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O escritor de ficção científica mais amado por Hollywood

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 19/09/2012 19h34, última modificação 19/09/2012 19h43

Philip K. Dick – ou PKD, como abreviam seus admiradores – é, de longe, o autor de ficção científica mais adaptado para a tela. São, até agora, 14 produções baseadas em 11 obras (incluindo uma refilmagem, uma versão para tevê e uma sequência) e cinco projetos em andamento. Mas por que razão, exatamente? Embora muitos críticos e colegas o considerem um dos melhores, é muito menos popular entre os fãs do gênero que o Aldous Huxley de Admirável Mundo Novo, ao George Orwell de 1984, ao Frank Herbert de Duna, ao Isaac Asimov de Eu, Robô ou mesmo ao Douglas Adams de O Mochileiro das Galáxias.

Em 13 de setembro, a lista das 100 obras de ficção científica e fantasia mais vendidas da Amazon só continha uma de PKD: o conto Total Recall. Mesmo com a segunda superprodução nele inspirado em cartaz e custando apenas US$ 1,88 em e-book, estava em 81º lugar. Quando PKD é lembrado em alguma enquete ou lista amadora de melhores obras, é quase certo que o seja por um filme derivado de seu trabalho e não pelo próprio texto.

Para o leitor médio de ficção científica, é um autor “difícil”, por misturar realidades alteradas e engenhocas para mimetizar pessoas e impressões sensoriais com tramas complexas, de temas múltiplos e pouco óbvios e um estilo elíptico e de deliberada ambiguidade, num gênero que mais frequentemente peca por redundância e por excessos de explicação e doutrinação. Escreveu um leitor num fórum de internet: “Os Três Estigmas de Palmer Eldrich me deixou com aquela sensação típica de ‘estou boiando no meio do Pacífico e não sei para que lado fica a costa mais próxima’ (...)suspeito que, às vezes, o PKD dava uma de roteirista maldito de Lost e criava desfechava mistérios apenas pelo prazer de confundir os leitores”.

Mas se tivesse sido essa a característica que seduziu Hollywood, é curiosa a frequência com que suas tramas foram simplificadas e diluídas em esquemas mais tradicionais de histórias de ação e amor. A antologia Realidades Adaptadas (Aleph, 304 págs., R$ 48)ao reunir sete dos contos de PKD que inspiraram o cinema, permite entrever o verdadeiro espírito da obra do escritor em suas fases iniciais e menos herméticas e entender por que o cinema a julga tão atraente, mesmo que retenha pouco ou nada de suas reais intenções. É uma leitura interessante tanto para o apreciador de ficção científica quanto para o cinéfilo.

O primeiro conto é “Lembramos para você a preço de atacado”, base dos dois filmes Total Recall (O Vingador do Futuro, nas versões brasileiras). No conto de 1966, o protagonista, cuja vida é rotineira e sem emoções, tenta comprar a lembrança de ter viajado a Marte como agente secreto, mas com isso desperta outras lembranças, verdadeiras. Sem sair da Terra, luta com a empresa e o governo por sua verdadeira história e identidade. Ao fim se rende, tenta resolver o problema implantando outro pacote de lembranças e tem outra surpresa.

No filme de 1990, dirigido por Paul Verhoeven, a semelhança com o conto se esgota nos primeiros minutos e em seguida o herói vai fisicamente a Marte e se envolve numa aventura com mutantes, tecnologia alienígena, terraformação instantânea e um caso de amor, sem qualquer relação com a trama original. Já o filme de 2012, dirigido por Len Wiseman, nada mais tem a ver com Marte. Em vez disso, ao tentar comprar uma memória supostamente falsa, o protagonista se envolve no confronto político entre as duas potências que restaram numa Terra devastada – e mais uma vez, numa história de amor.

O conto original nada tinha de romântico. O protagonista é casado, mas a relação com a esposa antipática e reclamona – e que ao que tudo indica, na verdade é uma agente do governo designada para vigiá-lo – é difícil, ela se recusa a apoiá-lo e o abandona no meio da história. A única outra mulher, recepcionista da empresa que vende sonhos, não tem nenhum envolvimento com o herói – apesar de andar nua da cintura para cima e com seios pintados, segundo a moda nesse futuro imaginado por PKD.

