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O capital joga contra a ciência: o caso do diesel e do câncer de pulmão

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 05/03/2012 17h09, última modificação 05/03/2012 17h10

Nas últimas semanas vieram à luz as pressões de setores industriais contra pesquisas sobre aquecimento global e doenças causadas pelo amianto e agora surge outra evidência do crescimento das chantagens do grande capital contra a ciência: foram necessários vinte anos para cientistas que trabalham para o governo dos EUA conseguirem publicar um estudo que demonstra a relação entre fumaça de diesel e câncer de pulmão em trabalhadores de minas, como revela artigo de 2 de março no site da Science Magazine.

O Diesel Exhaust in Miners Study (“Estudo do escape de diesel em mineiros”, DEMS), que custou 11,5 milhões de dólares, foi feito conjuntamente pelo National Cancer Institute (NCI) e pelo National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH). Acompanhou 12,3 mil mineiros por duas décadas, desde 1992, em oito diferentes minas dos EUA que lidam com minérios não-metálicos e não expõem os trabalhadores a outros agentes carcinogênicos conhecidos, como o amianto, o radônio e a sílica. Além disso, tomaram o cuidado de separar os efeitos do diesel do uso de tabaco.

Desde o início, um lobby de empresas de mineração atacou o estudo. Ainda nos anos 1990, levou o governo dos EUA aos tribunais, exigindo “supervisionar” o estudo. Em março de 2000, conseguiram que um juiz ordenasse que o estudo e todos os seus dados fossem entregues aos reclamantes e ao comitê da Câmara sobre Educação e Trabalho, proibindo na prática sua publicação. Os organizadores recorreram, porém, e conseguiram em segunda instância o direito de publicá-lo, desde que submetessem os dados aos reclamantes com antecedência de 90 dias.

No final de 2011, após um ano de revisão por pares, a equipe do DEMS submeteu à indústria o artigo a ser publicado no Journal of the National Cancer Institute. O lobby da mineração (Mining Awareness Resource Group, MARG) não lhes respondeu, mas em fevereiro de 2012 seu advogado, Henry Chajet, enviou cartas a quatro periódicos científicos, avisando-os de que pende um processo sobre o estudo (a associação voltou ao mesmo juiz, que mais uma vez suspendeu a publicação e os cientistas novamente recorreram) e ameaçando-os com consequências não especificadas caso publicassem o estudo. O atraso na publicação seria crítico, porque a Agência Internacional de Pesquisaem Câncer da OMS e o Programa Nacional de Toxicologia dos EUA estão para rever seus padrões de riscos de saúde relacionados ao diesel e suas decisões podem ter consequências financeiras para as mineradoras, obrigando-as a mudar seus processos e pagar indenizações.

Apesar das ameaças, o estudo foi finalmente publicado em 2 de março, ao vencer o prazo. O advogado Chajet, furioso, agora acusa os cientistas de desacatar ordens judiciais e diretrizes do Congresso e de terem estourado o orçamento. Mas as conclusões estão aí: trabalhadores em minas subterrâneas expostos à fumaça de diesel têm três vezes mais chance de contrair câncer de pulmão, independentemente de outros fatores de risco. Aos interessados, a íntegra dos artigos pode ser lida no Journal of the National Cancer Institute e nos seguintes endereços da internet:

http://www.oxfordjournals.org/our_journals/jnci/press_releases/silvermandjs034.pdf

http://www.oxfordjournals.org/our_journals/jnci/press_releases/attfielddjs035.pdf

O periódico publicou também um editorial sobre a questão:

http://www.oxfordjournals.org/our_journals/jnci/press_releases/rushtondjs137.pdf

Resumos podem também ser lidos no site do National Cancer Institute:

http://cancer.gov/newscenter/pressreleases/2012/DieselMinersPressRelease

http://www.cancer.gov/newscenter/pressreleases/2012/DieselMinersQandA

 

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