo fora do casamento (exceto de um homem com suas escravas e concubinas) e as relações homossexuais são ilícitas e pelo menos em teoria punidas com a pena de morte. Os filhos ilegítimos não podem ser reconhecidos e não há adoção legal.

Na segunda parte do livro, “A prática sexual do Islã”, o autor investiga as atitudes de sociedades muçulmanas reais, que raramente corresponderam aos tais ideais maometanos (ou seja, de Maomé, não necessariamente de seus intérpretes). Na prática, frequentemente foram não só machistas quanto misóginas, negaram às mulheres os direitos previstos no Alcorão, soterraram o ideal religioso de união dos sexos sob um folclore obsceno, fugiram do casamento e da vida sexual “normal” sob o véu do misticismo (sufismo e marabutismo) e praticaram orgias, homossexualidade e a prostituição, até mesmo com chancela de autoridades religiosas.

É, porém, a parte mais interessante do livro, pelas informações que traz sobre a história dos costumes dessa rica civilização, ou pelo menos de parte dela. Apesar dos lamentos de Bouhdiba, um humanista laico e imparcial, que não esteja obcecado por ideais impossíveis, concluirá, ao comparar essas práticas com as do cristianismo medieval, que as do Islã, apesar de todos os pesares, frequentemente foram mais saudáveis e humanas. Do ponto de vista dos homens, com certeza. Às vezes até das mulheres, mesmo descontando-se a forte desigualdade entre homens e mulheres no que se refere às práticas de casamento e divórcio. O cristianismo não é intrinsecamente mais progressista que o Islã. Se a civilização ocidental é hoje mais livre, igualitária e plural nesses aspectos, é porque a crítica às próprias raízes religiosas tem nela uma história muito mais longa. É essa a vantagem de Foucault  frente a Bouhdiba.

Na terceira parte, “Conclusão”, Bouhdiba compara o ideal alcorânico e a prática árabe e, à maneira do profeta Daniel no Velho Testamento, diz ao mundo islâmico atual que “pesado foste na balança, e foste achadoem falta”. Masse a prática árabe tradicional é criticada, as importadas do ocidente, associadas ao colonialismo e ao imperialismo, são condenadas com muito mais vigor. Um discurso religioso e moralizante sem disfarces ataca o “erotismo sem alegria, sem odor, sem cor, sem sabor” importado do Ocidente e afirma que a “fé islâmica, fundada no sentido do diálogo com Deus (...) soubera integrar o orgasmo com o movimento de transgressão do eu”, sem se lembrar de tudo e todos que eram deixados de fora dessa “integração” – um esquecimento cômodo no qual Michel Foucault, ele mesmo homossexual, logo marginalizado pelos ideais sexuais de sua civilização, jamais incidiria.

Bouhdiba não deixa de criticar a hostilidade dos tradicionalistas ao sexo e à emancipação (mesmo relativa) das mulheres. Afirma que “o conservadorismo religioso e o pseudorrevolucionarismo sexual traduzem uma única e mesma patologia... a hipersexualidade e o puritanismo religioso são artifícios para afastar-nos de nossas responsabilidades”. Mas não deixa de ser uma crítica fundamentalista ao fundamentalismo: não propõe uma superação da tradição e sim o retorno ao “verdadeiro” Islã no qual a sexualidade é uma prece e uma caridade e que os conservadores não interpretam corretamente.

Não tem nada de Foucault, repetimos: é um equivalente muçulmano de uma teologia progressista cristã que critica práticas da Igreja atual em nome de um retorno ao “verdadeiro Cristo”, não uma arqueologia do saber que indaga como e por quê se constituíram certas práticas e crenças, sem prejulgamentos morais. Mas não deixa de ser uma leitura útil a um ocidental interessado: tanto por lhe trazer informações que traz sobre a religião e as práticas reais de sua cultura, quanto por ajudar a entender a rejeição da influência ocidental e o fascínio do Islã e do fundamentalismo mesmo para um intelectual e acadêmico moderno, formado naquele que talvez seja o mais ocidentalizado dos países árabes.

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