Aliás, é uma constante: em algum momento de cada um dos sete contos desta antologia, a principal personagem feminina de alguma maneira trai a confiança do protagonista masculino ou não é o que ele pensava que era. Talvez isso reflita as dificuldades pessoais do autor com as mulheres (casou-se cinco vezes), mas nos textos aparece como um elemento de um tema mais amplo: a ambiguidade tanto realidade objetiva quanto da condição humana subjetiva e a insegurança dos protagonistas a seu respeito. É uma fascinante exploração literária, que varia de divertida à comovente, das próprias dúvidas de PKD, que foi diagnosticado como esquizofrênico na adolescência (embora outros especialistas o tenham considerado são, mais tarde), usava drogas e tinha estranhas visões e fantasias. Outra constante é que, em todos os casos, o papel da mulher foi drasticamente modificado nas versões cinematográficas.

O segundo conto, “Segunda variedade”, de 1953, deu origem ao filme Screamers – Assassinos Cibernéticos, dirigido por Christian Duguay e lançado em 1995. Em ambos os casos, trata-se de robôs assassinos que se disfarçam como humanos e confundem os protagonistas. Uma das diferenças entre o conto e o filme que mais saltam à vista é o cenário – uma guerra total entre EUA e URSS no primeiro, uma guerra entre mineiros e seus empregadores numa colônia em outro planeta no segundo. Outra, mais uma vez, é o tema romântico, inexistente no primeiro.

“Impostor”, de 1953, inspirou o filme do mesmo nome, de 2002, dirigido por Gary Fleder. Em ambos os casos, o protagonista é um homem que enfrenta a suspeita de não ser ele mesmo e sim um robô criado por alienígenas para destruir um centro de pesquisa terrestre como “homem-bomba”. O filme é mais rico de personagens e peripécias que o conto curto que o inspirou, mas a história seria fundamentalmente a mesma, não fosse o fato de que no conto o personagem principal está sozinho em sua tentativa de provar que é humano, enquanto no filme tem o apoio de sua mulher e de um refugiado de um bombardeio alienígena (inexistente na trama original). Vale notar que o tema do protagonista em dúvida sobre ser ou não um robô reaparece na “versão do diretor” de Blade Runner (lançada em 1992, com ligeiras modificações no filme de 1982), apesar de estar ausente do romance de PKD que o inspirou, Andróides Sonham Com Carneiros Elétricos?, de 1968.

“O relatório minoritário”, de 1956, foi obviamente a inspiração para o filme Minority Report – A Nova Lei, de 2002, dirigido por Steven Spielberg. No conto e no filme, mutantes prescientes, usados para prever e impedir crimes graves e deter seus autores potenciais, apontam o chefe da polícia e protagonista como futuro assassino, criando problemas legais, políticos e lógicos, pois se alguém conhece o próprio futuro é levado a transformá-lo. Desta vez, o filme não só acrescenta personagens e incidentes, como vira de ponta-cabeça a trama política e o ponto de vista moral da história original. No conto, o homem a ser assassinado é uma importante figura política e militar que luta pelo poder, no filme é um pobre coitado. No conto, o antagonista quer desacreditar o sistema preventivo e o herói luta para preservá-lo, enquanto no filme acontece exatamente o contrário.

Vem em seguida “O pagamento”, de 1953, fundamento do filme homônimo de 2003 (em inglês, Paycheck), dirigido por John Woo. O conto e o filme têm o mesmo tema: depois de trabalhar por anos para uma empresa misteriosa, um engenheiro tem sua memória apagada e é informado de que abrira mão do pagamento em dinheiro em troca de um envelope com um punhado de objetos sem valor. Embora concebida décadas antes de existirem videogames, a trama lembra curiosamente certos jogos em que o herói tem que descobrir qual a utilidade dos objetos que encontra pelo caminho. O tema central não é, porém, uma caça ao tesouro e sim o esforço do protagonista para descobrir quem ele foi, o que fez e por que diabos pediu para si mesmo esse estranho pagamento. Secundariamente, há uma trama política que opõe a empresa e seus segredos a um governo autoritário. No filme, o número de objetos passa de sete para 20 e outra vez a trama política é invertida e o herói troca de lado. Em vez de uma empresa “libertária” que conspira contra um governo opressivo, é uma empresa “subversiva” e perigosa cujas ações podem levar a uma guerra mundial contra um governo “simpático”.

