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O inferno e as boas intenções

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 08/03/2012 20h05, última modificação 08/03/2012 20h05

Fez sucesso o vídeo Kony 2012, produzido e postado no YouTube por uma ONG chamada Invisible Children Inc.. Chama a atenção para os abusos de Joseph Kony, líder do grupo guerrilheiro “Exército de Resistência do Senhor”, que luta desde 1986 em nome da imposição de uma teocracia cristã em Uganda, país com 12% de muçulmanos e 4% de outras minorias religiosas. Kony, um ex-coroinha católico, diz falar com o Espírito Santo e se faz preceder de homens em vestes religiosas que aspergem água benta.

Na realidade, Kony luta pela hegemonia de sua etnia Acholi, povo nilótico do norte de Uganda que dominou o exército ugandense da independência até 1986, quando a ditadura militar de Tito Okello foi derrubada pela rebelião do “Exército de Resistência Nacional”. Este pôs no governo Yoseri Museweni, um anglicano da etnia bantu banyankole, do sul de Uganda, que obteve o apoio incondicional das potências ocidentais ao abandonar o marxismo e adotar e impor sem restrições o programa neoliberal do FMIem seu país. Como Kony, Museweni e seu grupo, que ainda hoje detêm o poder absoluto em Uganda, agitam a bandeira do fundamentalismo cristão e chamaram a atenção do Ocidente ao pôrem debate no Parlamento, com apoio de seitas fundamentalistas dos EUA, leis que criminalizam a homossexualidade a ponto de impor a pena de morte a homossexuais “reincidentes”.

Em seu auge, o grupo obrigou dezenas de milhares de crianças a pegar em armas por sua causa depois de matar suas famílias e vizinhos. A guerra civil também criou dois milhões de refugiados, mas nem todos por responsabilidade de Kony. Milhares deles são acholis e seus aliados confinados pelo governo em campos de concentração, onde morrem como moscas.

Os auges do conflito ocorreram entre 1994 e 1996, quando Kony recebeu ajuda do Sudão (em retaliação ao apoio de Uganda aos separatistas do Sudão do Sul) e entre 2002 e 2005, quando o exército ugandense lançou um ataque massivo às bases dos rebeldes. Em 2005, já enfraquecido e refugiado além da fronteira, Kony foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra que ele nega afirmando acatar apenas as ordens de Deus. O grupo continua a existir na fronteira entre Uganda, Congo-Kinshasa e Sudão do Sul e em 2009 promoveu massacres em aldeias da região, mas depois a luta praticamente cessou. E em outubro de 2011, os EUA enviaram 100 soldados de forças especiais para ajudar o governo de Uganda a liquidar Kony.

Como se vê, não é uma simples história de mocinhos e bandidos, já tem 26 anos e seus piores horrores se deram há um bom tempo. O vídeo, se entusiasmou celebridades como Justin Bieber, Rihanna, Oprah Winfrey e Sean John “Diddy”, bem como jovens ativistas de internet dos EUA e Europa que provavelmente nunca ouviram antes falar de Uganda nem saberiam encontrar o país no mapa, causou irritação em muitos ugandenses pelo maniqueísmo, pela visão paternalista de um país descrito como incapaz de cuidar de si mesmo e pela incitação implícita a uma intervenção militar estrangeira.

A jornalista ugandense Rosebell Kagumire postou no YouTube um contravídeo, dizendo que o vídeo pinta uma imagem desatualizada de Uganda: "é mais um vídeo no qual vejo um estrangeiro tentando ser um herói que salva crianças africanas".

Para seu colega Angelo Izama, ouvido pelo Los Angeles Times, “essa campanha serve para promover a Invisible Children e fazer muitos, como Diddy, acharem que contribuíram para sua captura. Para quem se preocupa com a militarização da África Central, é só mais uma solução ruim para um problema difícil." TMS Ruge, ugandense também entrevistado por esse jornal que  que é um dos criadores da rede social Diaspora, é ainda mais incisivo: “essa campanha é um exemplo de como uma ONG suga fundos para sobreviver. Por banal que seja, ‘sensibilizar a opinião pública’ no nível que a Invisible Children faz custa dinheiro, montes e montes de dinheiro. Alguém tem que pagar os executivos e seus escritórios luxuosos e esse exercício de autopromoção e automassagem do ego em alta definição não sai de graça. Eles não estão oferecendo democracia, justiça ou dignidade para ninguém, são uma máquina autoconsciente de que precisa encontrar uma razão para continuar a existir”.

De fato, a contabilidade da Invisible Children é pouco transparente e 68% das doações financiam seus burocratas, viagens e propaganda, deixando chegar apenas 32% aos necessitados. A percepção dos ugandenses é que com Kony praticamente neutralizado e fora do país, Uganda tem hoje problemas mais urgentes do que capturá-lo. Uma grande campanha contra o marginalizado líder rebelde, que hoje conta com apenas algumas centenas de partidários, serviria menos para salvar crianças ou fazer justiça do que para justificar abusos do governo e do exército de Uganda e para expandir a presença militar dos EUA na região, que começa a se tornar estrategicamente importante pela presença de petróleo, intensamente disputado com a China. Além de, é claro, justificar o modo de vida dos dirigentes da ONG, cuja razão de ser vai desaparecendo com o fim da guerra civil e que parece não ter interesse em lidar com epidemias e outros problemas que que hoje afetam mais intensamente as crianças de Uganda.

A lição a tirar do episódio é que não há nada de errado em deixar que um documentário bem feito despertar seu interesse por um problema, mas só um militante de poltrona com uma irresistível vocação para ser um inocente útil se deixa mobilizar dessa maneira antes de procurar informar-se melhor sobre o assunto e ouvir outras opiniões, principalmente as das pessoas mais diretamente afetadas. O inferno sobrenatural pode não existir, mas como já mostraram o Iraque, o Afeganistão e a Líbia, o caminho para inferno na Terra é realmente calçado por boas intenções.

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