“O homem dourado”, de 1954, sugeriu o filme O Vidente (Next), dirigido por Lee Tamahori e lançado em 2007. Dos contos desta antologia, este foi o mais descaracterizado pelas telas. No texto de PKD, o personagem do título é uma “besta loura” inspirada de forma um tanto satírica na Genealogia da Moral de Friedrich Nietzsche. Trata-se de um mutante com a aparência de um homem-leão dourado que não tem inteligência consciente, mas sim um físico formidavelmente ágil e atraente às mulheres e um instinto fabuloso, que lhe permite prever e driblar qualquer ataque tentado contra ele, sendo por isso caçado por agentes que temem que ele se reproduza e leve a espécie humana à extinção com sua aptidão superior para a sobrevivência. No filme, a criatura sobre-humana converte-se num mágico de palco e jogador profissional, humano, demasiado humano, exceto pela capacidade de premonição, pela qual o FBI quer capturá-lo e usar sua habilidade no combate a um plano terrorista.

O último conto, “Equipe de Ajuste”, de 1954, serviu de matéria-prima a Os Agentes do Destino (The Adjustment Bureau), filme de 2011 dirigido por George Nolfi. Ao contrário dos demais desta coletânea, afasta-se da ficção científica e tem o caráter de fantasia teológico-religiosa. Por distração dos agentes divinos encarregados de fazê-lo chegar ao trabalho na hora certa para ser incluído em um ajuste planejado dos rumos da história, o protagonista, que tem um casamento e um emprego rotineiros, se atrasa e vê seu escritório e seus colegas de trabalho se desfazerem no nada para que a realidade fosse “ajustada”. No filme, o ajuste perde o caráter mágico e divino para se tornar interferência de uma organização misteriosa nos rumos da história e o protagonista, um político solteiro, se apaixona por uma jovem a caminho do novo emprego e a proibição pelos agentes de procurar a moça se torna o motor da trama.

Depois de se ler os sete contos e compará-los com os oito filmes que inspiraram, vê-se como foi escassa a fidelidade à obra do escritor. Muitas vezes, pouco das principais intenções do autor– absolutamente nada, no caso de O Vidente – foram preservadas na “adaptação”, na maioria dos casos as tramas foram banalizadas, personagens falhos e fracos transformados em heróis de ação e romance e em alguns casos, os pontos de vista políticos e éticos do autor foram invertidos sem a menor cerimônia. Por que, então, o usaram? A resposta, provavelmente, é que os “e se...” de PKD, as fantásticas hipóteses filosóficas (disfarçadas de científicas ou religiosas) com as quais cria um ponto de divergência da realidade quotidiana e a abre à especulação, são suficientemente instigantes em si mesmas para sustentar um filme, mesmo que roteirista e diretor tenham ideias completamente diferentes de como explorá-las.

Ao ler os contos originais, o leitor frequentemente se diverte com o contraste entre a originalidade e arrojo de algumas das fantasias futuristas e detalhes obviamente datados dos anos 1950 e 1960 – cartões perfurados e casamentos à moda antiga, por exemplo – ou convenções visivelmente antiquadas sobre o futuro, como o uso de foguetes em viagens intermunicipais. Mas como as hipóteses filosóficas centrais das histórias de PKD quase sempre se referem à natureza da realidade e da condição humana, o resto sempre pode ser atualizado sem muito esforço de imaginação. Ao contrário de outros autores de ficção científica, cujas obras, fundadas na especulação sobre o progresso tecnológico e preocupações sociais e políticas típicas de suas épocas, se tornaram datadas em suas preocupações mais essenciais mesmo quando foram mais arrojadas e prescientes em outros aspectos.

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